Nome. Não há uma autodenominação adotada pelo conjunto dos Maku. Na verdade, eles se dividem em seis grupos distintos, cada qual com seu próprio território, língua e autodenominação:
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Autodenominação |
Outros nomes |
Localização |
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1. N |
Maku |
Guaviare e Inírida, na Colômbia |
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2. Bara, Kakwa |
Maku, Pohsá, Boroa, Wirapoyá |
Uaupés e Papuri, na Colômbia |
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3. Hupd |
Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá |
Papuri e Tiquiê, no Brasil e Colômbia |
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4. Yuhupd |
Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá |
Tiquiê e Traíra, no Brasil e Colômbia |
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5. D |
Maku, Kamã |
Curicuriari e Negro, no Brasil |
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6. Nad |
Maku, Guariba Tapuya, Xiruai |
Negro e Japurá, no Brasil |
N.B.: Dentre as autodenominações alternativas, preferimos as que estão em negrito.
Com exceção dos Bara, que usam mais o termo bara
("irara") do que o termo kakwa ("gente") como
autodenominação, e também dos Kabori, um subgrupo Nadub que
se autodenomina kabori ("meninos"), todos os outros Maku usam o
termo "gente" nas respectivas línguas como autodenominação. O termo
maku, de origem Arawak, significa ora "servo", ora
"selvagem", sendo rejeitado pelo conjunto dos Maku em conseqüência
da óbvia conotação pejorativa. Mantemos aqui o termo maku porque se
consagrou na literatura etnográfica e porque não há outro que designe o
conjunto desses índios. Quanto aos outros nomes, boroa e pohsá
significam "servos" nas línguas Dahséa e Cubeo, respectivamente,
ambas da família Tukano. O termo peoná, também de origem Tukano,
significa "donos dos caminhos", alusão ao fato de que os Maku não
viajam de canoa, como todos os outros índios da região, mas a pé, pelos
caminhos. O termo wirapoyá, empregado pelos Desana (sub-grupo Tukano)
para designar os Maku de sua vizinhança, significa "Desana
estragado". Ignoramos a origem do termo kamã, cuja conotação também
é pejorativa. O termo guariba é aplicado pelos regionais aos Nadub,
em alusão à crença de que eles teriam parentesco com o macaco homônimo. O
termo xiruai, "cunhado" em nheengatu, é a forma amistosa pela
qual os mesmos regionais se referem aos Nadub. Devido à influência
do movimento indígena na região do rio Negro a partir de meados dos anos 1980,
os nomes pejorativos (boroa, pohsá, wirapoyá, kamã,
guariba e mesmo maku) estão caindo em desuso, mas até agora não
surgiu um nome genérico e neutro.
Língua.
As seis línguas Maku são aparentadas entre si, formando o que se pode chamar
de família lingüística Maku. Até onde se sabe, essa família nada tem a ver
com as famílias Tukano ou Arawak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos.
Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade
dos Tukano, os Maku da área do Uaupés (Bara, Hupdu e Yuhupdu)
falam línguas Tukano, dando curso ao multi-lingüismo característico da região.
Por outro lado, os Tukano têm sido uma espécie de barreira aculturativa para
os Maku do Uaupés, pois atuam como intermediários no contato com os brancos,
de modo que apenas cerca de 20% desses Maku sabem se expressar em português ou
espanhol. Os Nukak, de contato muito recente (1988), pouco
falam o espanhol ou qualquer outra língua que não a deles. Quanto aos Duw
e Nadub, de contato antigo (século XVIII) e sem a
"barreira Tukano" na vizinhança, a grande maioria se expressa bem em
português e nheengatu (língua geral ou tupi amazônico, falado
majoritariamente pela população ribeirinha do médio e baixo Rio Negro,
descendente dos Baré, que vem se proclamando índia à medida em que avança na
região o movimento indígena).
As línguas Maku têm sido estudadas em graus diversos. Bara (Kakwa), Hupdu,
Yuhupdu e Nadub mereceram estudos preliminares
efetuados por missionários do SIL, assim como o Duw, por parte
dos missionários da ALEM. No entanto, nenhum desses estudos resultou em
instrumentos eficazes para o desenvolvimento da educação bilíngüe, uma
demanda cada vez mais colocada pelos Maku, em justa reação à hegemonia da língua
Dahséa (Tukano) nas escolas locais, mantidas pelo município e coordenadas
pelos missionários católicos salesianos.
