Nome e língua. Conhecidos por este nome, os Marúbo
o aceitam, embora não constitua uma auto-denominação, a qual não parece
existir.
Sua língua se inclui na família Pâno. O etnólogo Philippe Erikson, apoiado
nas semelhanças lingüísticas e culturais dos Marúbo com os Katukína-Pâno,
Nukiní (Rêmo) e Poyanáwa, do Brasil, e ainda com os Kapanáwa,
do Peru, classifica o conjunto de suas línguas como o ramo central da família
Pâno.
Dizem os Marúbo que sua língua é a dos Chaináwavo. Essa afirmação coloca
algumas questões relativas a seu passado, pois Chaináwavo é o nome de uma das
suas seções (ver adiante), hoje extinta. Como seção, os Chaináwavo não
podiam viver isolados, pois tinham de se casar com membros de outra seção; e
ainda haveria pelo menos mais duas seções junto das quais deveriam estar: a de
seus pais e a de suas mães. Falaria cada uma dessas seções uma língua?
Falariam essas quatro seções uma mesma língua, diferente das de outros
agregados de seções? Seriam os Marúbo atuais resultado de uma fusão de vários
agregados de quatro seções, cada qual falante de uma língua e que acabaram
por adotar uma delas? Ou ainda, haveria uma situação semelhante à do noroeste
da Amazônia, em que cada grupo exogâmico teria uma língua diferente?
A atual língua dos Marúbo também dispõe de uma contrapartida ritual. Nos
mitos e nos cânticos de cura há um vocabulário paralelo, que substitui muitas
das palavras de uso cotidiano. Nos discursos formais, trocados entre o dono da
casa e o visitante em momentos especiais, as frases são entoadas com uma
musicalidade diferente daquela das situações profanas.
Atualmente os jovens do sexo masculino podem se comunicar também em português.
Os mais velhos, uma vez que a região foi explorada no passado por caucheiros
peruanos, conhecem algumas palavras de quêchua e de espanhol.
Localização. Os Marúbo vivem no alto curso
dos rios Curuçá e Ituí, da bacia do Javari, no município amazonense de
Atalaia do Norte. É uma região cheia de pequenas colinas, com cimos não raro
ligados por cristas entre si, coberta pela floresta amazônica. Para atingirem
os centros urbanos, ou descem esses rios, alcançando, nas proximidades da
desembocadura do Javari no Solimões, Atalaia do Norte (onde fica a sede de
administração regional da FUNAI que deles se incumbe), Benjamin Constant e a
cidade colombiana de Letícia, ou então, no sentido oposto, cruzam o divisor de
águas que os separa do Juruá, para chegarem a Cruzeiro do Sul, no Acre. Aliás,
esta última é bem mais próxima das terras marúbo; porém, dada a necessidade
de fazer a viagem parcialmente por terra, só pode ser alcançada com cargas
leves.
Desde o estabelecimento dos primeiros contatos com as frentes extrativas de
caucho e de seringa, no final do século XIX, os Marúbo estão na mesma posição
geográfica. No começo do século, havia alguns deles no rio Batã, um afluente
do Jaquirana, ou seja, o alto Javari; mas talvez aí estivessem como agregados
de seringalistas. A criação de postos da FUNAI no médio Curuçá (perto da
foz do rio Pardo) e no médio Ituí (destinado ao atendimento dos Matís),
atraiu parte da população marúbo mais para baixo.
Desde os anos 70 se discute a criação de um parque indígena do Javari que
abrangerá a banda oriental da bacia deste rio e deverá abrigar várias etnias
indígenas, além dos Marúbo, como os Korúbo, Mayá, Matís,
Matsés, parte dos Kanamarí e dos Kulína. O mais recente
passo nessa direção foi a aprovação, pelo Presidente da FUNAI, das conclusões
do "Resumo do Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena
Vale do Javari", apresentado pelo Departamento de Identificação de Terras
desse órgão.
