Os Kwazá ocupam terras do sul de Rondônia, desde tempo imemorial. Eram conhecidos na literatura como 'Koaiá'. Seus vizinhos tradicionais eram os Aikanã, Kanoê, Tuparí, Mekens/Sakirap, Salamãi e, possivelmente, alguns outros. Esses povos mantinham relações entre si, através de troca de mulheres, festas, guerras. Suas línguas não são mutuamente inteligíveis. Mesmo assim, suas culturas são muito parecidas, provavelmente por causa dos contatos intertribais e dos recursos de subsistência comuns na região. Hoje a maioria desses povos ou foram dizimados ou vivem espalhados, com as suas culturas destruídas pelo contato com a sociedade nacional, desde o início do século. Dos falantes da língua Kwazá sobraram mais ou menos 25 pessoas. A maioria dos Kwazá já está mestiçada com os Aikanã e mora na Terra Indígena Tubarão-Latundê, em Rondônia, junto com os remanescentes dos povos Aikanã e Latundê. Existe também uma família mista de Kwazá e Aikanã, fora dessa Terra Indígena, situada em uma pequena área na região do igarapé São Pedro, a qual está em processo de reconhecimento para se tornar Terra Indígena.

Nome. A autodenominação do grupo é 'Kwazá' (em que o z corresponde ao ð, que se pronuncia como as letras th na palavra inglesa the, e em que o acento cai na última sílaba). Nas poucas referências existentes na literatura sobre os Kwazá até 1942, eles são referidos como 'Koaiá, Koaya, Coaiá ou Quaia'. Os Kwazá não reconhecem estes nomes e consideram-nos errados. Explicam que o nome certo é 'Kwazá', mas não atribuem nenhum sentido a ele. É provável que as denominações 'Kwazá' ou 'Koaiá' advenham de denominações que lhes foram dadas por povos vizinhos. Por exemplo, os Salamãi os chamavam antigamente de 'Koaiá'. Além disso, o nome 'Kwazá' não deve ser a autodenominação original porque o inventário de sons da língua Kwazá não possui o [ð]. Por outro lado, este som é muito freqüente na língua do povo vizinho, os Aikanã. Esse povo os chama de 'Kwazá' (com o [ð]), embora também não atribua um sentido particular ao nome.
O nome 'Arara' foi usado no passado por alguns funcionários da FUNAI, e hoje ele também se pode encontrar na literatura científica. Esta denominação não é apreciada pelos índios e não foi amplamente difundida. Além disso, ela poderia causar confusão com outros povos de Rondônia chamados 'Arara'.
Existem algumas outras autodenominações que são de valor descritivo, mas que não são muito usadas. Os nomes 'Tsãrã csinuténaheré' "aqueles da terra grande", 'Tsãrã csuhuinaheré' "aqueles da terra pequena" referiam-se a dois grupos de Kwazá que moravam em dois lugares distintos no sul de Rondônia até o final do século passado.
Por fim, os Kanoê chamavam os Kwazá de 'Tainakãw'.

Língua, localização e população. Na literatura a língua Kwazá, dentre várias outras do estado de Rondônia, está classificada como 'isolada'. Isto não quer dizer que o Kwazá não seja relacionado a outras línguas ou famílias lingüísticas conhecidas, uma vez que, infelizmente, essas classificações, em grande parte, não são muito confiáveis, por estarem baseadas apenas em comparações de pequenas listas de palavras. Caso também fossem comparadas as estruturas gramaticais, talvez as relações históricas com outras línguas pudessem ser descobertas. Para se chegar a isso, descrições completas de todas línguas envolvidas são necessárias, mas até o momento ainda há uma grande falta de iniciativa por parte dos lingüistas. Por isso, talvez seja melhor, por enquanto, considerar o Kwazá como uma língua ainda 'não-classificada'.
Hoje os membros dos três núcleos familiares que congregam a maioria dos Kwazá mora na Terra Indígena Tubarão-Latundê, município de Chupinguaia, Rondônia. Aí moram entre os Aikanã, que constam de aproximadamente 130 pessoas. Um parte dos Kwazá se reconhece como Aikanã. Durante a minha estada entre eles, contei 25 falantes de kwazá, sendo mais da metade crianças. Metade dos Kwazá é trilíngüe, pois fala também aikanã e português. Uma parte é bilíngüe em kwazá e português. Só algumas pessoas falam apenas o Kwazá. Existem alguns falantes de Kwazá como segunda ou terceira língua, e alguns "falantes" passivos, que entendem o Kwazá. A maioria dos falantes de Aikanã é bilíngüe, falando também o português. Na Terra Indígena mora também o povo Latundê, que fala uma língua que se pode classificar como Nambikwára.
Nas famílias Kwazá/Aikanã que moram na região do São Pedro, há só uma pessoa que conhece o kwazá, além do português.
Alguns Kwazá moram em cidades (Porto Velho e Pimenta Bueno), sem contato com os índios aldeados. Assim como muitos Aikanã urbanos, eles podem ter perdido a língua. Não há dados que confirmem a existência de Kwazá fora do Brasil.
A língua Kwazá é uma "língua ameaçada de extinção", isto é, exposta ao risco de desaparecer em muito pouco tempo, falada por poucas pessoas e sobre a qual não se conhece praticamente nada. Na mesma situação também se encontram as línguas vizinhas Kanoê e Latundê.

