Língua. A língua
Bakairí pertence à família Karíb. Segundo os estudiosos,
ela apresenta elementos comuns às dos Arára e Txikão
e outros às dos Nahukwá e Kuikúru. Todos os Bakairí
falam a sua língua, assim como o português.
Desde a década de 60, missionários do Summer Institute of Linguistics
(S.I.L.) traduzem textos bíblicos para a língua Bakairí.
Cartilhas para alfabetização na língua materna foram
por eles elaboradas. Esses trabalhos tendem a uniformizar as diferenças
internas, que estão por merecer um cuidadoso estudo.
Localização.
Vivem no estado de Mato Grosso, nas Terras Indígenas Bakairí
(61.405,5905 hectares) e Santana (35.479,7443 hectares). Em ambas predomina
o cerrado.
Santana situa-se no município de Nobres e tem o seu nome emprestado
de um afluente do Rio Novo que, desenhando parte dos seus limites, desce em
busca do Arinos, tributário do Juruena, afluente do Tapajós.
A Terra Indígena Bakairí, na sua quase totalidade, localiza-se
no município de Paranatinga, à margem direita do rio Paranatinga
ou Telles Pires, afluente do Tapajós. Uma parte dela situa-se no município
de Planalto da Serra, à margem esquerda daquele rio. Nas suas vizinhanças
encontram-se o morro do Urubu, do Daniel e parte da Serra Azul.
Juridicamente, ambas se encontram regularizadas: homologadas e registradas
no Serviço de Patrimônio da União e no Cartório
de Registro de Imóveis.
Os centros urbanos que mais influências exercem na vida dos Bakairí
são Nobres, Paranatinga e Cuiabá, a capital do estado.
Demografia. Os Bakairí somam hoje cerca de 950 pessoas, sendo que 898 moram nas Terras Indígenas e estão assim distribuídas:
|
Município |
Terra Indígena |
Grupo Local |
População |
|
Nobres |
Santana |
Santana Nova Canaã Boa Esperança Quilombo |
165 40 31 |
|
Paranatinga |
Bakairí |
Painkun Kaiahoalo Pakuera Alto Ramalho Painkun Âtuby Aturua |
50 45 285
180 |
|
Planalto da Serra |
Sawâpa |
28 |
|
|
Total |
02 |
11 |
898 |
Estas últimas décadas são marcadas por uma recuperação demográfica bastante significativa, como pode-se observar no quadro abaixo:
|
Ano |
Total |
|
1965 |
261 |
|
1968 |
277 |
|
1977 |
386 |
|
1980 |
414 |
|
1983 |
448 |
|
1988 |
572 |
|
1996
|
651
|
|
1999 |
898 |
Registram-se casamentos com não-indígenas e os filhos resultantes, se observarem suas regras básicas de sociabilidade, são considerados Bakairí.
História do contato. O
seu berço mítico de origem - o salto Sawâpa - situa-se
abaixo da confluência do rio Verde com o Paranatinga. Devido a conflitos
internos e pressões de povos indígenas inimigos, fundamentalmente
os Kayabí, os Bakairí migraram em três diferentes direções.
Uma parcela deslocou-se para as cabeceiras do Arinos; e foi a primeira a ser
alcançada por bandeiras, nas primeiras décadas do século
XVIII, sendo a partir de então engajados, nas atividades mineradoras.
Outra deslocou-se para o alto Paranatinga; e foi envolvida por colonizadores
dedicados à pecuária, agricultura e atividades a elas subsidiárias,
nas primeiras décadas do século XIX. A terceira, que era a maior
parte, tomou o rumo do alto Xingu, perdendo o contato com as outras duas.
Os Bakairí das duas primeiras parcelas passaram a ser conhecidos como
"mansos" ou "independentes". Posteriormente Karl von den
Steinen viria denominá-los de "ocidentais", reservando o
qualificativo de "orientais" aos do alto Xingu.
