Religião. Eram, à época
do contacto, em 1910, predominantemente caçadores e coletores seminômades,
com organização social caracterizada pelo constante fracionamento
do grupo, pela divisão do trabalho por sexo e idade e um sistema religioso
centrado na figura dos Marét e dos espíritos encantados
de seus mortos, os Nanitiong, responsáveis pela fecundação
das mulheres humanas e por emitir avisos de morte. Os Marét,
habitantes das esferas superiores, eram os grandes ordenadores dos fenômenos
da natureza e, dentre eles, se destacava o Marét-khamaknian,
herói criador dos homens e do mundo, benevolente e civilizador da humanidade.
Outras entidades do panteão religioso dos Botocudos eram os espíritos
da natureza - os tokón -, responsáveis pela eleição
dos seus intermediários na terra, os xamãs, com os quais mantinham
contacto durante os rituais e que, quase sempre, acumulavam o cargo de líderes
políticos. Havia, ainda, as almas, espíritos que viviam nos
corpos dos humanos, adquiridos a partir dos quatro anos de idade, quando eram
implantados os primeiros botoques labiais e auriculares. A alma principal
abandonava o corpo durante o sono e, quando se perdia, ocorria a doença.
Antes de a pessoa morrer, sua alma principal morria dentro de seu corpo. As
outras seis almas que habitavam o corpo acompanhavam o cadáver até
seu túmulo, sobre o qual voavam, chorando. Eram invisíveis para
os membros da comunidade presentes à cerimônia. Caso suas necessidades
de alimento e luz não fossem atendidas, essas almas complementares
poderiam transformar-se em onças e ameaçar a aldeia, pois, não
se alimentando, morreriam de fome. Passados alguns anos, espíritos
bondosos da esfera superior vinham buscá-las para seu espaço,
de onde não mais voltavam. Dos ossos dos cadáveres, surgiam
espíritos que passavam a morar no mundo subterrâneo, no qual
o sol brilhava durante a noite terrestre. Eram espíritos grandes, maus
e negros que vagavam pela aldeia atacando os vivos, principalmente as mulheres,
desenterravam os mortos, batiam no chão, assustando a todos, matando
animais por espancamento. As vítimas se defendiam tentando surrá-los
e evitando saírem de seus abrigos durante a noite.
História do contato. O território
original dos Botocudos era a Mata Atlântica no Baixo Recôncavo
Baiano, tendo sido expulsos do litoral pelos Tupi, quando passaram a ocupar
a faixa de floresta paralela, conhecida por Floresta Latifoliada Tropical
Úmida da Encosta ou Mata Pluvial Tropical, localizada entre a Mata
Atlântica e o rebordo do Planalto. Depois do século XIX deslocaram-se
para o sul, atingindo o rio Doce em Minas Gerais e Espírito Santo.
Desde os primeiros contactos, ainda no século XVI, foram acusados de
antropofagia, o que não se confirma na documentação.
Entretanto, este sempre foi o grande argumento para justificar as constantes
decretações de Guerra Justa e convencer os grupos indígenas
com que viviam em conflito - Tupi, Malalí, Makoní, Pataxó,
Maxakalí, Pañâme, Kopoxó e Kamakã-Mongoió
- a se aldearem com promessas de proteção e acesso aos bens
da sociedade dominante, como armas de fogo. Apesar da resistência tenaz,
os grupos Botocudos foram aldeados por militares, diretores leigos e missionários
em vários pontos dos atuais estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito
Santo a partir da decretação da Guerra Justa autorizada pelo
governo português através das Cartas Régias de 13 de maio,
24 de agosto e 2 de dezembro de 1808 assinadas no Rio de Janeiro pelo Príncipe
Regente D. João. A primeira Carta Régia determinava a guerra
ofensiva aos Botocudos de Minas Gerais por considerar que os mesmos eram irredutíveis
à civilização e que a guerra de caráter defensivo
não surtia os efeitos desejados no tocante a garantir a expansão
da conquista naquela capitania. A segunda autorizava o Governador e Capitão
General da mesma capitania a criar uma tropa especializada no combate a índios
para viabilizar a guerra ofensiva determinada na Carta Régia anterior.
