Nome. A autodenominação do grupo
é 'Kwazá' (em que o z corresponde ao ð, que se pronuncia
como as letras th na palavra inglesa the, e em que o acento
cai na última sílaba). Nas poucas referências existentes
na literatura sobre os Kwazá até 1942, eles são referidos
como 'Koaiá, Koaya, Coaiá ou Quaia'. Os Kwazá não
reconhecem estes nomes e consideram-nos errados. Explicam que o nome certo
é 'Kwazá', mas não atribuem nenhum sentido a ele. É
provável que as denominações 'Kwazá' ou 'Koaiá'
advenham de denominações que lhes foram dadas por povos vizinhos.
Por exemplo, os Salamãi os chamavam antigamente de 'Koaiá'.
Além disso, o nome 'Kwazá' não deve ser a autodenominação
original porque o inventário de sons da língua Kwazá
não possui o [ð]. Por outro lado, este som é muito freqüente
na língua do povo vizinho, os Aikanã. Esse povo os chama de
'Kwazá' (com o [ð]), embora também não atribua um
sentido particular ao nome.
O nome 'Arara' foi usado no passado por alguns funcionários da FUNAI,
e hoje ele também se pode encontrar na literatura científica.
Esta denominação não é apreciada pelos índios
e não foi amplamente difundida. Além disso, ela poderia causar
confusão com outros povos de Rondônia chamados 'Arara'.
Existem algumas outras autodenominações que são de valor
descritivo, mas que não são muito usadas. Os nomes 'Tsãrã
csinuténaheré' "aqueles da terra grande", 'Tsãrã
csuhuinaheré' "aqueles da terra pequena" referiam-se a dois
grupos de Kwazá que moravam em dois lugares distintos no sul de Rondônia
até o final do século passado.
Por fim, os Kanoê chamavam os Kwazá de 'Tainakãw'.
Língua, localização e população.
Na literatura a língua Kwazá, dentre várias outras
do estado de Rondônia, está classificada como 'isolada'. Isto
não quer dizer que o Kwazá não seja relacionado a outras
línguas ou famílias lingüísticas conhecidas, uma
vez que, infelizmente, essas classificações, em grande parte,
não são muito confiáveis, por estarem baseadas apenas
em comparações de pequenas listas de palavras. Caso também
fossem comparadas as estruturas gramaticais, talvez as relações
históricas com outras línguas pudessem ser descobertas. Para
se chegar a isso, descrições completas de todas línguas
envolvidas são necessárias, mas até o momento ainda há
uma grande falta de iniciativa por parte dos lingüistas. Por isso, talvez
seja melhor, por enquanto, considerar o Kwazá como uma língua
ainda 'não-classificada'.
Hoje os membros dos três núcleos familiares que congregam a maioria
dos Kwazá mora na Terra Indígena Tubarão-Latundê,
município de Chupinguaia, Rondônia. Aí moram entre os
Aikanã, que constam de aproximadamente 130 pessoas. Um parte dos Kwazá
se reconhece como Aikanã. Durante a minha estada entre eles, contei
25 falantes de kwazá, sendo mais da metade crianças. Metade
dos Kwazá é trilíngüe, pois fala também aikanã
e português. Uma parte é bilíngüe em kwazá
e português. Só algumas pessoas falam apenas o Kwazá.
Existem alguns falantes de Kwazá como segunda ou terceira língua,
e alguns "falantes" passivos, que entendem o Kwazá. A maioria
dos falantes de Aikanã é bilíngüe, falando também
o português. Na Terra Indígena mora também o povo Latundê,
que fala uma língua que se pode classificar como Nambikwára.
Nas famílias Kwazá/Aikanã que moram na região
do São Pedro, há só uma pessoa que conhece o kwazá,
além do português.
Alguns Kwazá moram em cidades (Porto Velho e Pimenta Bueno), sem contato
com os índios aldeados. Assim como muitos Aikanã urbanos, eles
podem ter perdido a língua. Não há dados que confirmem
a existência de Kwazá fora do Brasil.
A língua Kwazá é uma "língua ameaçada
de extinção", isto é, exposta ao risco de desaparecer
em muito pouco tempo, falada por poucas pessoas e sobre a qual não
se conhece praticamente nada. Na mesma situação também
se encontram as línguas vizinhas Kanoê e Latundê.
Contexto e situação tradicional.
