Nome. O termo Asuriní tem
sua origem na língua Juruna e, desde o século passado, vem sendo
utilizado para designar diferentes grupos Tupi da região entre os rios
Xingu e Tocantins. Este termo começou a ser empregado para denominar
este povo em particular na década de 50, pelos funcionários
do SPI durante os trabalhos de pacificação.
Os Asuriní do Tocantins são conhecidos também por Asuriní
do Trocará (nome da área indígena), e por Akuáwa-Asuriní.
Esta última denominação foi empregada pelo etnólogo
Roque Laraia na década de 60 em razão deste pesquisador considerar
o termo Akuáwa como a autodenominação do grupo.
Já há vários anos, porém, este povo assumiu o
termo Asuriní como sua autodenominação. Por outro lado,
como verificou a antropóloga Lúcia Andrade, na década
de 80, Akuáwa passou a ter uma conotação pejorativa,
sendo utilizado para designar "índios do mato", "índios bravos",
isto é, sem muito tempo de contato.
Língua. Os Asuriní
são falantes de uma língua da família Tupi-Guarani, estudada
pelos lingüistas Carl Harrison, Robin Selly e, mais recentemente, por
Velda Nicholson, Catherine Aberdour a Annette Tomkins, todos do Summer Institute
of Linguistics (SIL, chamada no Brasil por Sociedade Internacional de Lingüística).
Segundo Harrison (1980), existem várias diferenças dialetais
entre a língua Asuriní falada pelo grupo do Trocará e
pelo grupo do Pacajá. Na sua opinião, tais diferenças
sugerem que os contatos entre os dois grupos, então residentes em uma
única aldeia, eram anteriormente intermitentes.
Em 1962, os membros do grupo do Pacajá eram essencialmente monolíngües,
enquanto os Asuriní residentes no PI Trocará já falavam
português, aprendido com os funcionários do posto e suas famílias,
e com os vizinhos do rio Tocantins que os visitavam esporadicamente. Já
em 1973, todas as crianças a jovens Asuriní residentes no PI
Trocará só falavam a língua portuguesa, enquanto que
todos os membros do grupo do Pacajá falavam a língua indígena.
Atualmente praticamente todos os Asuriní falam com fluência o
português, sendo que os jovens e as crianças comunicam-se quase
que exclusivamente nesta língua.
Localização.
Os relatos do Asuriní apontam o Rio Xingu, como sua região de
origem, aonde teriam vivido com os Parakanã, constituindo no passado
um único povo. Estima-se que, nas primeiras décadas deste século,
os Asuriní abandonaram a região do Xingu, motivados por uma
série de cisões internas e conflitos com outros povos indígenas.
Assim, foram deslocando-se para leste, ocupando as cabeceiras do Rio Pacajá
e, posteriormente, para as proximidades do Rio Trocará, aonde encontram-se
até os dias de hoje.
Atualmente vivem na Terra Indígena Trocará, a 24 quilômetros
ao norte da sede do Município de Tucuruí (PA), no qual está
situada. Esta Terra Indígena, com 21.722 hectares, teve sua demarcação
administrativa homologada pelo Decreto n.º 87.845, de 22 de novembro de 1982,
estando registrada no cartório de imóveis de Tucuruí
e no Serviço de Patrimônio da União.
A TI Trocará é atravessada em toda a sua largura pela BR-153
que divide a área em duas partes. A aldeia e o posto da Funai ficam
a leste da estrada, na porção banhada pelo Rio Tocantins. A
parte situada a oeste é um retângulo de matas que constituem
uma das últimas florestas virgens de certa proporção
na região.
A TI Trocará está encravada na região do Projeto Grande
Carajás, que abrange o Estado do Maranhão e partes do Pará
e Tocantins. Este imenso programa de exploração mínero-metalúrgica,
que vem acompanhado de uma série de obras de infra-estrutura (como
a hidrelétrica de Tucuruí e a ferrovia que liga a Serra dos
Carajás à São Luís), vem provocando mudanças
radicais em toda a estrutura sócio-econômica da região
habitada pelos Asuriní.
A Hidrelétrica de Tucuruí, localizada a cerca de 30 quilômetros
rio acima da AI Trocará, transformou por completo o município.
Sua implantação, entre os anos de 1975 e 1984, implicou a vinda
de milhares de pessoas para a região. Assim, entre 1970 e 1980, o crescimento
anual da cidade de Tucuruí foi 22,7%, enquanto Belém, no mesmo
período, apresentava uma taxa de crescimento anual de 3,3%.