Finalmente, a terceira estabelecia planos acerca de como promover a educação
religiosa dos índios e seu efetivo controle como forma de viabilizar
a navegação dos rios e o cultivos dos terrenos ocupados pelos
Botocudos. No contexto desse plano, o Príncipe autorizava o confisco
das terras ocupadas por esses grupos, que passavam a ser consideradas como
devolutas e deveriam ser distribuídas como sesmarias, particularmente
entre os que se destacassem na guerra ofensiva. A esses novos proprietários
também era garantido o livre acesso ao trabalho dos indígenas
que fossem capturados em atitude aguerrida por um período que variava
entre doze e vinte anos, a depender do grau de rusticidade e dificuldade dos
aprisionados em apreenderem as novas formas de trabalho. Também era
prevista a criação de aldeamentos administrados por particulares
para educar os índios que se submetessem e se apresentassem "com
interesse e boa disposição".
Embora as três Cartas Régias se referissem especificamente à
capitania de Minas Gerais, as suas deliberações foram estendidas
às capitanias da Bahia e Espírito Santo no mesmo ano para atender
às solicitações de seus governadores.
Hoje o contingente demográfico dos Botocudos do Leste está reduzido
a cento e oitenta pessoas, sendo, na sua maioria, composto de crianças
e jovens descendentes de relações interétnicas entre
os Krenák com outros grupos indígenas, como os Guarani e os
Kaingang, e com a população regional.
As principais razões dessa predominância de mestiços foram
a invasão por moradores da região e o arrendamento pelo SPI
das terras do Posto Indígena Krenák, o processo de diáspora
sofrida ao longo da administração do SPI e da FUNAI - em 1953
para o Posto Indígena Maxakalí, de onde retornaram a pé
em 1959, e em 1973 para a Fazenda Guarani -, e a convivência com os
chamados "índios infratores" deslocados pela FUNAI de vários
pontos do país, a partir de 1968, para o Reformatório Agrícola
Indígena ou Centro de Reeducação Indígena Krenák.
Centro de Reeducação Indígena
Krenák. O Reformatório foi implantando sob a administração
do Capitão Manoel Pinheiro, da Polícia Militar do Estado de
Minas Gerais, e para lá eram enviados os indígenas que opunham
resistência aos ditames dos administradores de suas aldeias ou eram
considerados como desajustados socialmente. No Presídio eram mantidos
em regime de cárcere, sofrendo repressões, como o confinamento
em solitária e castigos físicos em casos de insubordinação.
Eram-lhes impostas atividades na agricultura durante o dia, sob forte vigilância
de soldados da Polícia Militar de Minas Gerais e dos índios
agregados à Guarda Rural Indígena (GRIN), também fundada
pelo Capitão Pinheiro.
A Guarda era composta por índios que Pinheiro definia como de "excepcional
comportamento", devidamente treinados e fardados, e encarregados de manter
a ordem interna nas aldeias, coibir os deslocamentos não autorizados,
impor trabalhos e denunciar os infratores ao Destacamento da Polícia
Militar.
Ante a pressão dos fazendeiros e políticos para a extinção
definitiva do PI Krenák e a liberação definitiva da área
para a emissão dos títulos de propriedade aos arrendatários,
apesar dos Krenák haverem ganho em 21/03/1971 a ação
de reintegração de posse dos 4.000 hectares e o juiz ter determinado
o prazo de quinze dias para os arrendatários serem retirados da área
indígena, Manuel Pinheiro fez um novo acordo com o governo de Minas
Gerais em dezembro daquele mesmo ano. Negociou uma permuta entre a área
Krenák e a Fazenda Guarani, no município de Carmésia,
pertencente à Polícia Militar de Minas Gerais, para onde os
Krenák e os prisioneiros indígenas foram transferidos, ao invés
da retirada dos arrendatários como a Justiça determinara. É
interessante observar que também a Fazenda Guarani, antiga sede de
tortura de presos políticos usada pela Polícia Militar de Minas
Gerais, estava ocupada por grande quantidade de rendeiros e posseiros.
Apesar de o acordo ter estabelecido que a FUNAI só deveria receber
a Fazenda Guarani livre dos ocupantes, Pinheiro sequer esperou essa cláusula
ser cumprida, merecendo, por isso, até mesmo uma repreensão
por escrito da Presidência do órgão.
Diante da resistência dos Krenák em serem, mais uma vez, transferidos,
Pinheiro determinou que os índios que persistiam na recusa a abandonar
a área fossem algemados e levados à força para Governador
Valadares, sede da Ajudância Minas-Bahia, da FUNAI. Dali, todos os Krenák,
os presos do Reformatório e um grupo de índios Guarani, que
ali haviam se instalado em 1969 vindos de Parati, no Rio de Janeiro, seus
poucos pertences e os alimentos foram colocados em caminhões e enviados
para a Fazenda Guarani. Os índios também não aceitaram
nela permanecer e sua reação aumentou após a chegada
de um grupo de índios Pataxó do Posto Indígena Barra
Velha, na Bahia, que permanecem até os dias atuais na Fazenda Guarani.