Demografia. O quadro abaixo dá uma idéia do crescimento da população marúbo ao longo do último quarto do século XX. Foi copiado, com adaptações, de levantamento do antropólogo Walter Coutinho Jr., que distribuiu os grupos locais em quatro setores, entre os quais existe um acentuado intervalo espacial: a) no rio Ituí, logo acima da foz do rio Novo de Cima, próximo de um posto da FUNAI originalmente criado para a atração dos Matís; b) no mesmo rio, acima da confluência com o Paraguaçu, até as cabeceiras, inclusive a concentração de malocas da sede missionária de Vida Nova; c) no rio Curuçá, logo acima da foz do Pardo, onde estava um posto de atração, até uma concentração de grupos locais conhecida por São Sebastião, abaixo da foz do Arrojo; e d) no igarapé Maronal, afluente do alto Curuçá. A coluna referente ao ano de 1998 se deve a censo do etnólogo Javier Ruedas.
|
Rios
|
Setores
|
Anos
|
|||||
| 1975 | 1978 | 1980 | 1985 | 1995 | 1998 | ||
| Rio Ituí | a) Foz do Rio Novo de Cima |
–
|
21
|
26
|
65
|
114
|
88
|
| b) Acima foz do Paraguaçu |
227
|
253
|
254
|
289
|
344
|
380
|
|
| Rio Curuçá | c) Entre fozes Pardo e Arrojo |
91
|
66
|
53
|
86
|
133
|
182
|
| d) Igarapé Maronal |
141
|
110
|
116
|
149
|
204
|
231
|
|
| Outros |
10
|
12
|
–
|
5
|
23
|
37
|
|
| Total |
397
|
462
|
460
|
594
|
818
|
918
|
|
Os casamentos interétnicos, com brancos ou índios de outras etnias, constituem uns poucos casos.
História do contato. Pode-se dividir o contato
dos Marúbo com os brancos em três fases. A primeira, a partir do final do século
XIX, é marcada pelo contato com os peruanos que desciam os rios à procura do
caucho, vegetal de terra firme que era derrubado para dele extraírem o látex,
e com os brasileiros, que subiam os rios em busca da seringueira, árvore mais
freqüente na várzea e, portanto, no baixo curso, que não era abatida,
bastando fazer-lhe incisões no tronco para lhe coletarem a seiva. Parece ter
sido um período de grande desorganização dos povos indígenas da bacia do
Javari. Aplicava-se o sistema amazônico do aviamento, de adiantamento de
artigos industrializados que deviam de ser pagos com produtos da floresta. Não
era um comércio livre, pois cada rio era como que "propriedade" de um
seringalista, que tinha junto a sua foz seu "barracão", isto é, seu
armazém, seus funcionários administrativos e seguranças, que não permitiam
aos seringueiros por aí passarem sem fazerem suas transações. Não eram
apenas os índios os explorados: em 1900 o seringalista que dominava o rio Ituí
reprimiu violentamente os seringueiros que dele tentavam fugir com a borracha.
Integrantes da Missão Novas Tribos do Brasil, que começaram a trabalhar com os
Marúbo em 1952, ainda encontraram entre eles notas de compras de 1906.
Entretanto, com a queda dos preços da borracha em 1912, a região começou a
ser abandonada pelos empresários da borracha e pelos que para eles trabalhavam.
Houve quem deixasse sua empresa para seu gerente, mas mesmo assim a retirada da
população continuou. Apareceram aventureiros, que mantinham não somente o
tipo de exploração até então imposta mas ainda acrescentavam a má fé nas
relações com os índios. Até que os Marúbo se viram abandonados. Voltaram a
viver isolados dos brancos, durante os anos 30 e 40. É provável que foi o
tempo em que os Marúbo, então retraídos ao alto Curuçá, voltaram a se
organizar, articulando os diferentes agregados de seções. Eles atribuem a João
Tuxaua, falecido recentemente, a pregação e estabelecimento da paz no seio do
povo marúbo. Foi essa a segunda fase da história do contato.
A terceira fase se inicia quando os Marúbo, na falta dos instrumentos de metal,
que haviam se acabado, voltam a procurar os brancos, na direção sul, do rio
Juruá. Estabelecem contato com o seringal de Boa Fé, na foz de seu afluente, o
rio Ipixuna. Aí passam a trocar pélas de borracha e couros de animais
silvestres por artigos industrializados. Essa relação atrai a Missão Novas
Tribos do Brasil, que entre eles se estabelece. Pouco mais tarde, madeireiros
que subiam o Javari e seus afluentes também entram em contato com os Marúbo.
Como o transporte da madeira só podia ser feito rio-abaixo, como as pélas de
borracha também eram mais comodamente transportadas em embarcação do que às
costas, como os missionários acabaram por construir um campo de pouso junto ao
rio Ituí e mantinham uma cantina, o contato com o Juruá perdeu o interesse,
embora nunca tenha sido abandonado.