O território Asuriní não foi inundado pelo reservatório
da UHE Tucuruí. Localizados à jusante da barragem, os Asuriní
sofreram o que se convencionou denominar "efeitos indiretos", ou seja,
as conseqüências das profundas transformações na
estrutura sócio-econômica da região e dos desequilíbrios
ecológicos resultantes da instalação da obra.
Dentre tais transformações está a instalação
de uma série de fazendas na região. A AI Trocará encontra-se
totalmente cercada por fazendas de gado, constituindo-se numa das poucas áreas
de mata que ainda restam no município.
O desmatamento ao redor da reserva indígena trouxe conseqüências
para a fauna do território Asuriní. Assim, os índios
se queixam de que muitas espécies já não podem mais ser
encontradas e que está cada vez mais difícil conseguir caça.
Por outro lado, a mata da AI Trocará atrai vários caçadores
que invadem constantemente o território indígena.
Outro efeito indireto da hidroelétrica e da ocupação
acelerada da região foi um grande aumento na incidência de malária
entre os Asuriní, que, em 1985, era o principal problema de
saúde do grupo.
População. O quadro abaixo mostra como evoluiu a população Asuriní do Tocantins a partir de sua atração pelo órgão governamental indigenista.
População Asuriní do Tocantins
|
Ano |
Pop. no Posto |
Fonte |
|
1953 |
190 |
Laraia, 1979 |
|
1955 |
66 |
Arnaud,1961 |
|
1961 |
26 |
Arnaud,1961 |
|
1962 |
35 |
Laraia, 1979 |
|
1970 |
48 |
arquivo PI Trocará |
|
1976 |
92 |
Vidal, 1980 |
|
1980 |
106 |
Vidal, 1980 |
|
1982 |
120 |
Andrade, 1982b |
|
1984 |
132 |
Andrade, 1984b |
|
1990 |
191 |
Funai, 1990 |
|
1994 |
225 |
Funai, 1994 |
Como se pode observar no quadro acima,
a população Asuriní permaneceu abaixo de 100 indivíduos
até aproximadamente 1976-1977. Parte desse crescimento deveu-se à
chegada, em 1974, dos Asuriní que se encontravam no rio Pacajá.
A partir desta data, verifica-se um aumento constante de população,
sendo que em 1984 as crianças até 14 anos já constituíam,
aproximadamente, 55% da mesma.
Na época do contato (1953) a população
Asuriní era de 190 pessoas. Antes de terminar o ano, entretanto, morreram
mais de 50 indivíduos vitimados pela gripe e disenteria. Após
a epidemia, a maior parte dos índios retornou às matas. Em 1956,
após um atrito com o funcionário encarregado, o grupo que havia
permanecido no Posto também regressou à floresta. Dois anos
mais tarde, os remanescentes deste grupo retornaram. No início de 1962,
o grupo do Pacajá, que primeiro abandonara o PI Trocará, também
retornou ao local. Eram, nessa época, cerca de 30 índios; entretanto,
a gripe e a disenteria novamente dizimaram o grupo: seus 14 sobreviventes
fugiram para as matas, deixando 7 órfãos no Posto.
Caça,
pesca e coleta. 0 alimento que os
Asuriní mais apreciam e consideram mais nutritivo é a carne
de caça. Eles caçam mamíferos como anta, veado, caititu
e também cotia, macaco, paca, tatu e aves como nambu, tucano e mutum.
A caça é uma atividade preferencialmente masculina, mas algumas
mulheres também caçam.
Atualmente, os Asuriní caçam com
espingardas e durante a noite, pois dizem que de dia já não
encontram mais animais. Eles têm muita dificuldade em adquirir as espingardas,
a munição e as pilhas necessárias para a lanterna e,
com isso, tornam-se dependentes da Funai que, esporadicamente, os presenteia
de modo insuficiente com tais artigos. Em muitas ocasiões, os índios
não têm carne para comer.
A pesca, que poderia equilibrar a alimentação,
também parece estar sendo afetada pelas mudanças ecológicas
por que passa toda região. Mesmo assim, sua importância como
fonte alimentar para o grupo é hoje muito maior do que no período
anterior ao contato. Ela é praticada por homens adultos e, também,
por mulheres e crianças, embora com menor freqüência. Pescam
com anzóis, malhadeiras e tarrafas no rio Trocará, nos lagos
próximos ao rio Tocantins, mas raramente neste rio.