A partir de 1847, os Bakairí do Arinos, também ditos de Santana,
passam a freqüentar, com os do alto Paranatinga, a Diretoria Geral de
Índios, em Cuiabá, à busca de brindes. Posteriormente,
engajaram-se nas atividades extrativistas da borracha, sobretudo os de Santana,
indo comercializá-la nessa capital. Os Bakairí de Santana acabaram
por trabalhar, compulsoriamente, na extração da borracha, inclusive
nas suas próprias terras, para os seringalistas que as ocuparam. Proibidos
de falar a sua língua, entre outras violências contra eles praticadas,
parcelas desses Bakairí migraram para o Paranatinga, nas décadas
de 20 e 60. Mas daí foram expulsos por funcionários do órgão
tutor, que alegavam, tal como os seringalistas, que eles roubavam gado. A
criação do Posto Indígena Santana, em 1965, não
alterou esse quadro. O S.I.L., a partir dessa época, aí se fez
presente, intermitentemente, assim como missionários jesuítas.
Anos depois os próprios Bakairí expulsaram os invasores de Santana.
Somente em 1975 nela foi implantada uma escola.
Os Bakairí do Paranatinga foram guias, construtores de canoas e intérpretes
nas expedições de Steinen - realizadas em 1884 e 1887 - e nas
outras que as sucederam. Através delas se restabeleceram as relações
entre os Bakairí Orientais e os Ocidentais, na terminologia de Steinen.
Antes os Bakairí do alto Xingu e demais povos que aí viviam
eram desconhecidos dos brancos.
Em 1920 foi criado o Posto Indígena e foi demarcada a Terra Indígena
Bakairí, deixando fora dos seus limites o grupo de Antoninho, famoso
guia de Steinen. Tinha-se por objetivo atrair para aí todos os indígenas
alto-xinguanos, e conquistar assim terras e mão-de-obra para a colonização.
Mas apenas os Bakairí se deslocaram definitivamente para o Paranatinga
e três anos depois não se registra mais a sua presença
no alto Xingu. Reduzidos por uma depopulação crítica,
os transferidos se reorganizaram em vários grupos, às margens
do Paranatinga, e foram submetidos ao trabalho compulsório pelos agentes
do órgão tutor. Os demais indígenas do alto Xingu visitavam
o Posto em busca de "brindes".
Nesse período de perdas territoriais e depopulação, começaram
a atuar entre eles missionários da South American Indian Mission, que
só se retiraram na década de 60 por pressão dos Bakairí.
Implanta-se também, em 1922, a escola. Vinte anos depois os diversos
grupos locais foram aglutinados em um só "aldeamento", ao
lado do Posto, pois a mobilidade e a dispersão, essenciais ao seu universo
de sociabilidade, foram consideradas um estorvo à educação
e aos serviços de saúde. Aqueles que não se submetiam
à ordem imposta eram transferidos para outras terras indígenas,
sobretudo as dos inimigos. Alguns participaram, compulsoriamente, da "pacificação"
de um grupo Xavante, no alto Batovi. Uma parcela desses Xavante migrou para
a TI Bakairí, mas em 1974, com uma população de 180 pessoas,
que sobrepujava a Bakairí, retirou-se para o rio Culuene.
A década de 80 é marcada por Projetos de Desenvolvimento Comunitário
financiados com recursos do Banco Mundial, que introduziram nas duas áreas
caminhões e lavoura mecanizada, dentre outras coisas. Na Terra Indígena
Bakairí, registra-se, nesse período, a reconquista de uma área
de terras que lhe fora subtraída por ocasião de uma segunda
demarcação. O acesso desigual aos bens introduzidos resultou
na fragmentação do "aldeamento" existente e na constituição
dos grupos locais atuais.
Organização social e
política. Os Bakairí são ribeirinhos, agricultores
e pescadores, cumprindo a caça e a coleta papel complementar. Eles
vivem dispersos em diversos grupos, cada qual dominando um território
delimitado por rios e riachos e com direito a seus recursos. Em regra, a denominação
dessas unidades político-territoriais corresponde aos nomes dos rios
ou riachos próximos. Um indivíduo ou uma família é
identificada como pertencente ao local em que vive, havendo uma relação
entre identidade e territorialidade. Essa é a unidade sociológica
mais ampla nessa sociedade: o grupo local.
O grupo local é constituído, em geral, a partir de um grupo
de irmãos de ambos os sexos, ou de dois que se casam entre si, sendo
liderado por aquele indivíduo que reuniu forças políticas
para tanto. É formado por um número variável de grupos
domésticos constituídos, na sua maioria, por famílias
elementares, ou seja, compostas basicamente por pai, mãe e filhos.
Os chefes desses grupos são os esteios que sustentam a ordem política
e jurídica, através de um conselho. Cabe ao líder manter
o delicado equilíbrio entre eles e representá-los diante de
outros grupos locais e dos não-indígenas.