O habitat tradicional dos Kwazá era de floresta alta. Moravam ao longo
dos rios, preferencialmente nas cabeceiras. Entre os seus vizinhos tradicionais
estavam os Aikanã e os Kanoê, de línguas não classificadas;
os Mekens/Sakirap e os Tuparí, da família Tuparí; os
Salamãi, da família Mondé; e vários outros, alguns
deles já extintos. Mesmo falando línguas mutuamente não
inteligíveis, esses povos mantinham contato entre si, seja devido a
guerras territoriais, seja decorrente de alianças, festas e casamentos
intertribais. Esse intercâmbio intertribal resultou em fortes semelhanças
entre as culturas materiais, espirituais e intelectuais desses povos, constituindo
o que foi chamado de "Complexo Cultural do Marico" pela antropóloga
Denise Maldi (1991), caraterizado, entre outras coisas, pelos seguintes aspectos:
cesto feito de fibras de tucum ('marico'); malocas comunitárias na
forma de colméia, para mais ou menos 10 famílias nucleares;
chicha peneirada e fermentada de milho, mandioca, banana, açaí,
etc.; xamanismo com o uso de rapé feito de paricá; divisão
em clãs com nomes de animais e traços específicos da
mitologia. Os Kwazá correspondem a essa tipologia. Quanto à
divisão em clãs, embora os Kwazá remanescentes não
mais lembrem disso, há indícios na memória oral do grupo
vizinho que sugerem a antiga existência de clãs entre os Kwazá.
Vários costumes desapareceram logo depois do início do contato
com a sociedade nacional. Antes do contato, os Kwazá realizavam ritos
antropofágicos (comiam inimigos); praticavam ritos de iniciação
de adultos, envolvendo o isolamento de moças durante algumas meses;
jogavam bola de cabeça (hoje jogam futebol); pintavam o corpo com urucum
e jenipapo; enfeitavam o corpo com colares, pulseiras, brincos e capacetes
de coco, dentes, conchas, tucum e penas (hoje preferivelmente usam miçangas
de acrílico, colares de prata, bonés e relógios); perfuravam
os lábios inferiores e superiores para o uso de batoques; dormiam em
redes feitas de fibras de tucum (hoje preferem camas); os homens tocavam vários
tipos de música com vários tipos de flautas de taboca (hoje
é raríssimo); tinham flautas sagradas as quais as mulheres eram
proibidas de escutar (hoje não mais); caçavam e pescavam com
arco e flecha e timbó (hoje caçam com espingarda). A organização
social e política da sociedade tradicional era bastante igualitária.
O povo era dividido em subgrupos territoriais, provavelmente clãs,
como acontecia com os vizinhos. Possivelmente não existia um nível
de liderança acima desses subgrupos, geralmente exercida por jovens.
O pajé tinha uma posição importante como médico
e intermediário espiritual, o que não lhe dava nenhum status
especial fora dessas esferas. Embora mulheres e homens exercessem atividades
diferentes, a mulher podia ser líder ou pajé também.
É quase impossível conseguir mais informação sobre
a vida tradicional dos Kwazá, uma vez que os velhos de hoje já
cresceram em tempos bastante perturbados por causa do contato com os brancos.
Ao lado do arroz e do feijão introduzidos pelos brancos, os Kwazá
de hoje ainda (como antigamente) plantam banana, mandioca, amendoim, cará,
tabaco, em roças que são queimadas periodicamente e que são
transferidas para mato virgem depois de uns poucos anos. Ainda coletam frutas,
criam coró de patauá e mantêm jacus, araras, além
de outras aves, porcos, quatis e vários tipos de macacos como xerimbabos
(animais de estimação).
Contexto e situação atual.
Desde
os anos 30 os Kwazá combinam a caça e a plantação
de roça com a exploração de seringa, com a qual os povos
do sul de Rondônia entraram na economia global. Trabalhavam nisso como
mão-de-obra para os brancos em troca de produtos exógenos, como
café, açúcar, armas de fogo. Desde os anos 70 os Kwazá
e os Aikanã começaram trabalhar para si mesmos, vendendo borracha
na cidade. Também foram envolvidos na exploração de madeira
nobre, e trocaram mogno por carros e artigos de supermercado (como arroz,
açúcar etc.), acostumando-se ao modo de vida do branco. Os missionários
destruíram outras importantes partes da cultura indígena, e
até hoje a Missão Uniedas (de cunho protestante fundamentalista)
ensina, por exemplo, que o exercício do pajé é uma "maldade
contra Deus". Neste processo de aculturação ao mundo do
branco, os índios ficaram dependentes de produtos para alimentação
básica e remédios que custam dinheiro, e com isso perderam a
sua autonomia. Suas terras pouco férteis não contêm minerais
de valor, a madeira nobre praticamente acabou e o palmito quase não
é mais encontrado na área. Com a queda do mercado local de borracha,
a partir de 1997, sobram somente as aposentadorias dos poucos velhos como
fonte de renda familiar.