Localização.
Os Maku se distribuem numa área limitada a noroeste pelo rio Guaviare (um dos
afluentes colombianos do Orinoco), ao norte pelo rio Negro, ao sul pelo rio
Japurá e a sudeste pelo rio Uneiuxi (um dos afluentes brasileiros do Negro).
Este losango soma um total aproximativo de 20 milhões de hectares.
Evidentemente, nem todo ele é ocupado pelos índios. A alta dispersão espacial
dos seis grupos lingüísticos Maku dentro desse vasto perímetro se deve à
dominância de enormes áreas de caatinga ou campinarana, um tipo de floresta não
ribeirinha, de solo extremamente pobre, pouca variabilidade vegetal e baixa
concentração de animais de caça. Os Maku ocupam justamente as
"manchas" de floresta de terra firme, onde a caça é mais abundante e
a vegetação mais rica em espécies utilizáveis na alimentação ou na confecção
de artefatos.
A ocupação humana da área em tempos pré-colombianos se deu provavelmente em
duas vagas: primeiro, os Maku se estabeleceram nas zonas interfluviais, nas
"manchas" de terra firme; a seguir vieram os Arawak e os Tukano,
estabelecendo-se nas barrancas altas dos rios, em meio ao igapó (terreno
ribeirinho baixo, periodicamente inundável durante as cheias, de abril a
setembro). O contato já bastante antigo entre esses povos de origem e línguas
diversas, cada qual ocupando faixas ecologicamente distintas, resultou num
complexo sistema de trocas comerciais e simbólicas, de que trataremos adiante.
No lado brasileiro, recentemente foram homologadas cinco terras indígenas: Alto
Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Rio Téa e Rio Apapóris,
somando um total 10,6 milhões de hectares de terras contínuas e contíguas. Os
grupos Maku brasileiros, isto é, os Hupdu, Yuhupdu,
Duw e Nadub, distribuem-se nos terrenos
interfluviais de todas essas áreas, com exceção do Médio Rio Negro II. As
descrições que se seguem dizem respeito sobretudo aos Maku do Uaupés (Bara,
Hupdu e Yuhupdu) e se baseiam nas etnografias
de Silverwood-Cope (1990), Reid (1979) e Pozzobon (1984, 1992). Sobre os Maku do
Uneiuxi e do Paraná Boá-Boá, veja-se Schultz (1959), Münzel (1969) e
Pozzobon (1998).
Demografia.
Os cerca de três mil Maku se distribuem num vasto território binacional, de
modo que é bastante difícil estimar os parâmetros demográficos da população
como um todo. Devido ao caráter interfluvial de seu habitat, pouco acessível
às frentes pioneiras, aos missionários ou aos pesquisadores, as estimativas
anteriores, que variam de 2 a 2,5 mil, são muito precárias e pouco confiáveis,
de modo que não servem para se estimar a dinâmica populacional. Os estudos
ainda em curso das variáveis demográficas em um determinado grupo Maku, os
Hupdu, permitem afirmar provisoriamente que se trata de uma
população estável, que não tem aumentado nem diminuído significativamente
nos últimos decênios (Pozzobon, 1998). Por outro lado, eventuais trocas
matrimoniais com grupos circunvizinhos são numericamente inexpressivas, devido
ao baixo status dos Maku no sistema intertribal da região.
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Autodenominação |
População |
Ano |
Fonte |
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1. N |
378 |
1995 |
Franky et al. (1995) |
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2. Bara, Kakwa |
± 300 |
1969 |
Silverwood-Cope (1990) |
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3. Hupd |
± 1.500 |
1997 |
Pozzobon (1997b) |
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4. Yuhupd |
370 |
1997 |
Pozzobon (1997c) |
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5. D |
78 |
1994 |
Oliveira, Meira e Pozzobon (1994) |
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6. Nad |
± 600 |
1995 |
ISA (1996) |
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TOTAL |
±3.226 |
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História do contato.
