Nome. A primeira menção
direta aos Kaiabi em um documento escrito apareceu em 1850, com a publicação
dos relatos do viajante francês Francis de Castelnau. Em 1844 Castelnau
esteve em Diamantino, MT, onde entrevistou índios Apiaká e aventureiros
que percorreram a região dos rios Arinos e Teles Pires dando notícias
de uma "tribo hostil", denominada em seu texto como Cajahis. A partir
dessa data, vários outros documentos fazem referência aos
Kaiabi,
utilizando diferentes grafias para o nome (Cajahis, Cajabis, Kajabi, Caiabis,
Cayabi, Kayabi etc). Atualmente os professores indígenas do grupo decidiram
optar pela grafia Kaiabi e por esse motivo a empregamos neste texto.
A origem do nome Kaiabi perde-se no tempo e hoje os próprios índios
não sabem dizer de onde surgiu e qual seu significado. É provável
que seja a forma pela qual os Apiaká ou os Bakairi, as primeiras fontes
de informação sobre os Kaiabi no século XIX, a eles se
referiam. Certamente não se trata de auto-denominação
do grupo. Georg Grünberg, um etnógrafo que pesquisou os Kaiabi
nos anos sessenta, sugere que a auto-denominação seja o termo
iputunuun, que significa algo como "o nosso pessoal" (1970:
120).
Língua. A língua dos Kaiabi é da família tupi-guarani. Desde os primeiros contatos observou-se que os Kaiabi falavam uma língua aparentada à de outros povos conhecidos genericamente como tupis. As línguas mais semelhantes ao Kaiabi são o Kamayurá, o Asurini do Xingu e o Apiaká, variando a maneira de aferir a sua proximidade. A quase totalidade dos Kaiabi que habitam atualmente o Parque do Xingu são bilingües plenos, dominando, além de sua própria língua, também o português. Alguns indivíduos residentes em aldeias de outros grupos, ou casados com indivíduos de outra etnia, falam também uma terceira língua. Segundo informações dos próprios índios, muitos Kaiabi que moram em outras áreas fora do Parque do Xingu não falam mais a língua nativa.
Localização.
Os Kaiabi, em sua maioria, habitam atualmente a área do Parque Indígena
do Xingu (PIX), Mato Grosso. Esta, porém, não é sua terra
tradicional. Até aproximadamente a década de quarenta deste
século ocupavam uma extensa faixa entre os rios Arinos, Tatuy (denominação
Kaiabi para o Rio dos Peixes) e médio Teles Pires ou São Manuel,
localizada a oeste do rio Xingu.
Para se falar sobre a localização atual dos Kaiabi é
preciso antes comentar um pouco sobre sua história recente. Considerados
até as primeiras décadas deste século como "bravios
e indômitos", os Kaiabi resistiram com vigor à ocupação
de suas terras pelas empresas seringalistas que avançavam pelos rios
Arinos, Paranatinga (alto Teles Pires) e Verde, na última década
do século passado. Muitos conflitos ocorreram com seringueiros, viajantes
e funcionários do Serviço de Proteção aos Índios
ao longo da primeira metade deste século. Contudo, aos poucos a área
Kaiabi foi sendo ocupada e os índios induzidos para o trabalho nos
seringais.
Depois da extração do látex viriam a retirada de madeira
e a implantação de fazendas. A partir da década de cinqüenta,
grande parte da região seria retalhada em glebas e alienada pelo governo
de Mato Grosso para fins de colonização. Nesta época
(1949) chega à região do Teles Pires a Expedição
Roncador-Xingu comandada pelos irmãos Villas Boas. A Expedição
era o braço da Fundação Brasil Central encarregado de
desbravar e preparar a colonização dos sertões dos rios
Araguaia, Xingu e Tapajós, dentro da política de interiorização
preconizada pelo governo Vargas.
A Expedição encontrou os Kaiabi em uma situação
conflituosa e sem aparentes perspectivas de melhora. Os deslocamentos para
outras áreas dentro do território e a resistência bélica
aos invasores não eram mais possíveis. Com exceção
do missionário católico João Dornstauder, cujas ações
eram mais concentradas no rio Tatuy, nenhuma organização apoiava
os índios na luta pelas terras. A atuação do Serviço
de Proteção aos Índios (SPI) na área era incapaz
de assegurar a sobrevivência cultural do grupo, atuando muitas vezes
conjuntamente com as empresas seringalistas no recrutamento dos índios
para trabalhar na extração de látex. Restava a integração
passiva nos seringais e a proposta apresentada pelos Villas Boas: mudar para
o Parque Indígena do Xingu. A alternativa da mudança prevaleceu
e tomou corpo em parte devido à atuação de Prepori, um
dos principais líderes do grupo na época.