As unidades residenciais são dispostas linearmente, formando ruas,
estilo introduzido pelos agentes do órgão tutor. Mas há
sempre um local, ao lado da casa do líder, vivido como se fora o centro,
onde fazem reuniões e rituais. Em alguns grupos tem-se o kadoêti,
a "casa dos homens", na qual se guardam as máscaras rituais.
A família elementar contém em si um forte princípio de
autonomia. Ela pode romper com as alianças estabelecidas e ir residir
em outro grupo local onde tenha parentes, seja do lado materno ou paterno,
de qualquer um dos cônjuges. Os homens recém-casados vivem na
casa do sogro - com exceção dos filhos primogênitos de
líderes - até o nascimento do primeiro filho, quando podem escolher
onde residir, se com os seus parentes ou os da esposa. O sistema de parentesco
é bilateral, ou seja, têm igual importância os parentes
paternos e maternos. Terminologiacamente pai e irmão do pai são
igualados, assim como a mãe e a irmã da mãe. Há
termos distintos para irmã do pai e para irmão da mãe.
O casamento une preferencialmente parentes distantes, social e biologicamente.
Não se pode pronunciar os nomes dos parentes afins, reais ou potenciais.
Os nomes são oriundos dos consangüíneos mortos, os quais
só podem ser pronunciados depois de recolocados em circulação.
Idealmente são os avós maternos e paternos que nominam a criança.
Cada qual resgata, no mínimo, um nome de seus consangüíneos
mortos e do mesmo sexo da criança. Uma pessoa herda pelo menos quatro
nomes, dois pela linha materna, dois pela paterna. Há indivíduos
que acumulam dez nomes, o que lhes confere prestígio. É vedado
ao pai e parentes do pai pronunciar os nomes oriundos da linha materna, sendo
o inverso igualmente verdadeiro. Além desses nomes, eles possuem outros
em português.
Arte, cultura e jogos.
A arte Bakairí expressa em todos os artefatos temas que remetem
ao mundo espiritual, sobretudo nos trançados, nas pás para virar
beiju, nos banquinhos zoomorfos, através de pinturas feitas com jenipapo,
urucum e tabatinga, um tipo de barro branco. Esta característica espiritualiza
as coisas materiais e materializa as coisas espirituais.
Destacam-se aqui as máscaras, sobretudo as do ritual denominado Iakuigâde,
que são de dois tipos: (1) Kwamby, ovais, que são líderes
e xamãs e (2) Iakuigâde, retangulares e entalhadas em
madeira, representando espíritos tutores relativos ao mundo aquático.
Elaboradas pinturas corporais masculinas e femininas - no estilo alto-xinguano
- feitas de jenipapo, urucum, tabatinga e resinas vegetais estão associadas
aos rituais.
Em termos de cultura material, sobressaem também as redes de dormir,
de algodão e de fibras de buriti, confeccionadas em teares verticais.
Quanto aos jogos, destaca-se o futebol, com torneios internos e interétnicos.
Cosmologia. O cosmos
- organizado por Kwamóty e seus netos, Xixi e Nunâ
- é concebido em várias camadas que se encontram na linha do
horizonte. Existem duas terras, uma côncova e outra convexa, sendo uma
o molde negativo da outra, cada qual com seus rios e águas subterrâneas.
Contendo as águas subterrâneas da terra de cima existiria uma
redoma, um imenso guarda-chuva, cujas bordas são mantidas presas às
extremidades desta terra por imensos sapos míticos. Entre essa redoma
e esta terra fica o ar necessário à vida. O sol e a lua, onde
foram residir Xixi e Nunâ, respectivamente, movimentam-se
de tal forma que, quando nesta terra é dia, na outra é noite
e vice-versa. Essas camadas são interligadas por caminhos invisíveis
que somente os xamãs podem ver e percorrer.
Outrora essas duas terras eram interligadas por um tipo de escada que Kwamóty
deixara para que eles, os Bakairí primordiais, pudessem em ambas transitar.
Como passaram a fazer "fuxicos" entre si e entre as duas terras
- causando rupturas na sociedade em formação - ele a cortou,
ocasionando um dilúvio, do qual se salvaram apenas dois pares de irmãos.
As duas terras distanciaram-se mais, o sol e a lua se encontraram. O eclipse
de sol é tido pelos Bakairí como prenúncio de retorno
ao caos.