A pobreza da campinarana dominante, somada ao caráter encachoeirado dos rios,
foi um dos obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e
espanholas, que disputavam a região já no século XVII, estabelecendo
destacamentos militares em alguns pontos do rio Negro, de onde os nativos
apresados eram "descidos" para os centros urbanos emergentes
(Barcelos, Manaus e Belém). A partir do século XVIII, intensificam-se os
"descimentos", de modo que mesmo os Maku, em seus recônditos territórios
interfluviais, tiveram alguns de seus efetivos apresados como escravos. Mas a análise
dos documentos coloniais permite afirmar que dentre os indígenas da região
eles foram os menos atingidos pelos "descimentos" ou pelas violências
decorrentes do ciclo da borracha, ao final do século seguinte. O ciclo da
borracha, aliás, foi possivelmente um dos motivos da adoção de práticas agrícolas
pelos Maku: refugiando-se nos terrenos interfluviais para escapar ao apresamento
praticado pelos seringueiros, os Tukano passaram a conviver mais intensamente
com os Maku, ensinando-lhes a agricultura da mandioca, bem como uma série de
itens da cultura material e espiritual de que trataremos adiante.
Em 1914, em pleno período de estagnação econômica decorrente da débacle
da borracha, entram em cena os missionários salesianos, uma ordem católica
voltada para a educação. Eles obtiveram a adesão de todos os índios
ribeirinhos do lado brasileiro, porém encontraram muita resistência por parte
dos Maku, que se recusavam a enviar suas crianças aos internatos nos centros
missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram algumas experiências de
povoados-missão exclusivamente Maku (ver adiante). O garimpo aurífero - que se
desenvolveu na região entre meados da década de 1980 e o início dos anos
1990, época em que o movimento indígena conseguiu expulsar os invasores com o
apoio do Ministério Público e a força da Polícia Federal - pouco afetou os
Maku, pois era praticado no mais das vezes em terreno ribeirinho. O único
garimpo de terra firme, no extremo sul da TI Alto Rio Negro, foi abandonado já
em 1986 pela empresa mineradora Paranapanema, em função da baixa
produtividade; com a intensificação do movimento indígena no início dos anos
1990, o ouro passou a ser explorado exclusivamente pelos índios.
Organização social.
As aldeias Maku tradicionais variam entre 25 e 30 habitantes - cerca de seis
grupos domésticos. O grupo doméstico Maku se compõe de marido, esposa ou
esposas, filhos solteiros e eventuais agregados, que podem ser parentes próximos,
viúvos ou solteiros, do marido ou da esposa ou esposas. Em geral, cada grupo
doméstico possui sua própria fogueira, em torno da qual seus membros se reúnem
para dormir e comer. Quanto às casas, resumem-se a tapiris sem paredes, podendo
abrigar de um a quatro grupos domésticos (fogueiras), ligados por laços próximos
de parentesco, que podem ser tanto patri quanto matrilaterais. Uma aldeia de 25
habitantes costuma ter cerca de três casas. Estas se situam numa clareira, no
cimo de uma colina, perto de algum igarapé não navegável. As roças se
distribuem em torno das casas ou em clareiras próximas (de 5 a 60 minutos de
caminhada), que vêm a ser antigos locais de aldeia. Cada grupo doméstico
possui em média duas roças de 50 x 50 m, sempre em clareiras comunais.
Um aglomerado de aldeias próximas, distando entre si de uma hora a um dia de
caminhada, forma um grupo regional. Via de regra, os grupos regionais falam cada
qual um dialeto distinto da mesma língua. Assim, cada grupo lingüístico Maku
se divide no mínimo em dois grupos regionais/dialetais. Os Hupdu,
por exemplo, possuem três grupos regionais (três dialetos), separados entre si
por cursos de água navegáveis, cujas margens são ocupadas por "índios
do rio". Os membros adultos do mesmo grupo regional/dialetal se conhecem
todos pelo nome, assim como pelas relações de parentesco que os unem. Já o
conhecimento que possuem dos falantes de dialetos vizinhos, com quem não têm
relações genealógicas demonstráveis, é bastante precário. Em outras
palavras, o grupo regional/dialetal é um nexo fortemente endogâmico. A taxa média
de casamentos endogâmicos - entre pessoas nascidas no mesmo grupo regional - é
de 80%. O tamanho médio do grupo regional na área do Uaupés brasileiro é de
260 pessoas - cerca de 10 aldeias vizinhas.
