Nome. Atualmente, Galibi é a autodenominação do grupo que vive no rio Oiapoque e dos índios do mesmo povo que vivem na Guiana Francesa, especialmente nos rios Maroni e Mana. Na Guiana Francesa, eles se definem como Kaliña, sendo Galibi uma designação genérica utilizada pelos europeus para se referir aos povos de fala caribe do litoral das Guianas.
Língua. Os Galibi mantêm parcialmente
a sua língua original da qual se orgulham. Muitas crianças,
entretanto, filhos de pais galibi e não-galibi e que na escola apenas
estudam o português, não falam mais a língua, mesmo quando
a entendem.
Muitos falam também o patuá, língua crioula utilizada
no contato com as outras etnias da região. Falam o português
e usam esta língua na aldeia e para os contatos externos. Conhecem
o francês ao menos os mais velhos que foram alfabetizados e educados
nesta língua. Entendem um pouco de patuá holandês.
Nos dias de hoje, a língua indígena vem sendo revalorizada.
Comparados aos Karipuna e Galibi-Marworno, eles se consideram índios
verdadeiros, assim como os Palikur, por falarem uma língua indígena.
Questionam o fato de o patuá ser considerado uma língua "nativa"
pelos índios do Uaçá, lembrando que, na escola de freiras
de Saint Joseph de Cluny, na Guiana Francesa, quem falava patuá recebia
um castigo. Lá, apenas as línguas indígenas e o francês
eram permitidos.
Localização. A única aldeia dos Galibi do Oiapoque, São José dos Galibi, permanece onde foi instalada em 1950, quando o grupo chegou à área. Localiza-se na margem direita do rio Oiapoque, logo abaixo da cidade de Saint Georges, entre os igarapés Morcego e Taparabu. De voadeira, a viagem entre Oiapoque e a aldeia é de mais ou menos 30 minutos. A aldeia localiza-se em um trecho de terra firme cercado de roças familiares e mata. Ocupa uma área de aproximadamente 250 por 400 metros, muito arborizada e bem cuidada, onde se encontram as casas, pomares e as instalações do Posto da Funai, enfermaria e escola.
Demografia. A população total dos Galibi
na aldeia São José soma 28 pessoas. Muitos vivem fora da aldeia,
em diversas cidades do Amapá, Belém e Brasília. Na aldeia,
dois casais não têm filhos e mesmo o professor, um rapaz de Vigia,
Pará, casado com uma Galibi, com quem tem cinco filhos, será
obrigado a se mudar para outra área no dia em que não houver
mais alunos da primeira à quarta série.
Migração para o Oiapoque. Os Galibi do Oiapoque provêm
das aldeias do rio Mana, na Guiana Francesa, Couachi e Grand Village. Seu
chefe, o Sr. Geraldo Lod, nasceu na Pointe Isère. Em 1948, o Sr. Lod
e um primo seu conseguiram chegar a Belém, onde o administrador do
SPI (Serviço de Proteção aos Índios), o Sr. Eurico
Fernandes, entregou-lhes a autorização e os documentos legais
para que migrassem para o Brasil com a sua parentela.
A justificativa para migrar não foi a guerra, nem a fome, nem a pressão
dos brancos, mas sim um grave e oculto desentendimento entre parentes afins.
Ao chegarem ao Brasil, em três canoas a vela, o grupo se compunha de
38 pessoas. Posteriormente, algumas famílias voltaram a Mana. Hoje,
com a saída sistemática dos mais jovens, a tendência é
de um decréscimo populacional a não ser que indivíduos
ou famílias não-Galibi venham a se instalar na aldeia. Após
o falecimento dos mais velhos, o grupo manteve poucos contatos com os Galibi
da Guiana Francesa. Entretanto, gostam de receber notícias de lá,
especialmente de parentes e amigos, muitas vezes transmitidas por um programa
de rádio em Caiena.