Kwamóty controlou o caos colocando a referida redoma, mas abandonou-os
à própria sorte. Eles passaram a conhecer a dor, a doença,
a morte e a luta pela sobrevivência.
A estrutura do universo se define com a morte, pois a terra em que viviam
não aceitou que se enterrassem nela os seus mortos. Kwamóty,
num derradeiro gesto, inverte a posição das duas terras. Com
ela entra em circulação a mais temida das forças cósmicas:
os iamyra. Cada pessoa que morre libera dois iamyra: um que
sai pelo olho esquerdo, que vai habitar os rios desta terra, onde controla
os tutores sobrenaturais das espécies de peixes, de animais aquáticos,
de aves ribeirinhas; outro que sai pelo olho direito e vai residir na outra
terra, sendo hierarquicamente superior a todos os demais sobrenaturais, pois
presidem os ciclos naturais - inclusive as estações do ano -
e a ordem cósmica.
São duas estações do ano: kopâme, o "tempo
das águas" (meados de setembro a meados de abril) e âdâpygume,
o "tempo da seca" (meados de abril a meados de setembro). Há,
ainda, duas sub-categorias que denominam kopâme ipery e âdâpygume
ipery, respectivamente o "início das águas" e
o "início da seca".
Tempo e espaço se relacionam através do ciclo de uma substância
vital denominada ekuru. Presente em todos os seres vivos, inanimados
e animados, é obtida através de alimentos, fazendo-se presente
no sangue. Sem ela o sangue - yunu - coagula, sobrevindo a morte. Tal
substância é eliminada através de líquidos, resíduos,
secreções e excrementos corporais que, em contato com a terra,
é reprocessada pelos vegetais. Na sua forma livre e pura, somente os
vegetais a contêm. No intervalo que vai do contato com a terra ao reprocessamento,
toda ekuru que é eliminada mantém consigo as propriedades
daquele que a expeliu. No caso da pessoa humana, das unhas e cabelos cortados,
das fezes, do cuspe "levantam kadopy", que são semelhantes
a ela porém sobrenaturais. Seus lugares preferidos são as casas
abandonadas, os lugares sombrios. Aparecem aos vivos, assustando-os, o que
provoca desmaios e doenças.
Os terrenhos kadopy, que são resíduos dos resíduos
corporais, têm existência efêmera , ao contrário
dos iamyra, que são essência. Infestações
de kadopy e de iamyra, poluem o espaço, tornando-o inóspito,
insalubre. E esta é uma das razões da sua dispersão e
da sua mobilidade.
Na estação das chuvas, dada a grande umidade reinante, a ekuru
penetra mais rapidamente no solo, que se reabilita.Já na estação
da seca, a falta de umidade imprime no ciclo da ekuru uma grande lentidão.
Apenas nas margens dos rios e riachos seu ritmo é mais acelerado, o
que resulta em um terreno mais fértil, menos poluído, mais adequado
à vida.
Assim eles explicam a existência de diferentes domínios espaciais
que denominam iduanary e pojianary, "região de mata"
e "região de capim", respectivamente. Da mata e dos rios
é que eles extraem, fundamentalmente, a ekuru necessária
à vida. Os Kurâ-Bakairí só se alimentam
de vegetais e de animais vegetarianos ou essencialmente vegetarianos, desprezando
os carnívoros.
Nas matas ciliares praticam a agricultura e caçam sempre em grupo.
Devido aos perigos a elas associadas, é vedada a presença de
pessoas do sexo feminino, antes da terra ser preparada para o plantio. Dentre
esses periogos destaca-se Ynhangõnrom, monstruoso sobrenatural,
"senhor" das matas, que possui um enorme peito que aperta, jorrando
um leite mortal naqueles que a depredam. Ele tem por ajudante Karowi,
um pequeno, porém horrendo ser. Nas matas mais fechadas pode-se encontrar
os iamyra que nelas buscam abrigo quando surpreendidos nesta terra
pelo dia. Nas roças e capoeiras também pode-se encontrá-los,
pois sentem saudades dos "parentes", dos lugares onde viveram e
trabalharam. O contato com esses sobrenaturais é fonte de desequilíbrios
bio-psíquicos e de morte iminente. Pronunciar os nomes dos mortos significa
evocá-los, o que deve ser evitado, até que sejam recolocados
em circulação. Cada espécie de animal tem o seu "senhor",
ser sobrenatural que a tutela e que se volta contra aqueles que cometem excesso.