Queixando-se das péssimas condições de vida, de não
haver rio de grande porte que lhes permitisse pescar - a mais valorizada forma
de obter alimento -, do clima muito frio, de perderem o que plantavam por
estar o solo esgotado, da convivência forçada com os Pataxó,
com os Guarani e com os presos do Reformatório, além da falta
de argila para fazerem cerâmica, algumas famílias Krenák
optaram por se dirigir para o Posto Indígena Vanuíre (SP), para
a cidade de Colatina (ES) e para Conselheiro Pena (MG).
Retorno à terra. Em 1980 os demais optaram
por retornar à área do PI Krenák. Contudo, o retorno
desejado não era tão fácil. Toda a área indígena
estava em mãos dos antigos arrendatários, inclusive a antiga
sede administrativa do Posto Indígena, que a RURALMINAS, órgão
estadual responsável pela administração das questões
de terras em Minas Gerais, repassara ao Patronato São Vicente de Paula
da cidade de Resplendor, que ali instalou um orfanato. Para completar o quadro
de dificuldades, o estado de Minas Gerais havia distribuído títulos
de propriedade aos arrendatários, alterando seu status e seus direitos
e fortalecendo sua luta pelo afastamento definitivo dos índios.
Enfrentando todo esse quadro adverso, 26 dos 49 Krenák que haviam sido
levados para a Fazenda Guarani retornaram, em 1980, às terras do rio
Doce, instalando-se por conta própria, em pequena parcela da área,
nas ruínas da antiga sede abandonada pelo Patronato São Vicente
de Paula e no antigo Reformatório, perfazendo um total de 68,25 hectares.
Permaneceram nessa área exígua até 1997, quando, após
longo período de citação judicial dos ocupantes da área,
os quatro mil hectares lhes foram restituídos por decisão judicial
do Supremo Tribunal Federal relativo ao processo de número 891782-0
de outubro de 1989 que solicitava a anulação dos títulos
de propriedade emitidos ilegalmente pelo governo mineiro. A partir dessa data
foi reconstituída a área originalmente doada pelo governo mineiro,
através do Decreto 4462 de 10/12/1920, após um demorado processo
de demarcação iniciado em 1918 e concluído em 1920.
Chefia e faccionalismo. Antes da retomada da
totalidade da área reservada, ao se chegar à aldeia dos Krenák,
podia-se observar o grupo liderado por Laurita Félix à esquerda,
uma faixa intermediária de terras não ocupadas e a outra facção
política liderada pelo cacique Hin (José Alfredo de Oliveira,
também conhecido por Nego, que é tradução do seu
apelido em Borun) à direita do ribeirão do Eme. Hoje, o grupo
de Laurita instalou-se nas fazendas localizadas na área de influência
do rio Doce, enquanto o grupo de Hin passou a ocupar as que se localizam "atrás
ou no fundo" da Reserva, após a grande serra do Cuparaque, que
divide a área no sentido Leste-Oeste.
O fato de um dos grupos ser liderado por uma mulher - Laurita Félix
- é perfeitamente coerente com a tradição Botocudo, no
que se refere ao fato de as mulheres deterem o poder de decisão sobre
grandes questões internas.
Em termos de representatividade externa, porém, é o cacique
que tem voz ativa. Coerentemente com os antigos padrões de ordenamento
político, Laurita está preparando seu filho, Rondon Krenák,
para assumir as funções de cacique, através do qual,
ela poderá exercer de forma mais efetiva o poder sobre o grupo.
A oposição entre as duas metades sociais organizadas em facções
políticas é amenizada pelas regras exogâmicas de casamento
entre as famílias extensas - Isidoro, Félix, Damasceno e Souza
-, pois, ao estabelecer alianças matrimoniais, o grupo consegue amenizar
os conflitos e, assim, define-se um convívio relativamente amistoso
entre as famílias e os dois grupos. A prole resultante dessas uniões
recebe o sobrenome do pai e é identificada como membro da metade à
qual este pertence. A exceção ocorre em situações
de casamentos interétnicos nos quais a mãe seja Krenák,
quando, apesar do sobrenome ser o paterno, a pertinência é definida
pela metade à qual a mãe pertence.
No caso dos Krenák, um dos fatores de oposição decorre,
também, do fato de o grupo liderado por Laurita Félix ser Nakre-ehé
e Miñajirum, oriundos do aldeamento do Pancas, o que fez com que nunca
se integrassem totalmente aos Krenák, originalmente estabelecidos no
ribeirão do Eme, representados pelo cacique Hin.