Os Kaiabi, já mais acostumados no trato com os brancos e encontrando,
nas palavras de Grünberg (1970: 52), "uma compreensão inesperada
para sua situação opressiva" por parte dos Villas Boas,
se integraram à expedição e passaram a colaborar na pacificação
de outros grupos e no desbravamento da região. O processo de migração
para o Parque Indígena do Xingu teve início a partir desse envolvimento
nos trabalhos da Expedição Roncador-Xingu. Tendo em vista a
situação de conflito e espoliação em sua área
tradicional, e incentivados pelos Villas Boas, os Kaiabi foram aos poucos
se dirigindo para lá, até que em 1966 foi transferida por avião,
naquela que ficou conhecida como "Operação Kayabi",
uma parte dos índios que ainda moravam na região do Tatuy.
Os Villas Boas justificaram a necessidade da transferência como única
alternativa ao processo de destribalização e marginalização
vivido pelos Kaiabi. Grünberg assinala, contudo, que essa última
transferência foi realizada sem entendimentos prévios e contra
a vontade da Missão Anchieta, que, ao que parece, opunha-se a ela por
considerar possível a luta pela terra Kaiabi, pelo menos na região
do Tatuy. O processo deixou marcas profundas e dividiu os Kaiabi, que até
hoje lamentam ter abandonado suas terras imemoriais.
A pequena parcela da população que se recusou a ir para o Parque
Indígena do Xingu permanece até hoje em uma pequena área
que divide com alguns remanescentes Apiaká, localizada no Tatuy (TI
Apiaká-Kayabi). Outra pequena parcela dos Kaiabi vive atualmente no
baixo Teles Pires, em uma terra indígena localizada já no estado
do Pará, para onde foram sendo empurrados pela ocupação
de sua terras (TI Cayabi e TI Cayabi Gleba Sul). No Parque Indígena
do Xingu, os Kaiabi estão espalhados por diversas aldeias localizadas
na região do Posto Indígena Diauarum, porção norte
do Parque e território habitado anteriormente pelos Yudja (auto-denominação
dos Juruna), Suyá e Trumai.
|
Terras indígenas onde vivem os Kaiabi |
|||
|
Terra Indígena |
Superfície |
Município |
Situação legal |
|
TI Apiaká-Kayabi |
109.245 ha |
Juara, MT |
homologada em 1991 |
|
TI Kayabi l |
1.408.000 há engloba a TI Cayabi com 117.246 ha homologada |
Jacareacanga/PA e Apiacás/ MT |
Identificada (publicada no DO e sujeita a contestações a espera de Portaria ministerial) |
|
Parque Indígena do Xingu |
2.642.003 ha |
São José do Xingu, São Félix do Araguaia, Querência, Canarana, Gaucha do Norte, Paranatinga, União do Sul, Claudia, Marcelândia,
|
homologada, 1991, e registrada |
As três regiões habitadas atualmente pelos Kaiabi
não são homogêneas do ponto de vista ambiental, histórico
ou sociocultural. A região do Parque do Xingu tem um relevo plano recoberto
por uma vegetação de transição entre a floresta
tropical úmida, que se adensa ao norte, e o cerrado que predomina ao
sul. Matas ciliares acompanham os inúmeros cursos d'água e lagoas,
e em alguns pontos observa-se a ocorrência de descampados naturais.
O clima é caracterizado pela alternância de uma estação
chuvosa, de novembro a abril, e um período seco nos meses restantes.
Nas outras áreas habitadas pelo grupo observa-se uma maior predominância
de florestas. Como os ecossistemas são relativamente diferentes, muitas
espécies vegetais (além de tipos de solo, de barro para cerâmica,
material lítico, conchas, animais etc.) conhecidas e utilizadas pelos
Kaiabi na área tradicional não são encontradas no Parque
do Xingu.