O território do grupo regional/dialetal resulta da justaposição de vários
territórios contíguos de caça, cada qual em torno de uma aldeia. Com efeito,
os homens de uma aldeia de 25 a 30 habitantes costumam caçar num raio de 7 a 10
km em torno da aldeia. A partir dela, irradia-se uma série de caminhos, alguns
ligando aldeias Maku entre si, outros conduzindo a aldeias ribeirinhas, outros
ainda levando aos acampamentos de caça. Cada aldeia possui em média 8
acampamentos de caça no raio de 7 a 10 km de seu entorno. Quando a aldeia
ultrapassa a marca dos 30 ou 40 habitantes, ela se cinde em duas ou mais
aldeias, pois numa aldeia grande, os caçadores são obrigados a se afastar mais
que 10 km para encontrar caça suficiente. A longa permanência de uma aldeia
num determinado lugar (cerca de cinco anos) é também motivo de mudança, para
deslocar o raio de atuação dos caçadores, explorando, assim, novos territórios
de caça.
Cotidiano de uma aldeia Maku. As mulheres
se levantam quando começa a clarear o dia, tomam banho e preparam o dejejum
comunal dos homens, que ocorre no mais das vezes na casa do líder da aldeia. Após
a refeição, os homens partem solitários, aos pares ou em grupos maiores,
dependendo dos rastros vistos no dia anterior (porcos do mato, por exemplo, são
boas presas para caçadas coletivas). Depois deles partirem, as mulheres comem
junto com as crianças e logo vão às roças, colher mandioca e replantar. Elas
voltam perto do meio dia e preparam farinha, mingaus e beijus. Por volta das três
da tarde, os homens retornam com suas presas e as entregam às esposas. Cada uma
cozinha em sua própria fogueira, mas a refeição que se segue é comunal, na
casa do líder, os homens comendo primeiro, sendo logo seguidos pelas mulheres e
crianças. Depois disto, as três ou quatro refeições que se seguem até a
hora de dormir (cerca das 21 horas) assumem um caráter cada vez mais doméstico
e individual. No cotidiano, as atividades masculinas têm um ritmo frouxo,
interrompido várias vezes por longos períodos de espreguiçamento nas redes,
enquanto as mulheres trabalham duro nas roças, no preparo das refeições e na
coleta de lenha.
As mulheres, porém, não deixam de reclamar da preguiça dos homens. Estes, por
seu turno, às vezes brigam entre si, acusando-se mutuamente de avareza, por não
distribuírem generosamente os magros resultados das caçadas cotidianas. Quando
a situação atinge o paroxismo, os grupos domésticos se separam em vários
acampamentos de caça, cuja ocupação varia de dois ou três dias até um mês
(somando-se todas as estadias de um grupo doméstico nos acampamentos durante o
ano, têm-se uma média de quatro meses por grupo doméstico por ano). Aí
invertem-se os papéis: enquanto os homens passam até doze horas caçando
ininterruptamente, as mulheres se espreguiçam nas redes. E todos comem juntos,
caçadores, esposas e filhos.
Em poucos dias nos acampamentos, os homens terão caçado muito mais do que seus
grupos domésticos são capazes de consumir. Sendo assim, eles podem decidir
voltar à aldeia de origem, para uma festa, que ameniza antigas rusgas ou
provoca novas. Ou podem decidir trocar o excedente em caça por farinha de
mandioca, ipadu (folha de coca macerada) ou beijus, fornecidos pelos índios
ribeirinhos. Neste caso, alguns grupos domésticos podem decidir ficar algum
tempo (de alguns dias a um mês) na aldeia ribeirinha, trabalhando nas roças e
na feitura de novas casas.
A relação entre os Maku do Uaupés e seus vizinhos ribeirinhos, de fala
Tukano, é bastante hierarquizada: os primeiros são tidos como
"escravos" dos últimos. Porém, isto é muito mais uma ideologia étnica
do que uma prática social efetiva. Os Maku são livres para ir e vir,
estabelecendo (ou rompendo) relações de "escravidão" com várias
aldeias ribeirinhas ao mesmo tempo. Por outro lado, as roças Maku, em geral 80%
menos produtivas que as roças ribeirinhas e incapazes de satisfazer a demanda
dos próprios Maku, são poupadas. Na verdade, os Maku aceitam ser
"escravos" devido às evidentes vantagens que isso lhes traz: eles têm
acesso aos produtos cultivados sem terem de arcar com as conseqüências da
sedentarização necessária a uma produtividade agrícola semelhante à dos
Tukano (cerca de dez toneladas de tubérculos por grupo doméstico por ano, ao
passo que a dos Maku não chega a três toneladas).