Se, por um lado, os Marúbo parecem ter resultado do apaziguamento e articulação
dos remanescentes de alguns povos indígenas culturalmente semelhantes
desorganizados pelo contato com os brancos, por outro, a mais conhecida das relações
intertribais que mantiveram foi de caráter hostil com os Matsés, que, por
volta de 1960 atacaram um pequeno grupo de indivíduos marúbo que procuravam
ovos de tracajá nas praias do Curuçá, matando um homem e raptando três
mulheres. Essa incursão provocou um revide dos Marúbo, que fizeram uma expedição
que matou, asseguram, quatorze Matsés, com armas de fogo, pois já tinham
restabelecido o contato com os brancos. Vários anos após terem sido os Matsés
contatados pelos brancos, foi possível a duas das mulheres raptadas voltarem
aos Marúbo, tendo a terceira provavelmente falecido.
A maloca. Quem chega pela primeira vez a um
lugar habitado pelos Marúbo cometerá um engano se tentar estimar a população
pelo número de construções. Na verdade, a única construção habitada é a
casa oblonga que está no centro, no alto da colina, coberta de palha de jarina
da cumeeira ao chão. Aí os moradores dormem, preparam alimentos, comem,
recebem visitas, entoam cânticos de cura, assistem ao xamã. A maloca tem até
um mito de origem, o do herói Vimi Peya, que aprendeu a fazê-la depois de
viver um período no fundo das águas, com os jacarés. Apesar de cada exemplar
variar no tamanho, a maloca é sempre feita da mesma maneira, com os mesmos
encaixes e amarrações.
As construções que ficam ao redor, onde o declive se acentua, erguidas sobre
pilotis, com assoalho e paredes de casca de paxiúba, teto de palha, servem mais
como depósitos e são de propriedade individual. Geralmente, o que se guarda
nos depósitos são itens adquiridos dos civilizados: ferramentas de ferro,
armas de fogo, panelas de alumínio, cabos de aço para amarrar toros de
madeira, tigelinhas de lata para látex, faca de fazer incisão no tronco de
seringueira, roupas e tecidos, máquinas de costura e outros.
As roças se estendem a partir da colina onde se ergue a maloca, para os vales e
colinas vizinhas. Notam-se várias tonalidades de verde conforme os vegetais
cultivados: nas partes altas, nas cristas que ligam as colinas, de um e de outro
lado dos caminhos, há faixas de mandioca e mamoeiros; nas depressões, milho e
bananeiras.
A maloca abriga várias famílias elementares sob a liderança do dono da casa.
Este, como qualquer outro homem, pode estar casado também com uma ou mais irmãs
de sua esposa. Com ele pode morar o irmão de sua esposa, filhos casados ou
sobrinhos (filhos da irmã) casados com suas filhas. Cada mulher e seus filhos
ocupam o espaço quadrado, de mais ou menos três metros de lado, marcado por
quatro pilares da casa, dois centrais e dois laterais, onde dispõem suas redes,
erguem um pequeno jirau para guardar objetos, alguns metidos nas palhas da
parede, e mantêm um fogo de cozinha no lado desse quadrado voltado para o
centro da maloca. O homem que tem mais de uma esposa pode estar ora no espaço
de uma, ora no de outra. O dono da casa costuma ter uma rede em um canto junto
à porta principal. Os dois compridos bancos que fazem um corredor pelo qual
deve passar quem entre por essa porta servem de assento aos homens da casa nas
duas refeições diárias, uma antes de sair para as atividades do dia e outra
ao retornar, nas conversas noturnas, quando tomam rapé e ayahuasca, e assistem
a sessões xamânicas. As mulheres comem no centro da casa sentadas em esteiras
sobre o chão. Junto à porta dos fundos há no chão um tronco escavado, de uns
três metros, como um cocho, onde as mulheres trituram grãos e frutos com ajuda
de uma pedra chata retangular. Na ausência dos homens, algumas mulheres se
aproximam das portas, as únicas entradas de luz, para furar pedacinhos de
conchas de caramujos de que fazem contas para diferentes pendentes e colares.
Três elementos parecem marcar a maloca como uma unidade social: cada qual tem
seu "dono" (aquele que promoveu sua construção), seu trocano
(instrumento de percussão constituído de um tronco de madeira com uma cavidade
retangular profunda) e faz seus convites para refeições e ritos.