Durante os meses de julho e agosto, até
as águas baixarem completamente, a pesca nos lagos próximos
à aldeia é bastante difícil e só vai melhorar
em fins de setembro. Neste período, a pesca só é compensadora
nos rios mais distantes da aldeia, o que envolve o deslocamento de toda a
família nuclear ou extensa, que passa vários dias acampada em
algum ponto distante da Terra Indígena, onde também é
possível encontrar caça com mais facilidade. É nessas
ocasiões, segundo os Asuriní, que comem bem e engordam.
Nos meses de janeiro a abril (época das
chuvas), os Asuriní coletam produtos como açaí, bacuri
e castanha-do-pará. Esta é uma atividade masculina, sendo que
algumas vezes as mulheres auxiliam. Tais produtos destinam-se ao consumo próprio
a à venda em Tucuruí; somente a castanha-do-pará, cuja
produção é muito incipiente, não é vendida.
A aldeia.
Atualmente, os Asuriní residem todos numa
única aldeia, localizada a cerca de três quilômetros da
margem do rio Tocantins. Em 1988, a aldeia era formada por trinta casas, que
abrigavam as diferentes famílias nucleares.
As casas são construídas com madeira
de paxiúba, utilizada nas paredes e assoalhos, e palha de ubim, empregada
na cobertura e, às vezes, também nas paredes. A arquitetura
das casas segue o padrão regional, sendo que algumas são construídas
sobre palafitas. Embora mais raramente, são feitas também algumas
/. Há 4 ou 5 anos atrás foram construídas casas novas
de madeira e telha por conta de uma indenização pela estrada
Trans-Cametá.
As habitações estão, geralmente,
divididas em três cômodos: sala, cozinha e quarto. Na parte dos
fundos, encontram-se pequenas construções com as fossas sanitárias.
Algumas residências têm mais de um dormitório, um para
o casal e outro para os filhos, mas, na sua maioria, possuem apenas um grande
quarto, onde dorme toda a família. Este cômodo é utilizado
para dormir, para o descanso da tarde e, ainda, para a realização
de tarefas como preparar a munição e costurar roupas, que requerem
um pouco de privacidade ou distância das crianças.
Na maior parte do tempo, os moradores permanecem
na cozinha-sala. Algumas casas têm a cozinha instalada a uma pequena
distância, numa construção habitualmente mais aberta,
sem paredes laterais. Na cozinha tem-se o jirau e o fogão, geralmente
construído em uma armação de tijolos, madeira e barro.
Algumas famílias, formadas por casais mais jovens, empregam o fogão
a gás. O jirau é utilizado para tratar a caça, preparar
a comida e lavar a louça. Eles são armados numa janela, do lado
de fora da casa, de maneira que a água não caia no interior
da residência.
Na cozinha, em prateleiras ou fincados na palha
das paredes e teto, são guardados os utensílios domésticos:
pratos, facas, talheres, copos, escovas de dente, linha de pesca, etc. Neste
cômodo encontra-se o mobiliário mais sofisticado da casa: as
mesas e as cadeiras. É neste local, que são realizadas as refeições
e recebidos os visitantes. As visitas podem ser recebidas, ainda, no pátio
em frente da casa. Como objetos domésticos, os Asuriní costumam
possuir também redes (e, mais raramente, camas), armários, rádios,
"eletrolas" e, em algumas casas, aparelhos de televisão.
As residências são construídas
pelos homens, que, geralmente, executam esta tarefa individualmente. A construção
de uma nova casa pode ser motivada pela velhice da antiga habitação
ou pelo desejo de mudança de local motivado por razões como
uma briga com os vizinhos.
Os igarapés próximos das casas
são considerados quase como um espaço doméstico, uma
continuação da aldeia. Nestes igarapés, as mulheres lavam
as roupas e panelas e recolhem a água para as casas. É lá
também que se toma banho. As crianças passam grande parte do
dia brincando nos igarapés. Cada seção residencial utiliza
um determinado ponto do curso d'água. Nas áreas entre as residências
e os igarapés costumam ser cultivadas pequenas roças de milho,
cará, batata, banana e abacaxi.
As habitações da aldeia alinham-se
ao longo de um caminho que vai do posto da Funai até a casa de farinha
- esta já localizada nos arrabaldes, ou seja, na periferia do espaço
social. Ao longo desta reta principal formam-se também alguns aglomerados
de casas, que costumam constituir as seções residenciais. Cada
uma dessas unidades residenciais possui seu pátio de convivência,
geralmente frente à habitação do casal mais velho. Cotidianamente,
tais pátios marcam os espaços de interação no
nível interno da aldeia.