Organização política. A mobilidade é
muito importante para os Maku, dado que seu meio habitual de resolver conflitos
é a dispersão no espaço. Não há líderes ou conselhos "tribais"
que arbitrem os desentendimentos, aliás freqüentes, entre os habitantes de uma
aldeia. O líder da aldeia não passa de um anfitrião e de um coordenador das
caçadas coletivas. Trata-se em geral de um homem de meia idade, ainda forte
para caçar e com muita experiência no assunto, em torno do qual se reúnem
cinco ou seis grupos domésticos cujos cabeças são seus filhos ou seus genros.
Ele não tem autoridade para julgar quem está certo e quem está errado numa
briga. O líder que tenta fazê-lo não está livre de apanhar durante a briga
ou de assistir à deserção irrevogável de expressiva parte de seus filhos ou
genros. Assim, a dispersão espacial temporária é a única forma de evitar a
fissão definitiva da aldeia por ocasião de algum conflito. Mas, dependendo da
gravidade, a fissão pode ser inevitável: alguns grupos domésticos não voltam
mais para a aldeia de origem, estabelecendo-se em aldeias vizinhas, onde têm
parentes próximos, ou fundando nova aldeia.
Os grupos locais (aldeias) Maku mostram uma composição bilateral: moram juntos
tanto os filhos quanto os genros do líder. O fundamento básico da amizade
masculina é a relação entre cunhados, isto é, homens que trocaram irmãs.
Porém, o termo "irmãs" deve ser entendido em sentido amplo. O
vocabulário de parentesco é de tipo dravidiano: funda-se sobre a bipartição
dos primos em proibidos para o casamento (primos paralelos, isto é, filhos de
irmãos de mesmo sexo), e preferenciais para o casamento (primos cruzados, isto
é, filhos de irmãos de sexos opostos). Entre os Maku, o vocabulário
dravidiano está associado a um sistema de clãs patrilineares exogâmicos. Há
consistência entre o vocabulário e a classificação dos clãs: assim como os
primos são bipartidos em "irmãos" (os paralelos) e
"cunhados" (os cruzados), os clãs são classificados em clãs
"irmãos" e clãs "cunhados", de modo que o universo dos
parentes é bipartido, tanto do ponto de vista do vocabulário quanto do ponto
de vista do sistema de clãs. Destarte, são amigos (co-residentes, companheiros
de caçada) os homens que trocaram irmãs reais ou classificatórias entre si.
Os grupos locais (aldeias) mais estáveis são os que mostram esta composição:
um grupo composto de cunhados reunidos em torno de um homem de meia idade, sogro
de alguns e pai de outros. Isto significa reunir no mesmo grupo local no mínimo
dois clãs afins.
Não há facções, grupos etários corporativos ou conselhos de anciãos entre
os Maku. Eles classificam as pessoas conforme três faixas etárias principais
(em língua Hupdu): os dowdu (verdes =
crianças), os wudndu (maduros = adultos) e os wuhudndu
(secos = velhos). Os líderes de aldeia estão numa sub-classe intermediária
entre os wudndu e os wuhudndu.
Estes últimos, além de desempenharem quase que invariavelmente a função de
xamãs, são também os nominadores. Para nominar uma criança, o velho
empreende uma "viagem" (por meio de um alucinógeno do gênero banisteriopsis)
até o mundo dos ancestrais. Lá chegando, ele consulta os mesmos sobre o nome
da criança. Cada clã possui um repertório de nomes, de modo que o nome próprio
já dá a identidade clânica da pessoa, assim como seu status matrimonial (se
"irmão" ou se "cunhado") em relação aos demais.
Arte, cultura material e jogos.
Em comparação com os vizinhos Tukano e Arawak, os Maku possuem uma cultura
material rudimentar na origem: canoas, bancos rituais, potes de cerâmica,
pintura corporal e flautas sagradas de iniciação masculina, entre outros, são
itens copiados dos vizinhos. Os itens de origem Maku parecem ser o aturá (um
cesto cargueiro bastante resistente) e a zarabatana. Esta, aliás, é
instrumento de concorridos torneios de tiro ao alvo, principalmente entre os Nadub.
Outros jogos apreciados pelos Maku são a piorra assoviadora, feita de coquinho
e haste de paxiúba, a caça ao pombo a pedradas e certas traquinagens com
animais: um homem, espreguiçando-se na rede, mata tempo oferecendo um pedaço
de beiju simultaneamente ao seu tucano de estimação e ao seu cão de caça,
para ver a ave desferir dolorosas bicadas no focinho do rival; crianças se
divertem amarrando tições flamejantes ao rabo de cachorros vadios, para vê-los
em espavorida disparada, enquanto a aldeia inteira se dobra de rir.