A aldeia São José dos Galibi é também a sede do
Posto Indígena Galibi. Geraldo Lod mantém uma atitude de autonomia,
mas de bom relacionamento com a Funai. Ele escolhe e avalia os funcionários
da aldeia que hoje são apenas o chefe de posto e o professor, casado
com uma índia galibi. O Sr. Lod, seus filhos e outros habitantes da
aldeia participam regularmente de todas as Assembléias dos Povos Indígenas
do Uaçá e de movimentos coletivos reivindicatórios, enquanto
representantes de sua etnia e membros plenos de um conjunto de povos que compartilham
o mesmo território, os mesmos problemas e anseios. É nessas
ocasiões que cada povo se posiciona. Procura-se um consenso e estabelece-se
um programa político, econômico e social que venha a beneficiar
a todos. Participam também, com os Karipuna, Galibi-Marworno e Palikur,
de movimentos políticos e reivindicatórios importantes para
eles.
Se todos, na aldeia têm um bom grau de instrução, o Sr.
Lod se destaca pela capacidade e curiosidade intelectual e o rigor do raciocínio.
Seus conhecimentos da fauna e flora da região das Guianas são
surpreendentes. Estudou até o Certificat d'Études, o que corresponde
ao nosso primeiro grau completo e foi durante dez anos enfermeiro formado
no hospital penitenciário de Saint Laurent, atuando em aldeias indígenas
de Mana.
Seu filho mais jovem foi presidente da APIO (Associação dos
Povos Indígenas do Oiapoque). Os dois filhos mais velhos são
militares, com uma carreira bem sucedida na marinha e na aeronáutica.
As quatro filhas viveram durante vários anos com famílias de
oficiais de Clevelândia, se deslocando com elas para Belém, Brasília
e São Paulo, estudando e trabalhando, antes de voltar ao Oiapoque.
Hoje, vivem em Oiapoque, onde trabalham como funcionárias do estado,
e passam fins-de-semana e férias na aldeia.
Atualmente, diferente das épocas passadas, os Galibi mantêm pouco
contato com os militares de Clevelândia ou com as pessoas de Saint Georges
ou Tampac.
Situação das terras. As terras ocupadas pelos Galibi correspondem basicamente ao território onde se localizaram em 1950. Demarcadas, elas constituem a Terra Indígena Galibi com uma superfície de 6.689, 1928 hectares, conforme a portaria no. 1.369/E, de 2/08/1962. A homologação administrativa e a publicação no Diário Oficial é de 22/11/82. Ariramba, uma aldeia karipuna, no rio Oiapoque, também foi incluída na reserva Galibi e localiza-se nas proximidades da vila Taparabu. As relações com os Galibi é de boa vizinhança, mas pouco contato.
Cosmologia. As crenças religiosas manifestam-se
de forma diversa nos diferentes grupos da bacia do rio Uaçá.
Entre os Karipuna e Galibi-Marworno, prevalece um catolicismo popular, acrescentado
de uma vertente progressista, engajada, devido à influência do
Cimi (Conselho Indigenista Missionário), pelo menos até recentemente.
O catolicismo dos Galibi, há séculos incorporado às suas
crenças e práticas, é da chamada linha tradicional.
O xamanismo continuava vivo até a década de 60, sendo os pajés
galibi reputados e conhecidos entre todos os povos indígenas do Amapá,
assim como também o eram os seus vizinhos, na outra margem do Oiapoque,
os negros Saramaká de Tampac. Atualmente, entretanto, não há
mais pajé atuando no grupo. Os emblemas do último pïyei
(pajé), o pakará (cestaria) e o maracá, estão
devidamente guardados pelos Galibi. Porém, as crenças relativas
ao universo xamanístico não se extinguiram. Mais de uma vez,
os Galibi afirmaram que, comparados aos dos outros grupos, seus xamãs
eram "verdadeiros" e competentes. O Sr. Lod descreve minuciosamente
os rituais de iniciação, as sessões de cura e de contato
com os espíritos. Estes se dividem em duas categorias, os que vêm
do alto, do céu, os anjos da guarda, sempre bons, e os espíritos
da floresta e da água, perigosos, com os quais é preciso negociar.
Nestas ocasiões, quem age é o espírito do xamã,
preparado para esta tarefa, nunca ele mesmo, apenas um homem comum. Para os
Galibi, Deus fez tudo, sabe tudo e domina tudo, enquanto o xamã, por
melhor que seja, apenas possui uma visão parcial do mundo, podendo
sempre ter o seu caminho "fechado" por outro xamã mais poderoso.