Contexto e situação tradicional. O habitat tradicional dos Kwazá era de floresta alta. Moravam ao longo dos rios, preferencialmente nas cabeceiras. Entre os seus vizinhos tradicionais estavam os Aikanã e os Kanoê, de línguas não classificadas; os Mekens/Sakirap e os Tuparí, da família Tuparí; os Salamãi, da família Mondé; e vários outros, alguns deles já extintos. Mesmo falando línguas mutuamente não inteligíveis, esses povos mantinham contato entre si, seja devido a guerras territoriais, seja decorrente de alianças, festas e casamentos intertribais. Esse intercâmbio intertribal resultou em fortes semelhanças entre as culturas materiais, espirituais e intelectuais desses povos, constituindo o que foi chamado de "Complexo Cultural do Marico" pela antropóloga Denise Maldi (1991), caraterizado, entre outras coisas, pelos seguintes aspectos: cesto feito de fibras de tucum ('marico'); malocas comunitárias na forma de colméia, para mais ou menos 10 famílias nucleares; chicha peneirada e fermentada de milho, mandioca, banana, açaí, etc.; xamanismo com o uso de rapé feito de paricá; divisão em clãs com nomes de animais e traços específicos da mitologia. Os Kwazá correspondem a essa tipologia. Quanto à divisão em clãs, embora os Kwazá remanescentes não mais lembrem disso, há indícios na memória oral do grupo vizinho que sugerem a antiga existência de clãs entre os Kwazá.
Vários costumes desapareceram logo depois do início do contato com a sociedade nacional. Antes do contato, os Kwazá realizavam ritos antropofágicos (comiam inimigos); praticavam ritos de iniciação de adultos, envolvendo o isolamento de moças durante algumas meses; jogavam bola de cabeça (hoje jogam futebol); pintavam o corpo com urucum e jenipapo; enfeitavam o corpo com colares, pulseiras, brincos e capacetes de coco, dentes, conchas, tucum e penas (hoje preferivelmente usam miçangas de acrílico, colares de prata, bonés e relógios); perfuravam os lábios inferiores e superiores para o uso de batoques; dormiam em redes feitas de fibras de tucum (hoje preferem camas); os homens tocavam vários tipos de música com vários tipos de flautas de taboca (hoje é raríssimo); tinham flautas sagradas as quais as mulheres eram proibidas de escutar (hoje não mais); caçavam e pescavam com arco e flecha e timbó (hoje caçam com espingarda). A organização social e política da sociedade tradicional era bastante igualitária. O povo era dividido em subgrupos territoriais, provavelmente clãs, como acontecia com os vizinhos. Possivelmente não existia um nível de liderança acima desses subgrupos, geralmente exercida por jovens. O pajé tinha uma posição importante como médico e intermediário espiritual, o que não lhe dava nenhum status especial fora dessas esferas. Embora mulheres e homens exercessem atividades diferentes, a mulher podia ser líder ou pajé também. É quase impossível conseguir mais informação sobre a vida tradicional dos Kwazá, uma vez que os velhos de hoje já cresceram em tempos bastante perturbados por causa do contato com os brancos. Ao lado do arroz e do feijão introduzidos pelos brancos, os Kwazá de hoje ainda (como antigamente) plantam banana, mandioca, amendoim, cará, tabaco, em roças que são queimadas periodicamente e que são transferidas para mato virgem depois de uns poucos anos. Ainda coletam frutas, criam coró de patauá e mantêm jacus, araras, além de outras aves, porcos, quatis e vários tipos de macacos como xerimbabos (animais de estimação).