Do ponto de vista histórico e sociocultural as diferenças também
são marcantes, tanto no período pré-contato quanto na
fase posterior à entrada dos brancos no continente. A região
dos rios Teles Pires, Arinos, Rio dos Peixes, Juruena e Tapajós é
predominantemente ocupada por grupos Tupi desde um longínquo passado.
No alto rio Xingu os grupos indígenas viviam, e ainda vivem, em um
rico complexo cultural multiétnico e multilingüístico e
com eles convivem hoje os Kaiabi do Parque.
Para um período mais recente, as grandes diferenças se deram
em função do avanço das frentes de colonização.
A região do alto Xingu, por razões geográficas, ambientais
e históricas, permaneceu, se comparada a outras áreas, relativamente
fora do alcance direto das frentes de expansão até fins da década
de quarenta. A partir desta época iniciaram-se os debates para a criação
da primeira grande área indígena brasileira, que viria a ser
o Parque Indígena do Xingu. O Parque foi desde o início pensado
como um paraíso ecológico e cultural que deveria ser preservado
do alcance dos brancos. Esta ética preservacionista tem até
hoje um grande impacto no ideário político das lideranças
indígenas da região. Já a área Arinos-Teles Pires-Tapajós
foi alvo da exploração de látex desde o século
passado e, mais recentemente, da retirada de madeira e implantação
de fazendas de gado. Essa frente de ocupação provocou a extinção
de muitos grupos indígenas, além de grandes alterações
ecológicas e culturais, ao promover uma integração muitas
vezes forçada dos índios remanescentes.
População. A população Kaiabi atual soma aproximadamente 1.000 pessoas. Destas, 756 residem no PIX (UNIFESP-DMP, 1997). O restante da população está dividida entre as outras duas áreas ocupadas pelo grupo. Para estas áreas, habitadas também por outros grupos, não dispomos de dados atualizados, pois muitas fontes indicam apenas a população total, não especificando as etnias. A projeção aqui apresentada baseia-se em informações de índios que conhecem estes locais. A taxa de crescimento populacional dos Kaiabi é bastante alta atualmente. Estudos efetuados em uma das aldeias Kaiabi do PIX apontam para uma taxa em torno de 4,3% (Senra 1996). Esse forte incremento populacional é um reflexo do declínio da mortalidade, em função da assistência médica e das condições até agora favoráveis dentro do PIX, e das altas taxas de natalidade. Com esses índices de crescimento a população Kaiabi tende a dobrar a cada treze anos aproximadamente. Esses altos índices de crescimento são encontrados atualmente em vários grupos indígenas que conseguiram superar séculos de drásticas perdas populacionais.
As aldeias. Uma focalização
no padrão organizacional das aldeias Kaiabi do Xingu é reveladora
de algumas das transformações político-sociais vivenciadas
por este grupo nas últimas três ou quatro décadas. Com
a transferência para o PIX, os Kaiabi mantiveram inicialmente um padrão
de assentamento caracterizado pela dispersão em pequenas unidades familiares,
conforme descrito por Grünberg em suas pesquisas durante os anos sessenta.
Algum tempo depois, os aldeamentos Kaiabi passaram a se agregar em unidades
maiores e multi-familiares, destoando assim do padrão de isolamento
observado em suas regiões de ocupação pouco antes da
transferência. A reunião em grandes aldeias foi claramente encorajada
pelas administrações do Parque, com o intuito principal de facilitar
os tratamentos de saúde. De fato, o maior acesso aos medicamentos e
aos médicos é pensado como uma das grandes vantagens da moradia
em grandes aldeias, sendo este um argumento utilizado pelos líderes
em seus discursos ao estimularem a reunião das famílias extensas
em unidades maiores. Assim, pelo menos em certa medida, esta concentração
pode ser creditada à necessidade de manter uma relação
eficiente e constante com os órgãos administrativos, ONGs e
também com os outros índios.
Grünberg sugere, entretanto, que esta tendência à formação
de grandes aldeias seja anterior à transferência para o PIX,
fazendo parte da dinâmica política desta sociedade. A grande
fragmentação do modelo de ocupação territorial,
observada principalmente a partir das décadas de 40 e 50, seria o quadro
resultante de um momento marcado por uma acentuada depopulação
e por uma "forte tendência para a divisão da família
extensa em famílias nucleares patrilocais muito autônomas economicamente,
que seguiam o modelo dos seringueiros morando em choças independentes,
bem próximas umas das outras, numa roça comum" (Grünberg,
1969: 21). Relatos antigos, como o de Antônio Pyrineus de Souza, oficial
da comissão Rondon que percorreu a região do rio Teles Pires
em 1915, sugerem a existência desde pequenos agrupamentos unifamiliares,
até grandes grupos residenciais englobando mais de uma centena de pessoas.