Existe um único espaço de interação
de toda a aldeia: o Tekataua - a casa cerimonial permanente. É
neste espaço ritual que a aldeia se institui como uma unidade. Não
existe um local pré-determinado para a instalação do
Tekataua, a única determinação é
que este deve ter a sua frente voltada para o leste, aonde está o Espírito-Onça.
Assim, a sua localização se faz, não em referência
ao Social (à aldeia), mas ao Sobrenatural.
O Tekataua é utilizado apenas
nas ocasiões rituais, não constituindo um espaço da esfera
do político. As decisões políticas são tomadas
"informalmente" na esfera das casas, sem que a aldeia enquanto uma unidade
seja acionada. A política se faz na dispersão. Eventualmente,
uma reunião dos índios com algum funcionário da Funai
em visita na aldeia pode ocorrer no Tekataua, mas o mais comum é
que esta seja realizada na área do posto da Funai.
O posto da Funai constitui um espaço
não-tradicional de interação social, com destaque para
as reuniões de deliberação do órgão indigenista
e a escola. Esta última implica o relacionamento de crianças
de diversas seções residenciais que, no âmbito da aldeia,
não teriam uma convivência cotidiana.
Outro espaço não-tradicional é
a casa de farinha coletiva, construída pela Funai. Esta edificação
abriga os fornos para torrar a farinha, o caititu, o ralador e os tipitis.
Tradicionalmente, cada família nuclear ou seção residencial
executava esta tarefa em espaço próprio. Algumas ainda o fazem
desta forma, mas somente aquela farinha para subsistência. A produção
de farinha para fins de comercialização tem colocado a necessidade
de uso da nova infra-estrutura.
A aldeia Asuriní estrutura-se
a partir de seções residenciais que têm como modelo a
família extensa uxorilocal. Sua composição paradigmática
seria portanto: o casal-chefe, seus filhos solteiros de ambos os sexos e suas
filhas casadas que trazem para o grupo os seus maridos.
Cada seção residencial constitui
uma unidade espacial, mas principalmente uma unidade econômica e política.
No âmbito de tais seções, há troca regular de alimento,
cooperação em atividades econômicas, convivência
cotidiana, e solidariedade em momentos de crise, como doenças, brigas
e divergências políticas.
A seção residencial costuma corresponder
a uma configuração espacial: casas aglomeradas que compartilham
de um pátio comum. Os moradores de uma seção dividem
ainda os mesmos pontos de banho nos igarapés que circundam a aldeia.
Este é um espaço de convivência cotidiana principalmente
para as mulheres, que lá passam um bom tempo de seu dia nas tarefas
de lavar a roupa e a louça.
A localização das roças
costuma corresponder à das unidades residenciais. Os moradores de uma
mesma seção, habitualmente, colocam suas roças próximas
uma das outras. Os projetos de "roça comunitária" da Funai modificaram
um pouco esta organização espacial, uma vez que, hoje, há
uma única grande roça de mandioca, arroz e cacau, destinada
à comercialização de tais produtos. No entanto, as roças
de subsistência (dedicadas ao plantio de cará, batata, banana,
abacaxi, milho) continuam a orientar-se pela lógica das seções
residenciais.
A autonomia econômica e política
é a marca de tais seções. Neste sentido, a aldeia Asuriní
não parece ser mais que a justaposição de tais unidades
residenciais que, no cotidiano, operam de forma independente. A única
ocasião em que os moradores das diversas seções atuam
conjuntamente é durante os rituais. É como se cada seção
residencial constituísse uma aldeia própria.
Os siblings de sexo oposto têm papel importante
no estabelecimento da continuidade entre as diversas seções
residenciais. Mesmo pertencendo a unidades diferentes, eles mantêm uma
rede de relações informais que, na prática, constituem
o elo de ligação entre as seções. São estas
relações que, perpassando as diversas seções residenciais,
contribuem para a instituição de uma unidade maior que é
a aldeia.
É importante ressaltar também
que as seções residenciais são bastante fluídas;
seus arranjos variam com o passar do tempo. Um dos fatores desta re-estruturação
é justamente a tendência dos irmãos de ambos os sexos
permanecerem unidos. Assim, se a troca de irmãs ou o casamento de grupos
de siblings não institui essa situação, pode haver re-arranjos
não previstos no sistema formal.
O fato do casal-chefe estar vivo ou não
pesa bastante neste movimento de recomposição. Enquanto o sogro
ou a sogra estão vivos, eles continuam a exercer um poder sobre os
genros que se reflete na manutenção da uxorilocalidade.