Acrescente-se a simples galhofa, inclusive comparações de pênis e vulvas, com
abundantes metáforas desabonadoras, além dos comentários debochados, em
coletiva voz de falsete, sobre antigos namoros alheios.
Cosmologia. O universo Maku tem a forma de um ovo em pé, com três andares ou "mundos": (1) o "mundo das sombras", subterrâneo de onde vêm todos os "monstros", tais como os escorpiões, as onças, as cobras venenosas, os índios do rio e os brancos; (2) o "nosso mundo", isto é, a floresta e (3) o "mundo da luz", acima do céu, onde vivem os ancestrais e o criador - o Filho do Osso (possível alusão ao pênis, também chamado de osso). Luz e sombra são as duas substâncias básicas de que se compõem todos os seres, em proporções diversas. Luz é fonte de vida. Sombra é fonte de morte. No "nosso mundo", as folhas e as frutas são os seres que mais concentram luz, ao passo que os carnívoros são os que mais concentram sombra. Por isso, é melhor não comer carnívoros, mas tão somente herbívoros. No mundo da luz, após a morte, as pessoas se alimentam de deliciosos sucos de frutas e se tornam eternos adolescentes.
Mitologia.
O principal ciclo mitológico dos Maku relata a epopéia do Filho do Osso - Idn
Kamni em Bara, Kegn Teh em Hupdu, Ku
Teh em Yuhupdu. Trata-se do sobrevivente de um incêndio
que pôs fim à criação anterior, cujas tentativas de recriar o mundo resultam
numa série de trapalhadas: por causa delas, existem as brigas, as doenças e a
morte. Após ter sua mulher raptada pelo irmão caçula, o Filho do Osso se
retira definitivamente deste mundo, indo morar no mundo da luz, acima do céu e
dos trovões, que às vezes emite em expressão de desagravo. Coincidência ou não,
na vida real os irmãos costumam brigar entre si, em disputa pelas mesmas
mulheres, suas afins, conforme o sistema de clãs.
Ritual. Afora a nominação, dois outros rituais Maku utilizam alucinógenos do gênero banisteriopsis. Um deles é o ritual do jurupari, de origem ribeirinha, em que os meninos são iniciados na idade adulta. Neste rito, que consiste em representar teatralmente a chegada da anaconda ancestral aos trechos de rio atualmente ocupados pelos Tukano, os homens tocam as flautas sagradas, que não podem ser vistas pelas mulheres. O outro rito é a dança e o cântico do kaapi wayá, também de origem ribeirinha, em que o caminho serpenteante da anaconda é encenado, porém sem as flautas sagradas. Além destes, há o dabocuri, igualmente vindo dos índios do rio. É uma festa profana, divertida e alcoolizada. Entre os Maku, muitas vezes termina em verdadeiras batalhas campais, com safanões, pauladas e gritarias madrugadoras, cuja conseqüência, além de uma porção de hematomas, costuma ser a dispersão dos co-residentes em vários acampamentos de caça ou uma estratégica mudança de aldeia.
Xamanismo.
De modo geral, pode-se dizer que todos os velhos Maku são xamãs. Estes, porém,
são de dois tipos: os rezadores (bididu) e os homens-onça
(nyaam hupdu). Os primeiros curam através de reza. Os
últimos, através da extração do mal por meio de sucção. Freqüentemente, o
mesmo indivíduo desempenha ambas as funções. Em qualquer dos casos, não
inspira muito temor entre seus pares, sendo, antes, um dos alvos prediletos dos
deboches. Mas por vezes pode ser acusado de malefícios e doenças, ocasião em
que as pessoas que se julgam atingidas mudam de aldeia ou "ficam no mato até
a raiva passar".
Aspectos contemporâneos.