A transferência para o PIX, e o próprio modelo de relação
entre os órgãos que atuam no parque, criou de certa forma novas
condições para o refortalecimento desta tendência.
Antes da transferência, as casas Kaiabi eram bem grandes, pois abrigavam
todos os membros de uma família extensa. Essas casas mediam em torno
de 12 metros de largura por 24 de comprimento e sua cobertura de palha ia
até o chão. No PIX os Kaiabi passaram a construir casas pequenas
com paredes de troncos, medindo aproximadamente a metade de uma casa tradicional.
Atualmente estão voltando a construir casas no formato anterior, que
podem ser vistas em algumas de suas aldeias.
Subsistência e confecção
de artefatos. Os Kaiabi são um grupo com uma forte tradição
agrícola, que se manteve apesar da transferência de território.
Sua horticultura é muito diversificada, compreendendo dezenas de variedades
de plantas cultivadas e um sistema agrícola bastante elaborado. Como
em outros grupos indígenas, o calendário agrícola compreende
os períodos de roçado e derrubada (maio e junho), queima (agosto)
e plantio (setembro e outubro). Os períodos de colheita variam dependendo
da cultura. Há dois tipos básicos de roças Kaiabi: as
roças polivarietais de mandioca e as roças de policultivo. Nas
primeiras, plantam-se quase que exclusivamente as diversas variedades de mandioca
utilizadas para a produção de farinha, beijus e mingaus. Nas
roças de policultivo plantam-se diversas espécies, que exigem
melhores solos (áreas de terra preta): milho, algodão, amendoim,
batata, cará, banana, fava, cana, abóbora, melancia.
A alimentação Kaiabi, assim como sua agricultura, é bem
diversificada. A base alimentar, composta pela farinha de mandioca e pelo
peixe, é complementada por beijus, mingaus à base de mandioca,
milho, amendoim, banana, frutas silvestres etc. Anteriormente a caça
tinha um papel mais importante na dieta, mas a maior sedentarização
do grupo na calha dos rios principais, aliada, entre outros fatores, à
rarefação de alguns animais, contribuiu para que a pesca tenha
se tornado a principal fonte de proteína animal para o grupo.
Os Kaiabi têm uma cultura material elaborada e grandemente diversificada.
Porém, os itens que mais os singularizam e identificam são suas
peneiras, apás (um tipo de peneira) e cestos (confeccionados pelos
homens), ornamentados com uma grande variedade de complexos padrões
gráficos, que representam figuras da rica cosmologia e mitologia do
grupo. O trabalho artesanal feminino mais elaborado é a tecelagem do
algodão para a fabricação das redes e tipóias.
Atualmente, os itens mais produzidos são os colares de tucum lisos
ou com figuras zoomórficas, também confeccionados pelas mulheres.
O grupo doméstico.
Como em muitos grupos ameríndios, a organização da sociedade
Kaiabi não apresenta divisões sociais globais como linhagens,
metades, grupos de idade, ou quaisquer outras estruturas corporadas. Também
como em outros grupos ameríndios, as relações fundadas
nos casamentos (afinidade) podem ser vistas como o cerne da vida social, com
especial atenção para a relação sogro/genro, básica
para a constituição das aldeias e parentelas, e fonte ao mesmo
tempo de solidariedade e poder. Neste sentido, a formação dos
grupos locais, a mobilização para diversas atividades aldeãs
e muitos outros aspectos da vida social dependem mais das relações
de aliança do que das de consangüinidade.
O agrupamento social mais visível para além da família
nuclear é a parentela que constitui uma unidade doméstica. Esta
unidade é guiada por um wyriat, literalmente, aquele que toma
conta do 'lugar' (wyri), e que no passado seria quase sempre o membro
masculino mais velho. Trata-se de uma família extensa construída
em torno de relações de afinidade e consangüinidade, cujo
elemento aglutinador é um homem mais velho que, basicamente através
de seu prestígio pessoal, logrou manter junto a si seus genros e noras
e, conseqüentemente, seus filhos e netos, além de algum outro
parente, como um irmão por exemplo.