Entretanto, como notou o etnólogo Javier Ruedas, malocas próximas entre si têm-se
articulado, nos últimos anos, em unidades mais amplas. E são esses conjuntos
maiores, cada qual com seu nome em português e seu líder geral, que interagem
com as agências externas, como Funai, Fundação Nacional de Saúde, Médicos
sem Fronteira, Conselho Indígena do Vale do Javari e outras.
As seções. Os Marúbo se dividem em dezoito seções,
grupos que reúnem parentes por linha feminina de gerações alternadas. Embora
os Marúbo prefiram pensar em termos dessas seções, para nós é mais fácil
agrupá-las duas a duas, tomando cada par como um clã matrilinear. Em outras
palavras, o sistema de seções opera entre os Marúbo com no seguinte exemplo:
uma mulher pertencente à seção "Gente da Arara Vermelha" dá à luz
filhos e filhas da seção "Gente da Saracura"; as filhas dela, por
sua vez, voltarão a gerar filhos e filhas da seção "Gente da Arara
Vermelha"; e assim as gerações irão se alternando ao longo do tempo. A
"Gente da Saracura" não pode se casar com a "Gente da Arara
Vermelha".
Os termos de parentesco se aplicam segundo essa alternância de gerações. Um
integrante da "Gente da Saracura" tem sua mãe na "Gente da Arara
Vermelha", e chamará de "mãe" a todas as outras mulheres desta
seção, sejam elas mais velhas ou mais novas que ele, sejam da primeira ou da
terceira geração acima ou abaixo da dele. Existe um termo de parentesco, take,
que uma pessoa aplica a qualquer membro de sua própria seção, de um ou de
outro sexo. Entretanto, mesmo se usar para com eles de termos menos inclusivos,
há de se notar que eles se aplicam a parentes de mais de uma geração. Assim,
o termo para "irmã mais velha" é usado também para referir-se à avó
materna, enquanto o para "irmã mais nova" também pode ser aplicado,
por uma mulher, à filha de sua filha.
Os nomes pessoais são transmitidos geralmente dentro da mesma seção, de avó
materna ou suas irmãs para a filha da filha e de avô paterno (que nem sempre
é da mesma seção) ou seus irmãos para o filho do filho.
Dizem os Marúbo que o casamento preferível é com a filha do koka,
categoria que inclui os tios maternos ou os sobrinhos sororais mais velhos do
que aquele que emprega este termo. Os koka de um homem "da
"Saracura" pertencem à "Gente da Arara Vermelha", e as
filhas desses koka são de outras seções.
Há dois aspectos que devem ser ressaltados no casamento marúbo: a) um homem,
ao casar-se com uma mulher, se torna pretendente também das irmãs dela, que vêm
a se tornar suas esposas ou dos irmãos dele; a intromissão de algum outro que
não faça parte desse grupo de irmãos, ou de sua seção, é vista com
hostilidade; b) parece haver uma certa ascendência de um homem sobre os irmãos
mais novos de sua esposa, o que por vezes contribui para constituir o núcleo em
torno do qual se forma um grupo doméstico - o dono da casa com sua(s)
esposa(s), secundado pelo irmão dela(s) e sua(s) esposas(s) - ou equipes de
extração de madeira.
Distinções de idade e de gênero. Os ritos de
passagem de idade não são muito evidentes, mas parece haver uma distinção
entre os homens quanto ao uso do rapé e da ayahuasca, pois, mesmo que já sejam
casados e tenham filhos, só passam a fazê-lo depois de uns trinta anos. Antes
disso, limitam-se a servir os mais velhos dessas substâncias.
Além de ocupar de modo diferencial os espaços da maloca, homens e mulheres se
distinguem quanto à participação nas atividades produtivas, cabendo aos
primeiros a derrubada da mata, o aceiro da roça, a abertura das covas das
bananeiras com os bastões de cavar, a caça, a confecção de canoas, trocanos,
banquinhos, cochos-pilão. Cânticos de cura e xamanismo, atividades a que não
podem faltar o tabaco e a ayahuasca, são da alçada dos homens.