Como se viu, o caráter hierárquico da relação entre os Maku e os Tukano tem
diminuído graças ao trabalho das organizações indígenas da área e aos
missionários salesianos, que procuram difundir a igualdade e a solidariedade
entre os povos indígenas. Porém, essa valorização dos Maku trouxe algumas
dificuldades. Durante os anos 1970, no intuito de estender a eles os benefícios
da alfabetização e da assistência médica, os missionários lograram
concentrar em alguns povoados-missão (a expressão foi cunhada por Athias,
1995), exclusivamente Maku uma série de aldeias anteriormente dispersas. Os
exemplos mais conhecidos são Santo Atanásio, no igarapé Japu, com 240
habitantes, e Nova Fundação, no igarapé Cucura, com 164 habitantes, ambos na
área do Uaupés.
Se por um lado isto facilita o acesso à assistência médica e a implantação
de escolas rurais, por outro lado apresenta problemas de difícil solução. O
primeiro deles é o problema alimentar. Como vimos, os caçadores de uma aldeia
de 25 habitantes caçam num raio de sete a dez quilômetros em torno da aldeia.
Se a população da aldeia aumenta, o raio de atuação dos caçadores também
aumenta. Em vez de caminhar quatro horas por dia, eles são obrigados a caminhar
seis horas ou mais, a fim de encontrar caça suficiente para manter seus
familiares. Com o tempo, isto se torna impraticável, sobretudo para os caçadores
de povoados-missão: eles teriam de caminhar vários dias para manter um nível
razoável de abastecimento em caça. Em conseqüência, esses povoados
atravessam crises periódicas de fome.
Para solucionar este problema, os missionários estimularam a formação de
pasto e doaram gado. Mas, além de não produzir carne suficiente para
substituir a caça, a bovinocultura reforça a concentração espacial e a
sedentarização desses índios. Ora, como vimos, eles resolvem suas brigas
internas espalhando-se em várias aldeias e acampamentos. Porém, nos
povoados-missão, eles não querem abandonar o gado. Ficam no local, a despeito
dos desentendimentos. Em conseqüência, as brigas costumam ser bem mais freqüentes
e violentas, algumas resultando em mortes. Hoje em dia, os missionários
reconhecem que os povoados-missão "não são muito boa coisa para esses índios."
Mas enfrentam um dilema: a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira não concorda
em manter escolas rurais em povoados com menos de 15 crianças - e não há 15
crianças em idade escolar nos povoados de tamanho tradicional.
Um outro inconveniente dos povoados-missão é a dificuldade da coleta de
cobertura para as casas (caranã). Um povoado-missão esgota em pouco tempo os
caranazais da redondeza. Em resposta, os missionários e a Prefeitura têm
distribuído folhas de zinco, que aumentam sobremaneira o calor dentro das
casas. Na época das chuvas, este calor contrasta fortemente com o frio noturno.
A grande variação térmica facilita e agrava as doenças respiratórias, cuja
disseminação é aliás incrementada pela própria concentração espacial. Se,
de um lado, os povoados-missão são mais acessíveis à assistência médica,
de outro lado propiciam epidemias e com isto necessitam de mais assistência médica
do que as aldeias tradicionais.
Segundo os dados da Saúde Sem Limites, ONG que tem atuado entre os Maku do Uaupés,
a situação de saúde dos mesmos é precária, havendo muita incidência de
tuberculose, tracoma e verminoses diversas (Cf. Athias, 1995). Na região do
Apapóris, os Maku costumam ser vítimas de surtos sazonais de malária, pois,
ao contrário do que se passa na região do rio Negro, a malária é endêmica
nessa região (Cf. Pozzobon, 1997c). Já nas imediações de São Gabriel da
Cachoeira, os Maku, mais especificamente os Duw, são vítimas
do alcoolismo, além de sofrerem uma constante desnutrição, devido ao
empobrecimento da floresta nas proximidades do perímetro urbano. São eles também
os mais procurados pelos regatões (comerciantes amazônicos embarcados, que
pagam em mercadorias a produção nativa de cipó, borracha, piaçaba etc.).
Estes últimos, como sempre, tratam de manter os índios em eterna dívida,
distribuindo cachaça para garantir a dominação e a exploração.
As experiências missionárias visando debelar os problemas de saúde dos Maku
se têm revelado infrutíferas, dado que no mais das vezes se resumem a
estimular o assentamento em bases permanentes de grupos locais que antes vagavam
dispersos em vários pontos dos territórios interfluviais. Como se sabe, a
concentração espacial, além de ensejar a desnutrição, devido à diminuição
da capacidade de suporte do meio ambiente imediato, também facilita as
epidemias. Sendo assim, a assistência médica baseada na sedentarização dos
Maku não faz mais do que agravar os problemas que se propõe a resolver.