Observa-se entre os Kaiabi uma tendência a que os cônjuges residam
na casa dos pais da noiva (residência pós-marital uxorilocal),
o que reforça os laços de afinidade entre sogros e genros. Esta
regra de residência faz-se acompanhar da obrigatoriedade por parte do
marido em colaborar e trabalhar junto com seu sogro e cunhados (serviço-da-noiva),
os doadores da esposa. Esta uxorilocalidade temporária, concebida como
serviço-da-noiva, seguida de ambi- ou neo-localidade, é a regra
residencial mais comum entre os Tupi-Guarani.
Os Kaiabi dizem hoje que a relação sogro/genro "não
é mais a mesma", que "enfraqueceu", indicando a percepção
um certo relaxamento nas obrigações que outrora acompanhavam
esta regra de residência. Apesar disso, reconhecem a relevância
deste aspecto da organização social, e enfatizam a necessidade
dos genros mudarem para a casa dos sogros após o casamento como sendo
um costume tipicamente Kaiabi.
Líderes antigos e modernos.
Tradicionalmente o wyriat organizava quase todo o trabalho agrícola
de sua unidade doméstica segundo os princípios que regem a constituição
da família extensa. Antes, quando os contornos da aldeia ou maloca
eram possivelmente os mesmos de uma família extensa ou 'casa', conduzida
pela figura deste wyriat, a organização global da produção
reproduzia a organização destas unidades. É provável
que no passado os Kaiabi não tivessem nenhuma atividade de subsistência
claramente coletiva. Os trabalhos agrícolas envolveriam somente o conjunto
da família extensa guiada por um wyriat, e mesmo assim apenas
em determinados momentos. Usualmente, o líder da família escolhe
o lugar a ser roçado e derrubado, que são as fases mais coletivas
do trabalho. Após a limpeza, a área é delimitada e porções
do terreno são destinadas aos chefes das famílias nucleares,
que realizam o plantio basicamente com a ajuda de sua mulher e filhos.
O perfil do líder Kaiabi sofreu algumas transformações
nas últimas décadas. O contexto no qual ocorreu a formação
das grandes aldeias multi-familiares também foi palco do surgimento
de um novo tipo de chefe. No lugar do antigo wyriat, homem velho e
aguerrido, cabeça de uma grande família extensa, origem mesma
de sua autoridade (Grünberg 1969: 126), encontramos agora jovens líderes
cuja principal característica é a maior desenvoltura no relacionamento
com os brancos. Este talvez seja o principal papel do novo líder, o
de mediador entre índios e brancos e, conseqüentemente, meio de
acesso aos bens e serviços da sociedade envolvente agora tornados uma
necessidade. Contudo, esta aparente transformação preservou
certos princípios estruturais anteriores. Assim como o antigo chefe,
o novo líder deve 'cuidar' de seus seguidores e seu poder está
baseado em sua habilidade como mediador. Antes, o núcleo aglutinador
dos seguidores de um chefe era a família extensa, pessoas ligadas a
ele por parentesco e por afinidade. As obrigações contraídas
com o matrimônio e os laços de parentesco norteavam a organização
deste agrupamento em uma unidade produtiva. Atualmente pode ocorrer que o
líder tenha poucos filhos ou netos, e algumas vezes nenhum genro, ao
assumir a liderança. Poucos trabalham para eles sob o regime do serviço-da-noiva
ou os respeitam pela senioridade. Basicamente, sua autoridade advém
de sua habilidade, dinamismo e iniciativa na relação com os
brancos. Segundo alguns informantes, a chefia teria sido uma posição
transmitida em linha paterna para o primogênito. Não há,
porém, informações seguras a este respeito.
Nomes e marcas. Cada indivíduo
Kaiabi possui vários nomes, que formam um repertório pessoal
variado. Ao longo da vida, os nomes são trocados à medida que
este acede a novas categorias sociais ou passa por experiências pessoais
marcantes. O nascimento do primeiro filho é um momento em que os pais
sempre recebem novos nomes. Esses nomes podem ser de antepassados, de seres
sobrenaturais ou estarem relacionados a algum evento específico protagonizado
pelo indivíduo. Os homens mais velhos da aldeia, o chefe ou o pajé,
são em geral os responsáveis pela transmissão dos nomes.