As dissoluções dos casamentos,
assim como os desentendimentos entre os moradores de uma seção
e o desejo dos irmãos permanecerem unidos constituem os fatores mais
comuns para os re-arranjos das unidades residenciais - eles instituem um movimento
de dissolução da uxorilocalidade.
Ciclo de vida.
Toda criança Asuriní
é concebida como fruto da relação sexual de sua mãe
com Mahira (herói mítico), o que ocorre durante o sonho.
Quando tem um sonho como este, a mulher sabe que está grávida;
deve então ter muitas relações com seu marido para que
o sêmen dele faça o feto crescer. Todos os homens com quem a
mulher mantiver relações neste período serão considerados
pais biológicos da criança.
0 parto ocorre no interior da casa onde ficam
apenas as mulheres e crianças, pois os homens adultos não devem
ter contato com o sangue da parturiente. A mulher conta com a ajuda de uma
ou mais parteiras, geralmente sua mãe. 0 pai do recém-nascido
só vai entrar na casa para vê-lo horas depois. A placenta e o
cordão umbilical são enterrados para que nenhum animal possa
comê-los, o que faria mal à criança.
0 resguardo da mãe e do pai, até
que o umbigo da criança caia, implica numa série de tabus alimentares,
em evitar tarefas pesadas e na permanência na casa. A criança
recém-nascida deve ser pintada de jenipapo para que cresça mais
depressa. Por essa mesma razão, o seu pai deve cantar para ela todos
os dias.
Alguns dias depois do parto, a criança
recebe um nome, geralmente escolhido pelos avós que conhecem os nomes
dos antigos. 0 nome é sempre de um morto, mas não parece estabelecer
relação entre seu antigo dono e a criança. Os nomes referem-se
a animais, frutas, plantas e outros. Tradicionalmente um homem tinha de três
a quatro nomes. O recebimento do segundo nome estaria relacionado ao cerimonial
de perfuração do lábio inferior, o que permitia ao rapaz
o uso do ornamento labial e do estojo peniano. Este ritual não é
praticado hoje em dia, e o pajé era o único a usar o ornamento
labial.
Os jovens casam por volta dos 15 anos. São
consideradas esposas preferenciais de um homem a filha da irmã de seu
pai e a filha de sua irmã. A maior parte dos casamentos são
monogâmicos, mas, nos anos 80, a antropóloga Lúcia Andrade
verificou a existência de dois casamentos poligâmicos, contraídos
ainda na década de 60.
Ao casarem, os jovens, via de regra, vão
residir na casa dos pais da esposa. Caso se trate do primeiro casamento do
rapaz, ele passa inclusive a morar na casa do sogro. Após um período
- que parece ter como limite o nascimento do primeiro filho- o rapaz constrói
sua própria casa, próxima à dos pais da esposa.
O genro deve manter uma relação
de obrigação para com o sogro que implica cooperação
em atividades econômicas, apoio político, bem como em distância
e respeito. O relacionamento entre sogro e genro costuma ser cordial, mas
formal - há uma distância que marca a hierarquia existente entre
ambos.
Um genro deve colaborar com o seu sogro nas
atividades econômicas como, por exemplo, no preparo da roça.
É comum também que eles saiam juntos para caçadas mais
prolongadas, que implicam a dormida na mata por dois ou três dias. Vale
ressaltar, porém, que não se trata apenas de uma prestação
de serviço do genro para o sogro, pois, normalmente, eles realizam
as atividades conjuntamente. Há uma cooperação que beneficia
a ambos. A diferença está no poder de convocação
do sogro. Um genro dificilmente recusará a solicitação
de seu sogro.
Tal poder de convocação torna-se
um poder político ainda mais importante numa sociedade como a Asuriní,
onde não existe, por exemplo, a instituição do pátio
da aldeia, onde os homens discutem e deliberam sobre questões de ordem
política e econômica. Não existe a figura do chefe com
capacidade de mobilizar a aldeia como um todo.
Assim, não se verifica a existência
entre os Asuriní de uma figura ou instituição que possibilite
acionar toda a aldeia para deliberação e execução
de decisões políticas e econômicas. O poder de convocação
nesta sociedade parece restrito à relação sogro-genro;
à esfera, portanto, das seções residenciais. Desta forma,
o prestígio político de um homem Asuriní está
diretamente ligado aos casamentos de suas filhas.
A medida em que o homem vai ficando mais velho,
casando os seus filhos e cercando-se de genros, ele vai tornando-se politicamente
mais influente. Quanto maior o número de genros que um homem tiver,
maior o contingente que ele poderá mobilizar.
Outras fontes de prestígio são
o xamanismo e, antigamente, a atividade guerreira, que combinadas poderiam
fortalecer ainda mais a importância de um indivíduo.