Um ente maléfico, Kilâino, faz os caçadores perderem-se
nas matas.Associados ao domínio aquático, existem muitos sobrenaturais.
Além dos "senhores" de cada espécie de peixe, de animal
aquático e de ave ribeirinha, tem-se pakororo, enorme onça
branca e sobrenatural que vira as canoas dos pescadores, bem como poro
tapekéim, imenso e monstruoso peixe que pode virar as canoas e
engoli-los vivos. Há, ainda, uma legião de seres sobrenaturais
com formas humanas, denominados kurâmã.
Dentre os sobrenaturais relacionados a esse domínio, os Bakairí
temem mais os iamyra subaquáticos, que podem assumir formas
de peixe. Diante de tantos perigos, o domínio aquático é
essencialmente masculino.
Mitologia. A mitologia Bakairí é riquissima, apresentando muitos elementos comuns à alto-xinguana. Ela narra a origem do mundo, dos gêmeos demiurgos, dos rios, do dia e da noite, do sol, assim como a transferência de bens que pertenciam ao mundo animal - a mandioca, a rede, dentre eles - para os Bakairí. Os grandes rituais do kado rememoram, através dos cânticos, a parte essencial desse processo, como que recriando o mundo.
Ritual. Na vida cotidiana
Bakairí pode-se observar vários rituais que não obedecem
propriamente a um calendário, mas as contingências da vida, estando
associados sobretudo ao casamento, à doença, à primeira
menstruação e à morte, implicando estes últimos
em reclusão alimentar e social. Além destes, tem-se um complexo
de ritos sagrados e pancomunitários, denominados kado, cuja
execução se concentra no tempo da seca. Dentre eles tem-se o
Anji Itabienly, o "Batizado do Milho", que marca o início
do ano Bakairí e do ciclo da ekuru. Ele é realizado por
ocasião da primeira colheita desse cereal, ainda verde, em janeiro
ou fevereiro. Em meados de abril, quando se encerra a estação
das águas, realizam grandes ritos nos quais são se utilizam
máscaras rituais - o Kápa e o Iakuigâde
- mas nunca simultaneamente. Esses rituais podem atravessar anos, sendo suspensos
no tempo das chuvas, permanecendo as máscaras rituais no kadoêti.
Destes dois é o Iakuigâde que possui um nível de
elaboração mais sofisticado. São 23 máscaras rituais,
cada qual representando o espírito tutor de uma espécie de peixe,
de animais aquáticos e de aves ribeirinhas. Por fim tem-se, de tempos
em tempos, o sadyry, rito de "furação de orelhas"
dos adolescentes do sexo masculino.
Tais ritos pancomunitários possuem elementos em comum, como as pinturas
corporais femininas e masculinas, feitas com jenipapo e urucum, as caçadas
e pescarias coletivas, as comensalidades coletivas. Cada um desses ritos é
presidido pelo líder do grupo local que o promove e pelo xamã,
no plano espiritual.
Os ritos do kado constituem um tributo aos mortos, que controlam os
ciclos naturais, dentre eles o das estações do ano e o da ekuru,
substância vital.
Além desses rituais, os Bakairí fazem, anualmente, festas juninas
pancomunitárias, igualmente importantes para a sua coesão social.
Xamanismo. Em um mundo tão prenhe de sobrenaturais, fontes de doenças, os xamãs desempenham papel vital. Eles podem penetrar em corpos de animais, dos doentes. Desconhecem barreiras de comunicação: falam a língua dos iamyra, dos animais, das entidades tutoras ou não. Além de atuar no caso de doenças, de perda de bens --que têm o dom de localizar - entre outras coisas, a sua participação nos rituais pancomunitários é imprescindível. Através deles se busca reequilibrar as forças e reconduzir a vida à ordem.
Aspectos contemporâneos. A partir de 1985, os Bakairí do Paranatinga assumiram a chefia do posto indígena da Fundação Nacional do Índio, a escola e demais cargos remunerados, destinado aos não-indígenas. Quatro anos depois eles inauguraram o Museu-Oficina Kuikare, com apoio do Fundação Nacional Pró-Memória, e criaram, em seguida, a Associação Kurâ-Bakairí. Dentre as ações desta, destaca-se a relacionada à prevenção da AIDS, com apoio da Ministério da Saúde. Os professores Bakairí estão se habilitando para o magistério através do Projeto Tucum, do governo do estado de Mato Grosso, com a participação de universidades e organizações não-governamentais. São Bakairí um pedagogo e uma mestra em educação.