No passado, o principal momento que determinava a mudança de nome era
a participação em expedições guerreiras e, mais
especificamente, a morte de um inimigo.
No passado, todos os Kaiabi exibiam tatuagens faciais que obedeciam alguns
padrões básicos, diferentes para homens e mulheres. Essas tatuagens
eram feitas primeiramente no início da puberdade. Assim como os nomes,
as tatuagens serviam ao mesmo tempo como mecanismo de identificação
pessoal e grupal. Também como no caso dos nomes, a morte de um inimigo
era um evento marcado pela execução de novas tatuagens.
Cosmologia. Os Kaiabi concebem
o cosmos como dividido em várias camadas superpostas, habitadas por
uma infinidade de seres que convencionamos chamar de sobrenaturais. Há
muitos tipos diferentes destes seres. Há os diversos 'chefes de animais',
os perigosos anyang e mama'é que roubam as almas dos
homens, os heróis culturais (demiurgos) que ensinaram aos Kaiabi tudo
que sabem hoje em dia, e os deuses Ma'it, os grandes pajés do
céu. Todos esses seres povoam os mitos e narrativas através
dos quais os Kaiabi compreendem e atuam no universo em que vivem.
Todo humano, assim como muitos animais, possui uma ai'an, conceito
que podemos traduzir aproximadamente por "alma". Os homens não
são dotados automaticamente de uma ai'an ao nascerem. Eles a
recebem junto com o nome, o que os incorpora de fato à sociedade em
que vivem. Os que não recebem esta alma não se tornam humanos,
são apenas seres empalhados, um invólucro sem vida (Grünberg
1970: 155).
Os Kaiabi sempre tiveram muitos xamãs. O xamanismo desempenha um papel
fundamental no modelo de sociedade ideal concebido por eles. Idealmente, esta
sociedade deveria ser dirigida por um chefe velho e aguerrido, cuja ação
seria complementada pela atuação de muitos xamãs. Os
xamãs são os intermediários entre o mundo natural e sobrenatural.
De uma maneira geral, podem ser vistos como restauradores de situações
sociais tomadas como desajustamentos no curso normal da existência (Travassos
1984: 183). A iniciação xamânica é tida como uma
viagem empreendida por ocasião de uma doença grave ou acidente,
um momento liminar entre o nível da realidade cotidiana e o da realidade
sobrenatural.
Os Kaiabi são um povo tradicionalmente guerreiro, como se depreende
de suas narrativas míticas, de suas histórias de guerras passadas,
de sua vida ritual e dos depoimentos de brancos que com eles tiveram contato.
O mais importante momento de sua vida ritual era a celebração
do Yawaci, época em que várias aldeias se reuniam para
ouvir os cantos dos guerreiros. Este ritual estava associado à morte
de um inimigo, e posterior quebra dos ossos de seu crânio, sendo condição
de iniciação dos jovens guerreiros. Embora atualmente não
haja mais guerras, nem cabeças de inimigos, os Kaiabi têm voltado
a realizar o Yawaci. Como observou Elisabeth Travassos,
em um contexto de recuperação étnica, eles teriam
escolhido este ritual como o mais apropriado para representar a imagem que
mais prezam de si mesmos e com a qual mais se identificam, a de guerreiros.
Associações e projetos
atuais. As lutas dos Kaiabi de hoje são outras e requerem
novas armas. Em 1995 os índios da parte norte do Parque Indígena
do Xingu, região habitada majoritariamente pelos Kaiabi, resolveram
criar uma associação para defender seus direitos e tentar implementar
alguns projetos na área. Nascia, então, a Associação
Terra Indígena Xingu (ATIX), incorporando mais uma entidade ao crescente
movimento indígena brasileiro. A Associação conta em
sua diretoria com membros das etnias Juruna, Suyá, Trumai, Txikão
e Kaiabi, além de um conselho que reúne representantes de quase
todas as 15 etnias presentes no PIX. A iniciativa para a criação
da ATIX partiu principalmente dos Kaiabi, que, através dela, estão
envolvidos em vários projetos relacionados com a sustentabilidade ambiental,
econômica e sociocultural dos grupos que habitam o Parque.