Às mulheres cabem o cuidado das roças, a colheita da banana e da macaxeira, a
confecção de cerâmica, das maqueiras (redes de dormir de malhas largas) de
tucum, das saias justas de algodão. Também a cozinha, notável pela variedade
e elaboração dos pratos, bem como a ordem e ocasião apropriada de sua
apresentação. Elas dedicam uma boa parte de seu tempo à confecção de contas
de caramujo aruá, de que fazem os colares, pendentes, talabartes, indispensáveis
ao modo de bem se apresentar dos Marúbo. A pintura corporal, tanto a de caráter
estético como a de finalidade mágica, é feita pelas mulheres.
Atividades de subsistência e comerciais. A
clareira para as novas roças é aberta coletivamente pelos homens da maloca e
depois dividida entre as famílias elementares, que plantam os três vegetais básicos
na alimentação - o milho, a macaxeira (aipim) e a banana - além do mamão,
goiaba, bem como os destinados a outras finalidades, como o tabaco, a urtiga, o
algodão. Uma vez que os vegetais têm ciclos diferentes, a roça produz por
muito tempo: o milho tem crescimento rápido, sendo colhido três meses após o
plantio; a macaxeira leva pelo menos um ano para dar suas raízes; as
bananeiras, uma vez colhidos os primeiros cachos, deixam brotos que produzirão
outros mais. O mamoeiro dura alguns anos. Talvez o vegetal cultivado de ciclo
mais longo seja a pupunheira, que só ganha altura após ter sido a roça
abandonada e produz seus frutos por muitos anos. À medida que novas roças se
fazem necessárias, elas vão sendo abertas em locais mais afastados da maloca.
Mas não é apenas a distância das roças que leva à construção de outras: a
deterioração das palhas da cobertura e a impermeabilização do teto pela
fuligem provocada pelos fogos de cozinha, que impede a fumaça de sair, também
são outras razões, além da morte do dono da casa, pelo menos no passado.
As caçadas, hoje feitas com armas de fogo, incidem sobretudo sobre o macaco
preto (Ateles sp.?) e o barrigudo (Lagothrix sp.), as duas únicas
espécies de primatas que consideram comestíveis. Também é freqüente o
caititu (Tayassu tajacu), mais raros a anta (Tapirus terrestris),
o porco-queixada (Tayassu pecari). No período menos chuvoso não é difícil
o caçador voltar com uma paca (Cuniculus paca). Dentre as aves, são
freqüentemente abatidos o cujubim (Pipile sp.) e o mutum (Crax
sp.).
A pesca individual se faz com anzol, e a coletiva, com ajuda de um entorpecente
cultivado, cujas folhas são pisadas com terra em buracos, de modo a se fazerem
pequenas bolas com a mistura, que são dissolvidas na água.
A estação menos chuvosa, de maio a setembro, sujeita a eventuais
"friagens" (períodos de cerca de três dias de queda acentuada de
temperatura), é o tempo de extrair o látex das seringueiras, tendo cada homem
adulto seu tapiri para defumar a borracha e suas "estradas" (caminhos
que, saindo do tapiri e a ele retornando, ligam as seringueiras). A estação
chuvosa é o tempo de extrair madeira. Esses dois produtos florestais são
negociados com os comerciantes embarcados, os "regatões", que ora
freqüentam ora não as malocas marúbo, dependendo do rigor com que a FUNAI proíbe
seu acesso. Os missionários também mantêm uma cantina em Vida Nova porém não
compram borracha nem madeira. Embora vendam seus artigos a preço de custo,
fazem-no a troco de dinheiro, o que os Marúbo só conseguem com o trabalho para
os próprios missionários, que não têm muito a oferecer. Por isso, os Marúbo
têm de recorrer aos comerciantes embarcados ou procurar as cidades.
O cosmos. É pela mitologia que os Marúbo
descrevem o Universo e contam como se formou. De um modo geral, os seres são
sempre feitos de partes de outros seres, a começar pela superfície terrestre,
composta de partes moles dos corpos de animais mortos, enrijecidas pelos seus
ossos. Também a água dos rios e os seus peixes são feitos a partir de outros
seres, bem como os vegetais da floresta. Do mesmo modo surgiram as plantas
cultivadas, segundo um dos três diferentes mitos que contam sua origem. O
Universo se compõe de várias camadas, as superiores chamadas céus e as
inferiores, terras. É na terra que está acima das demais, a da Névoa, que
vivem os seres humanos.