A preparação de um homem para
o xamanismo inicia-se quando ele ainda é jovem, através da participação
nas "festas do tabaco". A participação nos rituais garante,
inclusive, o crescimento biológico dos indivíduos. Assim, se
um rapazote está custando a crescer, seus pais levam-no para a festa
para que dance bastante e alcance o seu fortalecimento físico.
Os rituais contribuem para a formação
biológica e social de um homem Asuriní. Um conhecimento básico
sobre o xamanismo é imprescindível à formação
social do homem. Não se trata de um tema apenas para especialistas.
Assim, o poder de cura pode ser restrito, mas o conhecimento e o contato com
o Sobrenatural são constitutivos da personalidade masculina. Desta
forma, todo homem Asuriní é um pouco pajé.
Sistema ideológico.
Os Asuriní consideram que Mahira, "nosso velho avô",
foi o criador dos seres humanos e o responsável pela instauração
da ordem na Terra. Ele coordenou a ordenação física do
mundo, endurecendo, com o auxílio da anta, a superfície da terra
que era mole; separando o céu da terra; resgatando a noite que era
possuída pela coruja, etc.
Também contribuiu para o estabelecimento
da Cultura, transmitindo aos homens os conhecimentos básicos, como
o cultivo da mandioca, a confecção das flautas e as músicas.
Assim, como explicou um Asuriní: "tudo o que foi inventado pelo índio,
foi ensinado por Mahira".
Na época das origens, Mahira morava
na aldeia com os Asuriní. Aqui, ele tinha uma esposa e uma filha. Sua
filha nunca conseguia permanecer muito tempo casada pois Mahira aborrecia-se
com seus genros e, fumando seu tawari, transformava-os em animais.
Este comportamento acabou obrigando Mahira a mudar-se para longe da
aldeia, pois os humanos aborreceram-se muito com ele.
Por fim, os Asuriní já planejavam
assassinar Mahira e ele decidiu voltar para o céu: "Deu muito
temporal forte, deu muito tempo forte e ele subiu. Queria pegar no toco para
não subir, em outro, até que o vento levou. Aí, abriu
o braço e foi embora". Foi, após o retorno de Mahira
aos céus, que surgiram entre os humanos as doenças; antes ninguém
ficava doente, nem havia pajé.
Hoje, Mahira e sua esposa, moram no céu,
em um local denominado Tupana. É para este mesmo lugar que vão
os mortos: "quem morre faz outra casa lá, diz que tem muito. Branco
também vai para lá. Lá mora tudo caboclo que morreu".
Segundo os Asuriní, neste local aonde reside Mahira, tem céu,
sol, lua: "tem tudo assim como tem aqui, tem lá. Lá em cima
tem caça, Mahira caça. Tem muita gente lá em cima, tem
roça, tem tudo".
E lá do alto, Mahira continua
acompanhado a vida dos humanos na Terra, continua desempenhando seu papel
de Criador. Como já viu, Mahira é o pai de todos os Asuriní.
E ele não apenas gera as crianças, mas também zela por
sua criação. Assim, se uma criança é constantemente
maltratada por sua mãe, Mahira deixa-a subir: faz com que ela
fique doente, morra e vá para junto de si. Como ele "gosta" muito das
crianças impede que continuem sendo maltratadas.
Mahira tem, portanto, poder de vida e
morte sobre os humanos. E a vida destes nada mais é do que um ciclo
que começa e termina em Mahira: os humanos nascem dele e a ele
vão se juntar na morte.
Na concepção Asuriní, o
mundo sobrenatural está dividido em duas esferas independentes: a de
Mahira e a de Sawara (o espírito onça). O domínio
de Mahira remete ao ciclo da vida e da morte, da reprodução
biológica dos humanos, estando associado ao céu e às
mulheres - as únicas que na Terra mantêm uma relação
com Mahira, através de atos sexuais ocorridos nos sonhos. Já
a esfera de Sawara remete ao xamanismo e a crença na possibilidade
de renascimento dos pajés, estando associado à mata e ao universo
masculino.
A atividade xamanística entre os Asuriní
é bastante intensa e tem grande importância. Para que um homem
torne-se pajé é necessário que ele percorra, em sonhos,
um caminho cheio de perigos e chegue até Sawara, o espírito-Onça.
É no contato com Sawara que ele receberá o Karowara
e, assim, o poder de curar os doentes.
Para que este sonho se concretize, no entanto,
é necessário que o aprendiz passe por um longo processo que
o capacite a lidar com as forças sobrenaturais e aprimore seus conhecimentos
acerca dos mitos e das músicas.