Os Kwazá e outros povos de Rondônia, como os Aikanã, foram
expulsos das terras férteis onde moravam originalmente por fazendeiros,
depois da abertura do BR-364 na década de 60. Assim, hoje, a grande
maioria dos Kwazá mora junto com os Aikanã e os Latundê
na área Indígena Tubarão-Latundê, demarcada em
1983. O solo desta área indígena é pobre, quase totalmente
arenoso. Uma grande parte da área indígena tem a vegetação
de cerrado. A cada ano, a região tem menos mato virgem, razão
pela qual a caça está diminuindo rapidamente.
A Terra Indígena como um todo tem um só líder ou cacique,
que representa os três grupos nela existentes. Esse líder, hoje,
é um jovem Aikanã, assistido pelas pessoas mais velhas da comunidade
e pela administração da sede da FUNAI, em Vilhena. Juntos, os
índios criaram em 1996 a "Associação Massaká
dos Povos Indígenas Aikanã, Latundê e Kuazá"
("Massaka" originalmente, era o nome próprio de um
índio Aikanã). A ONG "Proteção Ambiental
Cacoalense" (PACA), de Rondônia, tem dado apoio , sob a forma de
cursos, à Associação Massaká.
Quanto aos Kwazá do igarapé São Pedro, por não
terem a terra demarcada, encontram-se seriamente ameaçados pelos fazendeiros
locais. Felizmente o Departamento de Assuntos Fundiários (DAF) da FUNAI
está fazendo um esforço desde setembro 1997 para reconhecê-la,
uma vez que a cabeceira do igarapé São Pedro, tributário
do rio Pimenta Bueno, corresponde a uma das regiões de origem do povo
Kwazá.
Nota sobre as fontes. Os Kwazá estão
quase totalmente ausentes nas fontes. A primeira menção aos
'Coaiás' (Kwazá) se deu num volume de conferências do
Marechal Rondon de 1916, que os localizou perto dos 'Kepkiriuat' (língua
Tupí). Viviam então à margem direita do rio Pimenta Bueno,
no agora estado de Rondônia. Segundo o antropólogo francês
Lévi-Strauss, a língua Kwazá seria falada também
no igarapé São Pedro, tributário do rio Pimenta Bueno,
na mesma região, cerca de 20 quilômetros ao norte do rio Tanaré.
Quando o antropólogo, no final da década de 30, visitou o sul
de Rondônia, encontrou um jovem Kwazá entre os Kepkiriwát.
Esse jovem vinha do igarapé São Pedro. Poucos anos depois, a
expedição mineralógica 'Urucumacuan', sob o comando do
Dr. Victor Dequech, percorreu Rondônia e encontrou os 'Coaiá'
na beira do Pimenta Bueno e do São Pedro. O primeiro reconhecimento
dos 'Koaiá' pelo Serviço de Proteção aos Índios
(SPI) se deu em 1942, quando o tenente Estanislau Zack os mencionou no seu
relatório. Existe um silêncio desde essa data até 1984,
quando o lingüista americano Harvey Carlson visitou a Área Indígena
Tubarão-Latundê e encontrou alguns 'Koaiá', sobreviventes
de várias epidemias que sofreram durante mais de 40 anos. Ele tentou
chamar a atenção da comunidade lingüística para
a existência da língua. Lévi-Strauss, Zack e Carlson coletaram
breves listas de palavras que comprovam tratar-se de uma língua idêntica
à dos atuais Kwazá. A língua 'Koaza' foi também
mencionada por Ione Vasconcelos, professora da Universidade de Brasília
e pesquisadora da língua vizinha Aikanã, em correspondência
pessoal comigo em 1993.
Morei em aldeias Kwazá e Aikanã durante 14 meses no período
de 1995-1998. Pretendo publicar uma descrição da língua
Kwazá, inclusive um dicionário e uma coleção de
textos tradicionais, em futuro próximo. A Organização
Neerlandesa de Pesquisa Científica (NWO) tem financiado meu projeto.
Hein van der Voort
Universidade de Amsterdam
hein.van.der.voort@hum.uva.nl
novembro de 1998
Anambé | Apiaká
| Arara | Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka | Atikum
| Bakairí | Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára | Javaé Ka'apor
| Kadiwéu | Kaiabi | Karajá
| Kariri-Xocó | Katukina Pano
| Krahó | Krenák | Kwazá
| Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
| Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é