Os humanos têm várias almas, que, entretanto, podem resumir-se a duas: a da
direita ou do coração e a da esquerda. Após a morte, a última fica vagando
por esta camada, mas a outra é encaminhada para o Caminho da Névoa (Vei Vai),
que percorre, passando por muitas provas ou perigos, aos quais não pode
sucumbir, sob pena de aí ficar para sempre, até chegar ao lugar onde vivem as
almas de membros de sua seção. Aí tem sua pele trocada por Roka
(macaco parauacu), e passa a uma vida farta, saudável e feliz. O termo que
designa o céu onde se faz essa troca é o mesmo aplicado ao parente a quem se dá
o nome: shokó.
Os Marúbo surgiram do chão, cada seção de um buraco diferente, estimulada
por algo que acontecia na superfície: queda de folhas, penas, pingos de seiva.
Isso aconteceu junto ao estuário mitológico aonde vão ter as águas dos rios
que conhecem. Daí foram subindo ao lado do rio, até chegarem à região onde
hoje vivem. Ao longo desse percurso foram aprendendo sua cultura: qual a pupunha
comestível, qual a secreção de perereca mais apropriada para eliminar a
preguiça e o panema, como ter relações sexuais, a proibição do incesto, os
termos de parentesco, a maneira adulta de chorar, as plantas cultiváveis, os cânticos
de cura, os nomes pessoais. No início os vivos podiam ir e vir por um caminho
chamado Yové Vai até o Shoko Nai. Porém, uma mulher maltratada
pelo marido conseguiu de certos espíritos o fechamento desse caminho e a
abertura do Vei Vai. Isso acabou separando definitivamente os humanos
comuns dos espíritos yové.
Ritos. Aqueles donos de maloca que granjearam
prestígio pelo seu modo de agir comedido e pacífico, que promovem festas e a
paz e são procurados como conselheiros merecem o título de kakáya.
Talvez os ritos menos formais e freqüentes sejam as refeições e as festas de
beber, para as quais uma maloca convida os vizinhos, quando há de carne de caça
de sobra ou macaxeira, milho ou pupunha disponíveis. Mais elaborada e mais rara
é a festa Tanaméa, em que a maloca anfitriã limpa os caminhos até as
malocas convidadas, e abre algumas clareiras para nelas receber com bebida os
convidados que se aproximam. A entrada destes na maloca anfitriã é agressiva,
escavando o pátio externo e destruindo as palhas das paredes. Em compensação,
os moradores da maloca podem tomar dos convidados os enfeites que trazem.
Anualmente se realiza em cada maloca a festa da colheita do milho, em que a
aplicação de urtigas ou de picadas de tocandeira nos homens e as brincadeiras
que imitam as diferentes fases da atividade venatória de modo a propiciar os
resultados da caçada coletiva predominam sobre boa parte do rito.
O transporte de novo trocano desde a mata, onde foi confeccionado, até o
interior da maloca constitui também uma ocasião ritual. O pesado instrumento
é amarrado ao centro de um longo tronco, cujas extremidades os homens colocam
aos ombros. Os carregadores, apoiados em bastões, além de terem de andar pelo
caminho escorregadio, enlameado pelas chuvas, devem suportar também as cócegas
que lhes fazem as mulheres que os classificam como maridos.
No que tange ao ciclo de vida, o rito mais visível é o funerário, que no
passado envolvia a cremação, a pulverização dos ossos e sua ingestão pelos
parentes dentro de um alimento pastoso, seguido do desfile com partes do corpo
do morto no sentido de ajudar a sua "alma do coração" a encontrar o
caminho das provas post-mortem. Atualmente, o cadáver é envolvido na
sua rede e levado pelas pessoas que mantém com o defunto as relações mais
distantes para o cemitério, bem afastado da maloca, onde é depositado numa
sepultura, sobre a qual se constrói um pequeno tapiri.
Magia. Mas os ritos que mais freqüentemente se
realizam estão no âmbito da magia e se apresentam sob duas formas: os cânticos
de cura e as sessões xamânicas. Qualquer homem maduro se sente na obrigação
de entoar os primeiros, sentado com outros em banquinhos em torno da rede do
doente, quando este é um parente próximo. Mas há reconhecidos especialistas
nesses cânticos, os kenchintxô ou "curadores". São cânticos
que duram pelo menos quarenta e cinco minutos, repetidos ou substituídos por
outros a intervalos pelo número de vezes que a gravidade do mal o exigir. Antes
de cantar pela primeira vez e nos intervalos, os curadores bebem ayahuasca e
tomam rapé. Têm uma seqüência padronizada: uma introdução narra como se
formou o espírito da doença, constituído de partes de diferentes seres; uma
narrativa de como a doença entrou no enfermo; a invocação de seres e
qualidades que entram no corpo do enfermo para combatê-la, entre os quais tem
papel preponderante o espírito feminino Shoma; e a recuperação do
doente. Uma outra maneira de entoar cânticos de curar é sobre um pote de
mingau cujo conteúdo será depois consumido por aqueles que desejam os efeitos
esperados. Também sobre um pote é possível entoar cânticos maléficos, sendo
o conteúdo aplicado secretamente na pessoa que se deseja enfeitiçar.