Contexto e situação atual. Desde os anos 30 os Kwazá combinam a caça e a plantação de roça com a exploração de seringa, com a qual os povos do sul de Rondônia entraram na economia global. Trabalhavam nisso como mão-de-obra para os brancos em troca de produtos exógenos, como café, açúcar, armas de fogo. Desde os anos 70 os Kwazá e os Aikanã começaram trabalhar para si mesmos, vendendo borracha na cidade. Também foram envolvidos na exploração de madeira nobre, e trocaram mogno por carros e artigos de supermercado (como arroz, açúcar etc.), acostumando-se ao modo de vida do branco. Os missionários destruíram outras importantes partes da cultura indígena, e até hoje a Missão Uniedas (de cunho protestante fundamentalista) ensina, por exemplo, que o exercício do pajé é uma "maldade contra Deus". Neste processo de aculturação ao mundo do branco, os índios ficaram dependentes de produtos para alimentação básica e remédios que custam dinheiro, e com isso perderam a sua autonomia. Suas terras pouco férteis não contêm minerais de valor, a madeira nobre praticamente acabou e o palmito quase não é mais encontrado na área. Com a queda do mercado local de borracha, a partir de 1997, sobram somente as aposentadorias dos poucos velhos como fonte de renda familiar.
Os Kwazá e outros povos de Rondônia, como os Aikanã, foram expulsos das terras férteis onde moravam originalmente por fazendeiros, depois da abertura do BR-364 na década de 60. Assim, hoje, a grande maioria dos Kwazá mora junto com os Aikanã e os Latundê na área Indígena Tubarão-Latundê, demarcada em 1983. O solo desta área indígena é pobre, quase totalmente arenoso. Uma grande parte da área indígena tem a vegetação de cerrado. A cada ano, a região tem menos mato virgem, razão pela qual a caça está diminuindo rapidamente.
A Terra Indígena como um todo tem um só líder ou cacique, que representa os três grupos nela existentes. Esse líder, hoje, é um jovem Aikanã, assistido pelas pessoas mais velhas da comunidade e pela administração da sede da FUNAI, em Vilhena. Juntos, os índios criaram em 1996 a "Associação Massaká dos Povos Indígenas Aikanã, Latundê e Kuazá" ("Massaka"‚ originalmente, era o nome próprio de um índio Aikanã). A ONG "Proteção Ambiental Cacoalense" (PACA), de Rondônia, tem dado apoio , sob a forma de cursos, à Associação Massaká.
Quanto aos Kwazá do igarapé São Pedro, por não terem a terra demarcada, encontram-se seriamente ameaçados pelos fazendeiros locais. Felizmente o Departamento de Assuntos Fundiários (DAF) da FUNAI está fazendo um esforço desde setembro 1997 para reconhecê-la, uma vez que a cabeceira do igarapé São Pedro, tributário do rio Pimenta Bueno, corresponde a uma das regiões de origem do povo Kwazá.

Nota sobre as fontes. Os Kwazá estão quase totalmente ausentes nas fontes. A primeira menção aos 'Coaiás' (Kwazá) se deu num volume de conferências do Marechal Rondon de 1916, que os localizou perto dos 'Kepkiriuat' (língua Tupí). Viviam então à margem direita do rio Pimenta Bueno, no agora estado de Rondônia. Segundo o antropólogo francês Lévi-Strauss, a língua Kwazá seria falada também no igarapé São Pedro, tributário do rio Pimenta Bueno, na mesma região, cerca de 20 quilômetros ao norte do rio Tanaré. Quando o antropólogo, no final da década de 30, visitou o sul de Rondônia, encontrou um jovem Kwazá entre os Kepkiriwát. Esse jovem vinha do igarapé São Pedro. Poucos anos depois, a expedição mineralógica 'Urucumacuan', sob o comando do Dr. Victor Dequech, percorreu Rondônia e encontrou os 'Coaiá' na beira do Pimenta Bueno e do São Pedro. O primeiro reconhecimento dos 'Koaiá' pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) se deu em 1942, quando o tenente Estanislau Zack os mencionou no seu relatório. Existe um silêncio desde essa data até 1984, quando o lingüista americano Harvey Carlson visitou a Área Indígena Tubarão-Latundê e encontrou alguns 'Koaiá', sobreviventes de várias epidemias que sofreram durante mais de 40 anos. Ele tentou chamar a atenção da comunidade lingüística para a existência da língua. Lévi-Strauss, Zack e Carlson coletaram breves listas de palavras que comprovam tratar-se de uma língua idêntica à dos atuais Kwazá. A língua 'Koaza' foi também mencionada por Ione Vasconcelos, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da língua vizinha Aikanã, em correspondência pessoal comigo em 1993.
Morei em aldeias Kwazá e Aikanã durante 14 meses no período de 1995-1998. Pretendo publicar uma descrição da língua Kwazá, inclusive um dicionário e uma coleção de textos tradicionais, em futuro próximo. A Organização Neerlandesa de Pesquisa Científica (NWO) tem financiado meu projeto.

Fontes de Informação

Hein van der Voort
Universidade de Amsterdam
hein.van.der.voort@hum.uva.nl
novembro de 1998

 

 

Anambé | Apiaká | Arara | Araweté | Asuriní do Tocantins Ashaninka | Atikum | Bakairí | Bororo | Enawenê NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá | Guajajára | Javaé Ka'apor | Kadiwéu | Kaiabi | Karajá | Kariri-Xocó | Katukina Pano | Krahó | Krenák | Kwazá | Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará | Gavião Parkatêjê | Payakú | Pirahã Pitaguarí | Rikbaktsa | Suruí | Tapeba | Tapuio | Tenharim Timbira | Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim | Xavante | Xetá Xerente | Xokleng | Waiãpi | Wari | Yaminawa | Yanomami Yawanawa | Zo'é