Ademais, nos povoados-missão o trabalho nas roças é muito árduo. Dada a
sobre-exploração das clareiras e o esgotamento rápido do solo, as roças se
situam cada vez mais longe. Isto obriga as mulheres a longas caminhadas pelas
trilhas no centro da mata, carregando cestos com 30 ou 40 kg de mandioca, coisa
que as índias de fala Tukano não precisam fazer, pois transportam os tubérculos
em canoas, visto que em geral suas roças se situam às margens dos rios e
igarapés navegáveis.
Finalmente, há um aspecto político muito importante envolvido na sedentarização
e na concentração espacial dos Maku. Como se sabe, as terras indígenas da
região do rio Negro foram recentemente demarcadas e homologadas. Os grandes
espaços interfluviais desse conjunto de terras contíguas se justificam pela
presença dos Maku. Por isso eles constituem peça chave nas estratégias de
vigilância e proteção desses espaços interiores. Não há "vazios
demográficos" nos territórios interfluviais, mas áreas ciclicamente
utilizadas pelos Maku. Ora, o incremento do processo de sedentarização e
concentração espacial desses índios arrisca reforçar a tese dos "vazios
demográficos", tão cara àqueles que planejam um destino não indígena
para a área, como a implantação de "colônias agrícolas" e
"florestas nacionais", conforme queria o Projeto Calha Norte.
Evidentemente, o respeito aos padrões tradicionais de ocupação espacial torna
bem mais difícil a tarefa de garantir aos Maku a alfabetização em suas próprias
línguas e o acesso à assistência médica, conforme prescreve a Constituição
de 1988. Mas essa dificuldade deve ser vista como um desafio, não como um
entrave, pois a mesma Constituição manda que se respeitem os costumes de cada
povo indígena. Sendo um povo consideravelmente isolado em termos de contato e,
portanto, pouco experiente em matéria de movimento indígena, é preciso apoiá-lo.
É preciso que os missionários, a Prefeitura, a FUNAI, os índios ribeirinhos,
as organizações indígenas e as ONGs atuantes na área elaborem, juntamente
com os Maku, um programa educacional e sanitário que se adapte aos costumes
deles, com unidades móveis de saúde e escolas itinerantes.
Nota sobre as fontes. O etnólogo Peter
Silverwood-Cope foi quem inaugurou a pesquisa de campo intensiva sobre os Maku,
mais especificamente sobre os Bara, permanecendo entre eles de 1968 a 1970. Sua
tese de doutorado, recentemente publicada em português (Silverwood-Cope, 1990)
aborda aspectos diversos da cultura Maku, tais como sua base ecológico-econômica,
a organização sociopolítica, bem como as concepções mitológicas e cosmológicas.
Na década seguinte, Howard Reid (1979) enfocou a mobilidade, o ciclo de
desenvolvimento do indivíduo e a mudança cultural entre os Hupdu
- sem no entanto descuidar dos aspectos etnográficos mais tradicionais, como a
etnografia da caça e coleta, a estrutura de parentesco, os rituais e a
mitologia. A partir dos anos 1980, Pozzobon (1984, 1992) se dedicou ao estudo da
organização social dos Maku, estabelecendo um modelo socioestrutural generalizável
para os Bara, Hupdu e Yuhupdu, baseado nas
relações entre a identidade étnica, a endogamia regional/dialetal e a
demografia das unidades sociais significativas. Deve-se mencionar ainda os
estudos de Athias (1995, 1998) sobre os Hupdu sedentarizados em
povoados-missão, enfocando diversos aspectos da ecologia, economia, organização
social e cosmologia, sobretudo concepções ligadas à saúde e à doença.
Sobre os Nukak, veja-se os trabalhos de Franky Calvo, Cabrera
Becerra e Mahecha (1995, 1999), bem como o de Politis (1996), dedicados a
aspectos lingüísticos, à mobilidade espacial e à etnografia geral deste
povo. Finalmente, sobre os Nadöb há os trabalhos de Schultz (1959), Münzel
(1969) e Pozzobon (1998), que, embora não resultem de etnografias intensivas,
fornecem informações importantes sobre essa fração pouco conhecida do povo
Maku.
Jorge Pozzobon
Museu Paraense Emílio Goeldi
pozzobon@museu-goeldi.br
jpozzobon@pobox.com
janeiro de 1999
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