A etapa central deste aprendizado são
as festas do tabaco, onde os novatos são introduzidos no contato com
o Karowara. Nestes rituais existem também momentos dedicados
ao aprendizado das histórias míticas e das canções,
contadas e cantadas pelo pajé. Tal procedimento complementa
um processo iniciado informalmente na casa de cada indivíduo, onde
é possível ouvir os pais e os avós relatando as "histórias
de antigamente".
As festas de tabaco são coordenadas por
um pajé. É ele quem decide o momento de sua realização,
atendendo, muitas vezes, ao pedido de um ou outro homem que deseja dançar.
Segundo os Asuriní, o pajé tem a preocupação de
fazer com que os homens dancem de tempos em tempos para que "não se
esqueçam".
O pajé é o especialista que trata
das doenças provocadas pelos Karowara. A etiologia Asuriní,
no entanto, congrega além desta, outra categoria de enfermidade cuja
cura não está restrita ao âmbito dos pajés, muito
embora eles devam dominar também a técnica destes tratamentos.
Não é este conhecimento que qualifica o indivíduo para
a função de pajé, mas um bom profissional deve
procurar inteirar-se destes procedimentos. De outro lado, este saber é
fonte de prestígio para os outros Asuriní e, geralmente, são
os mais velhos que o detêm.
A etiologia Asuriní distingue duas categorias
básicas de enfermidades. De um lado, estão aquelas que resultam
de um contato com o Sobrenatural (as doenças de Karowara) e,
de outro, as demais moléstias conhecidas. Nesta segunda classe, incluem-se
aquelas classificadas como "doenças de branco/cristão" (gripe,
sarampo, pneumonia, catapora, etc.), que devem ser tratadas na enfermaria
da Funai ou no hospital da cidade de Tucuruí. Quando o pajé
diagnostica uma moléstia nesta subcategoria, recomenda que o paciente
procure a enfermaria, que, aliás, "só sabe mesmo curar este
tipo de doença".
Ao lado das "doenças de branco" figuram,
nesta segunda categoria, enfermidades que são curadas com plantas medicinais.
Tais moléstias costumam ser diagnosticadas e tratadas, no âmbito
familiar, pelo próprio doente (quando adulto) ou por algum parente
próximo. O uso de tais plantas é bastante difundido, embora
os velhos acumulem maiores conhecimentos nesta área.
Os Asuriní citam receitas para curar
uma grande variedade de doenças, como: malária, febre, dor de
dente, dor de cabeça, ferrada da formiga tocandeira, lombriga, picada
de cobra, disenteria, tosse, mordida de aranha, cortes, feridas, dor de ouvido
e dor de garganta. A maneira de empregar as plantas é também
variada, podendo ser utilizadas as folhas, o caule ou ainda o líquido
extraído do vegetal. As plantas podem ser aplicadas diretamente no
local da dor. Outras vezes, prepara-se um banho com as folhas, ou ainda, cozinha-se
a planta na água, devendo o paciente ingerir o líquido.
É comum que os doentes recorram a estes
expedientes caseiros antes de procurar o pajé. Se a enfermidade não
cessa com este tratamento, a família levanta a hipótese de uma
doença de Karowara e recorre ao pajé para um diagnóstico;
isto é bastante usual no caso das dores de cabeça e de febres.
De outro lado, o uso das plantas medicinais não elimina o emprego simultâneo
de remédios fornecidos pela Funai, especialmente se o doente é
uma criança.
Os Karowara são uma importante
força-sobrenatural que circula entre os humanos e os seres sobrenaturais,
através de ações que envolvem cooperação
ou agressão. Os Karowara são tanto a fonte de poder dos
pajés (que optam por tê-lo dentro de si), como a causa de doenças.
Neste segundo caso, os Karowara são
jogados nos humanos pelos Takwitimasa, uma categoria de seres sobrenaturais
que reside na mata. Uma razão mencionada para este procedimento agressivo
dos Takwitimasa frente aos humanos diz respeito ao seu comportamento
frente aos animais. Assim, se diz que os Takwitimasa jogam Karowara
nos humanos quando estes maltratam os animais.
Os pajés têm o poder de retirar
os Karowara inseridos pelos Takwitimasa nos humanos, bem como
o de colocá-los no seu corpo dos homens dentro do processo de formação
de um pajé.
A aquisição de tal poder, como
se viu, depende de uma terceira forma de recebimento de Karowara através
do Espírito-onça (Sawara). A relação com
este espírito, por outro lado, é o que vai conferir ao homem
a capacidade de ressurreição.