"Primeiro vem Deus, depois o maráca".
Antigamente, dizem os Galibi, os espíritos dos homens e dos animais,
que eram gente no seu mundo, se comunicavam. Mas agora isso acabou. Segundo
o Sr. Lod, em algum momento "alguma coisa aconteceu", houve uma
ruptura e hoje eles não se comunicam mais. Isto teria acontecido devido
à incompreensão dos colonizadores europeus com relação
à sabedoria dos índios. Uma perda e uma pena, segundo ele.
Entretanto, os Galibi continuam acreditando que tudo na natureza tem dono,
os animais e as plantas. Por isso agem com cuidados especiais nas suas atividades
predadoras de caça, pesca e derrubada de árvores. Ou, como dizem
em francês, "il ne faut pas les vexer", maneira delicada de
caracterizar as negociações que se travam entre os diferentes
domínios do cosmos.
Festas. O calendário de festas também
não corresponde ao dos Karipuna ou Galibi-Marworno. Não festejam
o Divino Espírito Santo, como os Karipuna, e nunca foram adeptos do
Turé indígena, segundo eles um ritual dos povos da floresta
(de la brousse) e não dos povos do litoral (de la côte). Antigamente
as grandes festas eram os ritos funerários ou do fim do luto que reuniam
muitos dos grupos locais, onde se destacavam os cantos femininos e os tocadores
de tambor.
Hoje, a maior festa é celebrada no último dia do ano, quando
os que vivem fora da aldeia voltam para visitar seus parentes e quando amigos
de outras localidades se unem aos Galibi para festejar, comer, dançar
e beber caxixi, bebida fermentada de mandioca. As outras festas são,
em agosto, a de Santa Maria que era a grande festa em Mana e a de São
José, patrono da aldeia.
Cultura material. Os mais velhos, como o pai de Geraldo Lod, um grande xamã e sua mãe, ceramista e exímia tecelã, faleceram há muito tempo. Hoje, sem Madame Caroline, esposa do Sr. Lod, apenas uma mulher ainda fia o algodão e sabe tecer as grandes redes brancas, típicas dos Galibi. Os numerosos e elaborados artefatos não são mais reproduzidos e ainda menos usados. "Para que?" pergunta o Sr. Jean-Jaque. "Não há mais ninguém". E realmente, para que? se o mundo de hoje e de antes são irredutíveis. Os Galibi, com certeza não são índios de "fazer de conta". Por outro lado, fabricar artesanato para vender é algo que nunca cogitaram. Os objetos dos quais precisam para as atividades de subsistência, como as peneiras, tipitis, cestos, viradores de beiju e abanos, eles continuam fabricando e mesmo um lindo fuso para fiar algodão. Mas, as cuias pintadas e os raladores de mandioca, eles encomendam aos Karipuna do rio Curipi.
Subsistência. A subsistência provém
basicamente da agricultura. Todo homem galibi que se preze tem uma roça
bonita da qual cuida diariamente junto com sua família. Quando um Galibi
fala de seu abattis" (roça) ele disse tudo. Às vezes quem
tem netos e sobrinhos já reserva, como herança, um pedaço
de terra para eles.
Na aldeia Galibi, há cinco roças plantadas, localizadas a poucos
minutos das casas de seus donos. Os índios plantam mandioca, cará,
batata, macaxeira, banana, abacaxi, milho, tomate e maracujá. Há
inúmeras árvores frutíferas nas cercanias de cada casa,
coco, abacate, laranja e tangerina, abiú e muitos cajueiros, além
das imensas mangueiras que compõem a paisagem típica da aldeia.
A caça e a pesca constituem o resto da dieta alimentar. Atualmente,
essas atividades são apenas desenvolvidas por dois homens na aldeia,
o que restringe o seu consumo. Como os idosos recebem a sua aposentadoria
do Funrural, eles compram peixe de pescadores das imediações
e carne de frango em Oiapoque, além de outros produtos alimentícios.