Nessa posição de disputa pela liderança, Laurita busca
seus fundamentos argumentando o poder tradicional das mulheres e o fato de
as mesmas deterem o conhecimento histórico da trajetória do
grupo, da língua e dos rituais.
Além de Laurita, há outras figuras femininas representativas:
sua filha, Marilza, a xamã dos Krenák, Sônia e Paula,
aliadas da família Félix, todas envolvidas nos esforços
de reviver a língua Borun, os cantos, os rituais e a tradição
de socializar as crianças pelos métodos tradicionais. Nesse
processo revivalista, o papel de Marilza Félix é extremamente
importante. Na qualidade de única xamã e dizendo-se porta voz
do seu antecessor Krembá, afirma ser deste a determinação
de serem realizados os trabalhos de reorganizar o grupo, voltar a "dançar"
seus rituais, fazer arcos e flechas, curar suas doenças pela forma
tradicional, falar sua antiga língua e recuperar o mastro sagrado,
levado da aldeia na década de 30 por Curt Nimuendajú. Apesar
dos esforços dos índios e de consultas realizadas, não
foi possível até o momento localizar o referido mastro.
Nesse novo contexto, observa-se, portanto, que os Marét perderam
importância no novo panteão Botocudo, embora o medo aos Nanitiong
e aos espíritos dos mortos, que não receberam alimentos e cuidados
rituais, continue presente. Atualmente, os Tokón assumiram o
papel central do universo religioso Krenák, estando profundamente associados
à disputa política entre as duas metades.
O grande desafio vivido, hoje, pelos Krenák é o de se ajustarem
ao novo/antigo espaço de quatro mil hectares, viabilizarem sua exploração
econômica, apesar da baixa densidade demográfica e da falta de
recursos para investirem de modo a terem acesso ao mercado regional. Aliás,
essa pretensão encontra outra grande barreira na oposição,
preconceito e má vontade dos moradores das cidades vizinhas, cujas
autoridades consideram como um grave prejuízo para a comunidade de
produtores rurais, cooperativas e prefeituras locais as terras terem retornado
ao domínio dos índios.
Nota sobre as fontes.
As primeiras referências
aos Botocudos datam ainda do século XVI quando eram referidos por cronistas
e jesuítas pela denominação de Aimorés. Como Botocudos
há farta documentação de caráter administrativo
e elaborada por viajante naturalistas a partir do início do século
XIX.
Como Krenák, as primeiras notícias datam do início do
século XX e estão associadas à construção
da Estrada de Ferro ligando Vitória, no Espírito Santo, à
atual cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais. Essas notícias
foram produzidas tanto pelos construtores da Estrada de Ferro, destacando-se
a obra de Ceciliano Abel de Almeida, como pelos funcionários do SPI
encarregados de aldear os Krenák, merecendo destaque os relatórios
de Antônio Estigarribia, e do governo mineiro designados para realizar
os estudos necessários à demarcação da área
destinada à criação do aldeamento.
Só a partir da década de 20 é que alguns estudiosos que
se dedicam a descrever a sociedade Krenák, destacando-se os trabalhos
dos mineiros Nelson de Senna e Simoens da Silva. A partir de então,
alguns geógrafos como Walter Egler e William Steains, preocupados com
o processo de ocupação do rio Doce, passaram a se referir aos
Krenák.
Também lingüistas, como Charlotte Emmerich, Ruth Monserrat e Lucy
Seki realizaram estudos acerca da língua Borun.
Há, ainda, trabalhos realizados por estudantes da Universidade Federal
de Juiz de Fora e da Universidade Federal da Bahia e as pesquisas de Maria
Hilda Baqueiro Paraiso, inclusive um dos temas tratados em sua tese de doutorado
e que se encontra em fase de negociação para publicação.
Está sendo realizado o vídeo Erré Krenak, cujo
público alvo são crianças em idade escolar que, assim,
poderão ter acesso à história do povo Krenák como
tentativa de eliminar o preconceito e a discriminação. Produção
Independente, dirigido por Nívea Dias e Alessandro Carvalho, com roteiro
de Rita Espeschit e direção de arte de Cristiane Zago. Realização
do Conselho Indigenista Missionário Leste e Centro de Documentação
Elói Ferreira da Silva com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura
de Minas Gerais. O vídeo terá a duração de 20
minutos e deverá ser lançado no início de 1999.
Anambé | Apiaká
| Arara | Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka | Atikum
| Bakairí | Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára | Javaé Ka'apor
| Kadiwéu | Kaiabi | Karajá
| Kariri-Xocó | Katukina Pano
| Krahó | Krenák | Kwazá
| Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
| Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é