Freqüentes também são as sessões xamânicas, mas somente nas malocas onde
vivem um dos poucos xamãs marúbo (na década dos oitenta não passavam de três),
chamados romeyá ou "pajés". O xamã, quando vai atuar, começa
a tomar rapé e ayahuasca a partir das sete horas da noite, junto com os homens
que constituem a assistência, todos sentados nos compridos bancos da entrada da
maloca. Por volta das onze horas da noite, o xamã, agora numa rede pendurada
junto à porta, recebe o primeiro espírito; e assim vai recebendo
sucessivamente outros espíritos até por volta das cinco da manhã, quando
termina a atividade. Cada espírito que o xamã recebe utiliza-se do corpo deste
para falar, conversar, dançar. Enquanto isso ocorre, a alma do xamã visita a
maloca onde vive o espírito, depois que caminhar por um dos vários caminhos cósmicos.
A sessão xamânica não tem um fim meramente de curar doentes ou achar coisas
perdidas, como alguns espíritos se dispõem a fazer. É um ato de comunhão com
seres de caráter benevolente, os yové, de outras camadas do cosmos, que
gratifica, apóia, ensina e até diverte os homens que estão junto ao xamã, e
as mulheres e crianças, que o escutam de suas redes.
Aspectos contemporâneos. Logo após os
primeiros reconhecimentos efetivados pela FUNAI na região surgiu a idéia da
criação de um Parque Indígena do Javari, que abrangeria as terras de vários
povos indígenas, inclusive a dos Marúbo. Incorporando boa parte das terras
irrigadas pelos afluentes da margem direita do Javari, além do alto Jandiatuba
e do alto Jutaí, a proposta de Parque desde cedo enfrentou a oposição dos políticos,
comerciantes e empresas madeireiras dos municípios de Atalaia do Norte e de
Benjamin Constant, porque se instalaria na maior parte das terras sob jurisdição
do primeiro, impedindo a extração de borracha e madeira que tem por principal
base de apoio a sede do segundo. Por ser área de fronteira internacional, a
proposta também é vista com desconfiança por militares. Vários grupos de
trabalhos em diferentes momentos fizeram levantamentos na área, até que
finalmente o Presidente da FUNAI, em 1998, como já foi dito, aprovou o
"Resumo do Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena
Vale do Javari".
A Missão Novas Tribos do Brasil, que atua entre os Marúbo desde a década de
Cincoenta, mantém uma sede num local que denominou Vida Nova, apoiada por um
campo de pouso, no alto Ituí, onde, além de promover a pregação nos cultos
dominicais realizados em rodízio nas malocas das vizinhanças, dispõe de uma
enfermaria e uma escola bilíngüe para alfabetização, que atendem sobretudo
aqueles índios que moram nas proximidades.
A FUNAI ocupou-se principalmente com os Marúbo do rio Curuçá, onde criou um
posto, porém muito abaixo do lugar onde estavam instaladas suas malocas, o que
estimulou uma parte de sua população a descer. Uma escola operou algum tempo
por iniciativa de um funcionário; a enfermaria, nos anos 70, estava desativada.