Duas especialidades dos Galibi merecem ser mencionadas. As "galettes"
de mandioca, o pão indígena, feitos de mandioca ralada, mas
nunca de puba, a farinha d'água, o que, segundo eles, as tornaria sem
substância. É um tipo de beiju, grosso. Quando bem feitas, elas
podem ser guardadas em lugar seco por muito tempo. O segundo item é
o caxixi, bebida fermentada de mandioca, bem fina e de cor rosada devido a
uma batatinha vermelha específica para o seu preparo. Às vezes,
o Sr. Lod brinca e o oferece como sendo um apéritif ou digestif. O
peixe defumado e ensopado com cará é também um prato
típico, muito valorizado.
Organização familiar e casamento. O
núcleo familiar dos Galibi que chegaram da Guiana era composto de dois
irmãos, Julien e Geraldo Lod, casados com duas irmãs e de uma
irmã dos Lod, casada com Joseph Jean-Jaque. Na Guiana Francesa, Jean-Jaque
vivia no Grand Village e os Lod em Couachi, duas localidades próximas.
O avô dos Lod chamava-se Emile François Zacharie e era primo
do Grand Emile (Alobé Emile), avô das esposas de Geraldo e Julien
Lod.
Os índios que vivem na aldeia São José são descendentes
diretos destas famílias. Outra família é composta por
uma terceira irmã das esposas dos Lod, casada com um professor (não-Galibi)
aposentado, mas sem filhos. Segundo as regras matrimoniais galibi, regras
que denotam a preferência pelo casamento entre primos cruzados classificatórios,
os jovens da primeira geração descendente ou ficariam solteiros
ou se casariam com pessoas não-índias, o que de fato aconteceu.
Esta situação não deve ter sido muito fácil para
eles. Mas, hoje, os não-Galibi, casados na aldeia, estão muito
bem integrados e são apreciados pelos mais velhos, seus sogros e sogras.
Tradicionalmente, quando dois jovens pretendiam se casar, geralmente uma escolha
já efetuada pelos pais, eles e suas famílias realizavam uma
seqüência de atos ritualizados, como a visita do noivo e seu pai
aos pais da noiva, seguida da oferta do cigarro. Os jovens noivos eram submetidos
a duras provas que testariam a sua competência como exímios agricultores,
caçadores e artesãos, para os homens, e perfeitas fiadoras de
algodão, tecelãs, ceramistas e preparadoras de caxixi, para
as moças.
Ritos de passagem. Tradicionalmente, além do
casamento, os ritos de passagem mais importantes eram, para as moças,
o resguardo após a primeira menstruação, quando eram
informadas sobre o perigo inerente ao sangue menstrual que pode indevidamente
atrair, pelo cheiro, os espíritos monstruosos aquáticos. Nestes
períodos as mulheres não podem ir ao rio, à roça,
cozinhar e nem preparar caxixi.
Os rapazes passavam por um rigoroso aprendizado e período de reclusão
quando pretendiam tornar-se xamãs. Finalmente, os ritos de fim de luto
eram a ocasião de reunir muita gente de diferentes grupos locais, e
assim ao mesmo tempo em que despachavam o espírito do morto, liberando-o
para subir ao céu, os Galibi reconstituíam o seu mundo social
e simbólico e de renovação cósmica.
Hoje, os ritos de passagem são outros, mas as crenças antigas
têm o seu sentido e os seus valores preservados. Isso cria ambivalência
positiva e etnicidade. As crianças passam pelo batismo e se preparam
devidamente para a primeira comunhão. O Sr. Geraldo Lod se orgulha
de que seu casamento nos anos 40, em Mana, tenha sido o primeiro a ser celebrado
ao mesmo tempo no civil e no religioso, segundo a fé católica.
"Eu abri o caminho", disse ele. Os jovens, atualmente, precisam
ainda vencer as etapas escolares, prestar, às vezes, concursos públicos
e se preparar para a vida do trabalho, que consiste em atividades de subsistência
tradicionais, acrescidas de tarefas que permitam ganhar algum dinheiro, e
em um preparo político que assegure, a cada indivíduo e seu
grupo, autonomia e integração em redes de sociabilidade cada
vez mais abrangentes.
Lux Vidal
Universidade de São Paulo
Fax: (011) 256.9573
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