Acreditam os Asuriní que, se o corpo
do pajé for enterrado de acordo com determinados procedimentos, cuja
execução é de responsabilidade das mulheres, ele ressuscitará.
O renascimento seria o destino ideal dos homens.
Esta possibilidade não se coloca para
as mulheres, que ao morrer vão necessariamente para Tupana,
aonde encontra-se Mahira. A existência das mulheres obedece,
assim, a um movimento cíclico que se inicia
e finaliza em Mahira.
Foi também
na década de 60 que tiveram início
as pesquisas antropológica por Roque Laraia e Expedito Arnaud. Nesta
época, Arnaud publicou alguns artigos que trazem informações
gerais a respeito do grupo, referentes ao contato, à terminologia de
parentesco e às atividades de subsistência.
Roque Laraia realizou sua pesquisa junto aos
Asuriní em 1962, tendo permanecido entre eles durante quatro meses.
Nesta ocasião, a comunidade sofria as conseqüências de um
trágico processo depopulacional, resultado de sucessivas epidemias
trazidas com a "pacificação". Assim, o grupo de 190 indivíduos
contatados em 1953 estava, em 1962, reduzido a 34 índios residentes
junto ao posto do SPI, 10 dispersos entre não-índios e 14 na
mata - estes últimos constituíam o grupo do Pacajá, com
o qual Laraia não teve contato.
A enorme redução populacional
dos Asuriní por um lado, e a orientação teórico-metodológica
de Laraia por outro, explicam porque ele não elaborou uma monografia
específica e detalhada sobre os Asuriní. Sua pesquisa
incluía-se no projeto "Áreas de Fricção Interétnica",
dirigido por Roberto Cardoso de Oliveira, tendo seus resultados sido apresentados
no artigo A Fricção Interétnica no Médio Tocantins
(1964) e no livro Índios e Castanheiros, que o autor publicou
em 1967, juntamente com Roberto da Matta. Nestes trabalhos, as principais
informações sobre os Asuriní são aquelas que se
referem à história do contato. Os dados sobre a organização
social restringem-se à terminologia de parentesco e às regras
de casamento, que são analisadas pelo Autor.
Outra preocupação que norteava
os trabalhos de Laraia era a perspectiva comparativa. Assim, a sua decisão
de trabalhar com os Asuriní deveu-se às informações
sobre a semelhança destes com os Suruí, entre os quais Laraia
já desenvolvia suas pesquisas. O resultado deste estudo comparativo
pode ser verificado artigo do autor Akuáwa-Asuriní e Suruí
- Análise de Dois Grupos Tupi (1972), que traz ainda informações
breves, mas inéditas, sobre a cultura material, as atividades econômicas
e o xamanismo Asuriní.
A perspectiva comparativa está presente
também na sua dissertação de doutorado Organização
Social dos Tupi Contemporâneos, apresentada em 1972 e publicada
com o título Tupi: índios do Brasil atual. Como se
poderia esperar de um trabalho comparativo, as informações sobre
os grupos indígenas são gerais. O autor não abrange o
sistema cultural dos Asuriní como um todo, como só seria possível
numa monografia específica sobre este grupo. Mesmo assim, é
em sua tese que Laraia oferece um maior número de dados sobre os Asuriní,
abordando outros aspectos da organização social, além
da terminologia de parentesco e das regras matrimoniais analisados nas obras
anteriores.
Mais recentemente, na década de 80, os
Asuriní foram estudados pela antropóloga Lúcia Andrade.
Esta pesquisa deu-se no âmbito da renovação dos estudos
dos Povos Tupi, desenvolvidos por uma série de antropólogos
de diversas instituições de ensino e pesquisa junto a grupos
Tupi da Amazônia, na época recém-contatados, e também
a povos já conhecidos como os Asuriní.
Lúcia Andrade realizou pesquisa de campo
entre 1982 a 1989 que resultou na dissertação de mestrado O
Corpo e o Cosmos, Relações de Gênero e o Sobrenatural
entre os Asuriní do Tocantins apresentada ao Departamento de Antropologia
Social da Universidade de São Paulo, em 1992. A dissertação
versa sobre dois temas centrais o xamanismo e a relação entre
os gêneros, através dos quais são analisadas a cosmologia
dos Asuriní e a sua noção de Pessoa.
Anambé | Apiaká
| Arara | Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka | Atikum
| Bakairí | Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára | Javaé Ka'apor
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| Krahó | Krenák | Kwazá
| Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
| Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é