Dentre estes projetos destaca-se o Kumaná, que deu início às
"Escolas de Cultura" e tem por objetivo promover o resgate de diferentes
aspectos culturais dos grupos através do incentivo à confecção
de artefatos e à realização de festas. Os Kaiabi estão
empenhados também em um movimento de recuperação de suas
áreas de ocupação tradicional nos rios Teles Pires e
Tatuy. Neste sentido, vêm há vários anos solicitando à
FUNAI a constituição de um Grupo de Trabalho para identificar
oficialmente as áreas anteriormente ocupadas por eles. Cansados de
esperar pelo órgão oficial, realizaram por conta própria
expedições para avaliar a situação atual de suas
terras. Como grande parte da área encontra-se hoje densamente ocupada
e devastada, decidiram reivindicar à FUNAI a demarcação
de uma faixa de terra contígua ao limite oeste do PIX como reparação
das imensas perdas sofridas com a transferência. Até agora os
Kaiabi continuam lutando pela efetiva implementação do GT que
deverá estudar sua reivindicação.
O PIX está se tornando uma ilha verde em meio à rápida
e crescente devastação ambiental desta região do Mato
Grosso. A devastação do entorno tem provocado a ameaça
de grandes incêndios, a poluição dos rios dos quais as
populações indígenas se abastecem, além de vários
novos problemas e desafios. Hoje, os índios estão cientes de
que a organização política dos povos que habitam o Parque
é a única possibilidade de que dispõem para lutar pela
preservação de sua diversidade sociocultural e ambiental.
Nota sobre as fontes. Comparada
à de alguns outros povos indígenas, a literatura sobre os Kaiabi
é razoavelmente ampla. Qualquer pesquisa sobre o grupo deve começar
pelos escritos de Georg Grünberg, principalmente sua tese de doutorado
intitulada Beitrage zur Ethnographie der Kayabi Zentralbrasiliens (há
uma tradução para o português realizada por Eugênio
Wenzel). Trata-se de uma etnografia geral sobre o grupo, produzida a partir
de pesquisas realizadas nos anos 60. Inicia-se com um extenso e valioso levantamento
das fontes históricas onde são mencionados os Kayabi, e prossegue
tratando da cultura material, organização social e por fim da
cosmologia e mitologia do grupo, segundo um modelo clássico de etnografia.
Valioso também é o artigo "Die Materielle Kultur der Kayabi-Indianer",
onde Grünberg realiza uma descrição pormenorizada da cultura
material Kayabi.
Além da tese de Grünberg, duas outras foram escritas a partir
de pesquisas entre os Kaiabi e são fontes fundamentais sobre o grupo.
Em fins dos anos setenta, Elisabeth Travassos realizou pesquisas com os Kaiabi
do Xingu que culminaram em uma dissertação de mestrado sobre
xamanismo e música. Da mesma autora, recomenda-se também a leitura
do artigo "A tradição guerreira nas narrativas e cantos
Caiabis", publicado em 1993. Em 1996, a pesquisadora americana Suzane
Oakdale apresentou na Universidade de Chicago The power of experience:
agency and identity in Kaiabi healing and political processes in the Xingu
Indigenous Park, tese de doutoramento com importantes observações
sobre a inserção dos Kaiabi no cenário político
e cultural do Parque Indígena do Xingu.
Ao lado destas obras mais extensas, os Kaiabi são tratados em uma série
de outros trabalhos, dos quais mencionarei alguns. Em seu livro Diários
do Xingu, Berta Ribeiro dá importantes informações
sobre o grupo, principalmente sobre sua cultura material. Os irmãos
Cláudio e Orlando Villas Boas contaram, no livro Os Kayabi do rio
São Manuel, os casos e aventuras vividas com os índios em
suas andanças pelos rios Teles Pires e Tatuy. Publicados em 1996, os
diários de campo do antropólogo Eduardo Galvão trazem
informações úteis, e algumas pitorescas, para compreender
o processo de formação do PIX e a atuação dos
Kaiabi neste contexto.
Especificamente sobre a língua Kaiabi, há uma gramática
publicada pelo Summer (hoje Sociedade Internacional de Lingüística),
instituto de orientação missionária com várias
pesquisas lingüísticas em grupos indígenas.
Klinton Senra
Instituto Socioambiental
ksenra@pontocom.com.br
março de 1999
Anambé | Apiaká
| Arara | Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka | Atikum
| Bakairí | Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára | Javaé Ka'apor
| Kadiwéu | Kaiabi | Karajá
| Kariri-Xocó | Katukina Pano
| Krahó | Krenák | Kwazá
| Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
| Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é