Os Marúbo têm participado ativamente da mobilização desencadeada pelos índios
do Javari nos anos 90. Em dezembro de 1990, os líderes marúbo, matsés,
kanamarí e kulína (ou seja, das etnias há mais tempo em contato) presentes no
I Encontro dos Povos Indígenas do Vale do Javari, reunido em Atalaia do Norte,
criaram o Conselho Indígena do Vale do Javari (CIVAJA) para articular suas
reivindicações relativas a terra, saúde, educação e projeto econômico
alternativo junto aos órgãos governamentais. Essa entidade, que recebe o apoio
da Pastoral Indigenista da Diocese do Alto Solimões e da Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), promoveu a Iª, a IIª
e a IIIª Assembléia Indígena do Vale do Javari, respectivamente em 1992 (no
posto destinado aos Marúbo do rio Curuçá), 1995 (na aldeia Liberdade do alto
Ituí, quando pela primeira vez participaram representantes matís) e 1997 (em
aldeia marúbo do rio Curuçá). Se com essas assembléias articula diferentes
etnias da região, com o I° Encontro sobre Demarcação, Madeira e Alternativas
Econômicas no Vale do Javari, em Atalaia do Norte, em março de 1993, o CIVAJA
as pôs em diálogo com prefeitos, vereadores, militares, empresários,
sindicatos e associações da região. No sentido inverso, promoveu uma reunião
apenas com líderes marúbo, em número de 38, na aldeia Maronal, no alto Curuçá,
em janeiro de 1994.
Dentre os resultados alcançados decorrentes da ação do CIVAJA se contam: a
operação do Exército, de julho de 1994 a março de 1995, no apresamento da
madeira indevidamente extraída nos limites da área indígena interditada; a
ocupação da sede da Administração Regional da FUNAI por duas vezes (em 1995
e 1997), motivada pela propensão de alguns funcionários a colocarem-se a favor
dos madeireiros e desacreditarem os esforços indígenas por uma atuação autônoma;
a presença da entidade Médicos sem Fronteiras (MSF), por dois anos, ao invés
de oito meses, como fazem normalmente, atendendo desde 1995, sobretudo no
combate à malária, e contribuindo com microscópios e motores de rabeta para
facilitar o deslocamento dos agentes de saúde; a instalação de 16 aparelhos
de radiofonia pela entidade Amigos da Terra, ligando diferentes pontos da área
do Javari à sede do CIVAJA, em Atalaia do Norte, e a Cruzeiro do Sul, cidade
muito freqüentada pelos Marúbo, para comércio e tratamento de saúde; a
agilização da aprovação do relatório de identificação e delimitação de
Terra do Javari já citado.
Nota sobre as fontes. O registro da etnografia
marúbo teve início com Delvair Montagner e Julio Cezar Melatti, que realizaram
vários períodos de pesquisa de campo nos anos 70 e 80. A classificação das
doenças e dos remédios pelos Marúbo e seus ritos de cura foram abordados na
tese de doutorado de Montagner, defendida na Universidade de Brasília, e
resumida posteriormente no livro A Morada das Almas, publicado pelo Museu
Goeldi. Os artigos publicados por essa pesquisadora tratam também dos adornos,
da cerâmica e da culinária marúbo. Os artigos de Melatti abordam questões
relativas a parentesco, mitologia e contato interétnico. Ele redigiu ainda o
capítulo sobre os Marúbo no volume Javari, publicado pelo CEDI,
entidade hoje incorporada ao Instituto Socioambiental. Os dois pesquisadores
escreveram juntos artigos referentes à construção e simbologia da casa e aos
cuidados com as crianças.
Um relatório pessoal de Terri Valle de Aquino e outro, aprovado pela presidência
da FUNAI, de Walter Coutinho Jr., referentes à identificação e a delimitação
da Terra Indígena do Vale do Javari, trazem dados substanciais sobre os
problemas marúbo com respeito à terra, à saúde, educação, comércio,
demografia.
Mais recentemente Delvair Montagner tem-se dedicado à elaboração de vídeos.
Assessorou o vídeo Marubo, de Nilson Araújo, que dá uma idéia geral
do modo de vida desse povo, e dirigiu Meninos Nus, sobre as crianças indígenas,
e Passado Presente, depoimentos de três mulheres raptadas pelos Matsés,
entre as quais uma marúbo.
Duas novas pesquisas sobre os Marúbo estão em andamento: uma, sobre as relações
políticas internas, por Javier Ruedas, doutorando da universidade
norte-americana de Tulane; a outra, sobre música, por Guilherme Werlang Couto,
doutorando da universidade escocesa de Saint Andrews.
O Pastor John Jansma se dedica ao aprendizado da língua marúbo desde os anos
60, com o fim de traduzir de textos bíblicos, pregar o evangelho e elaborar de
cartilhas de alfabetização. Com pesquisa de caráter mais acadêmico, Raquel
Costa está elaborando uma tese de doutorado sobre a língua marúbo.
Julio Cezar Melatti
Universidade de Brasília
melatti@unb.br
dezembro de 1998
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