Nota sobre as fontes.
Antes de 1884 os Bakairí mereceram, por parte de bandeirantes,
exploradores do norte de Mato Grosso e administradores da então província,
apenas rápidas referências. Somente a partir das expedições
de Karl von den Steinen ao Xingu, em 1884 e 1887, é que adensam-se
as informações sobre eles. Destacam-se na sua obra dois livros:
O Brasil Central: Expedição de 1884 para a exploração
do Xingu (1942) e Entre os Aborígenes do Brasil Central
(1940), já clássicas na etnologia sul-americana. Eles contêm
preciosas informações sobre os Bakairí Orientais e Ocidentais,
sua história, língua, organização social, mitologia,
rituais e relações com outros povos indígenas. A estas
expedições seguiram-se várias outras, destacando-se as
de Max Schmidt, que registrou, dentre outras coisas, importantes dados sobre
as migrações dos Bakairí do Xingu para o Paranatinga
e as relações que estabeleciam com os regionais, inclusive com
os agentes do órgão tutor. Kalervo Oberg e Fernando Altenfelder
Silva, que estiveram entre eles em meados do século XX, publicaram
artigos sobre organização social e reclusão ritual, respectivamente.
Existem sobre eles cinco estudos monográficos de cunho acadêmico.
O primeiro, de Edir Pina de Barros (1977), reúne informações
sobre sua história e organização social, suas relações
com missionários, agentes do órgão tutor e proprietários
rurais da região. À luz desses dados, analisa a questão
da identidade e da etnicidade. Essa mesma pesquisadora, em sua tese de doutoramento
(1992), apresenta densas informações sobre sua história,
cosmologia, organização social, nominação, rituais
e xamanismo. Vários artigos seus foram publicados em revistas especializadas.
Outra referência é a tese de Debra Sue Picchi (1982), que focaliza
o impacto da agricultura mecanizada sobre o sistema tradicional de subsistência,
status nutricional e saúde. Para tanto, fatores históricos,
culturais e, sobretudo, ecológicos, foram considerados. Darlene Yaminalo
Taukane, membro dessa etnia, escreveu, em sua dissertação de
mestrado recentemente publicada, sobre a educação escolar entre os Bakairí do
Paranatinga, incluindo as reflexões dos professores indígenas
sobre a educação escolar e o lugar da escola em seu projeto
de futuro, além de um importante capítulo sobre o processo de
socialização na sua sociedade, já publicado sob a forma
de artigo. Com relação à língua, tem-se a tese
de doutorado de Tânia Conceição Clemente de Souza, sobre
discurso e oralidade entre os Bakairí do Paranatinga. Neste aspecto,
tem-se o clássico estudo de Capistrano de Abreu realizado a partir
de um informante trazido do Paranatinga para o Rio de Janeiro, no último
decênio do século XIX. Tem-se, também, os estudos feitos
por missionários do Summer Institute os Linguistics, desde a década
de 60. Destacam-se aí as traduções de textos bíblicos
e cartilhas para alfabetização na língua materna. Sob
os seus auspícios os Bakairí vêm produzindo textos em
sua própria língua, alguns deles publicados. Os professores
Bakairí estão produzindo textos, no âmbito de sua formação
para o magistério.
Edir Pina de Barros
Universidade Federal de Mato Grosso
edirpina@zaz.com.br
junho de 1999
Anambé
| Apiaká | Arara
| Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka
| Atikum | Bakairí
| Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi
| Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára
| Javaé Ka'apor
| Kadiwéu | Kaiabi
| Karajá | Kariri-Xocó
| Katukina Pano
| Krahó | Krenák
| Kwazá | Marúbo
| Maku | Maxakali
Miranha | Palikur
| Panará | Gavião
Parkatêjê | Payakú
| Pirahã
Pitaguarí |
Rikbaktsa
| Suruí | Tapeba
| Tapuio
| Tenharim
Timbira
| Tingui-Botó
| Torá | Tupiniquim
| Xavante
| Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari
| Yaminawa |
Yanomami Yawanawa
| Zo'é