Nome. Segundo o etnólogo
Nimuendajú (1958), os remanescentes Maxakalí do vale do Mucuri em Minas Gerais
se autodenominam Monacó bm. Entretanto, de acordo com o antigo chefe de
posto e grande conhecedor da língua, da organização social e da história dos
Maxakalí, Joaquim S. de Souza, eles se identificam como Kumanaxú. Por
sua vez, Popovich (1992), profunda conhecedora da língua falada por eles,
registra Tikmu'ún como o termo que adotam para si mesmos.
Os Maxakalí - palavra em língua desconhecida, aplicada pela primeira vez na área
do rio Jequitinhonha - não podem ser identificados como um único grupo, mas
como um conjunto de vários. A denominação decorre desses grupos se
articularem politicamente como aliados e terem se aldeado conjuntamente,
sobretudo após 1808, quando ocorreu a invasão sistemática de seus territórios
e se ampliaram os conflitos com outros grupos, particularmente com os
denominados Botocudos.
Essa confederação, também chamada de Naknenuk, era composta pelos Pataxó
ou "Papagaio"; Monoxó ou "os Ancestrais" ou Amixokori,
"Aqueles que Vão e Voltam"; Kumanoxó, denominação genérica
das heroínas tribais do panteão religioso dos Maxakalí; Kutatói ou
"Tatu"; Malalí ou "Jacaré Pequeno"; Makoní
ou "Veado Pequeno"; Kopoxó, Kutaxó ou
"Abelha"; e Pañâme.
Essas denominações identificavam, inicialmente, os grupos rituais que, no caso
dos Maxakalí, confundem-se com as unidades mais abrangentes em termos de
organização política - pequenas aldeias nas quais vivem uma família extensa
em torno do seu líder, que acumula funções políticas e religiosas.
Essas aldeias, em decorrência do avanço da sociedade dominante, terminaram por
ser isoladas em termos geográficos, e os vários grupos rituais passaram a ser
identificados nos documentos oficias e particulares como tribos distintas. Essa
identificação diferenciada se manteve até o final do século passado ainda
que os observadores ressaltassem que a língua e a organização social eram as
mesmas e que esses grupos sempre se aldeavam em conjunto, formavam confederações
defensivas e usavam a mesma tática de estabelecerem alianças com os colonos
para poderem enfrentar os inimigos tradicionais. A pertinência a um mesmo grupo
étnico também era afirmada pelos próprios índios, como se observa no
depoimento dos Malali a Auguste de Saint-Hilaire, em 1817, em Minas Gerais, ao
analisarem suas relações com os vários grupos indígenas da região entre os
rios Jequitinhonha e Doce.
Língua. Os assim chamados Maxakalí pertencem ao tronco lingüístico Macro-Jê. O português é falado com relativa fluidez em Água Boa, onde vivem os grupos de contato mais antigo, embora, entre si, se comuniquem na língua tribal. Já no Pradinho, apenas os homens dominam o português com relativa dificuldade. As mulheres e crianças falam unicamente palavras esparsas em português, sendo a comunicação entre eles totalmente em seu idioma.
Localização. Os vários
grupos Maxakalí ocupavam uma área compreendida entre os rios Pardo e o Doce,
correspondente ao sudeste da Bahia, o nordeste de Minas Gerais e o norte do Espírito
Santo.
Os remanescentes desses grupos, conhecidos por Maxakalí nos dias atuais, vivem
em duas áreas indígenas - Água Boa e Pradinho - hoje unificadas na Terra Indígena
Maxakalí, no município de Bertópolis, cabeceiras do rio Umburanas, vale do
Mucuri, no nordeste de Minas Gerais.
População. Embora não se disponha de dados demográficos precisos, as informações esparsas indicam que desde a ocupação da região do Umburanas pelos pecuaristas, houve decréscimo populacional dos Maxakalí devido à redução de sua qualidade de vida e aos conflitos com os fazendeiros da região, o que pode ser identificado pela baixa longevidade dos membros desse grupo e pela alta taxa de mortalidade infantil, particularmente em decorrência da desidratação, disenteria, infecções e anemia. No caso dos adultos, pode-se acrescer a esses fatores a violência e o número elevado de assassinatos decorrentes dos conflitos externos e internos agravados pelas condições impostas pela sociedade nacional.
Em 1997 somavam 802 índios, sendo 415 em Água Boa e 387 em Pradinho.
História do contato. As
primeiras notícias referentes a um subgrupo Maxakalí datam do século XVI,
referidos como Amixokori pelos Tupi do litoral. Até o século XIX muitos
grupos foram aldeados pelos capitães-mores nas povoações litorâneas, como
Prado, Canavieiras, Caravelas, Alcobaça, Itanhém, Poxim, Corumuxatiba,
Belmonte, Trancoso, Mucuri, na Bahia, e Itaúnas, Conceição da Barra e
Santana, no Espírito Santo.
A partir do fim do século XVIII, com a interiorização do processo de
conquista e, mais particularmente, após a política oficial ter estabelecido
como prioridade a conquista da zona entre o litoral e a da mineração, em Minas
Gerais, os vários grupos indígenas dessa região foram pressionados pelo avanço
da sociedade dominante. Até então, entre 1721 e 1808, esta zona estivera
proibida pela Coroa portuguesa à penetração, como forma de evitar o acesso às
zonas de mineração por pessoas não autorizadas pelas autoridades locais,
Os deslocamentos das tribos indígenas passaram a ser constantes na tentativa de
fugirem ao contacto e à dominação, tornando a disputa por territórios uma
dura realidade que as levou a estabelecerem estratégias distintas. Os Kamakã-Mongoió
e os Maxakalí, já conhecidos por essa denominação, ao avaliarem a
impossibilidade de continuarem a enfrentar, simultaneamente, os colonos e os
grupos Botocudos que avançavam em direção ao sul, optaram por aceitar o
aldeamento compulsório e o engajamento como trabalhadores e soldados sob a direção
de diretores de aldeias civis e militares e comandantes de divisões militares,
criadas para promoverem a guerra justa defensiva e ofensiva aos Botocudos
decretada pelas Cartas Régias de 1808.
A partir de então, multiplicaram-se os aldeamentos dos grupos Maxakalí, nessa
época também conhecidos por Naknenuk, uma palavra da língua dos Botocudos e
que passou a ser usada como sinônimo de "índios mansos, aliados e
aldeados". O único subgrupo apontado como resistente a essa política de
aliança foi o dos Pataxó, sempre considerados como arredios e resistentes ao
avanço da sociedade dominante.
Quando o SPI, em 1911, optou por buscar uma solução para os constantes
conflitos entre os índios e os construtores da Estrada de Ferro Bahia-Minas no
trecho compreendido entre as cidades de Teófilo Ottoni, no vale do Mucuri, e São
Miguel do Jequitinhonha, restavam nessa região dois aldeamentos dos Maxakalí
no vale do Jequitinhonha - um no rio Rubim e outro no Kran - e sete pequenas
aldeias entre os rios Umburanas, Dois de Abril, Itanhém, Jucuruçu e
Jequitinhonha, motivo de constantes reclamações dos moradores daquelas
localidades. Eram, ao que tudo indica, foragidos do aldeamento de Itambacuri,
fundado em 1873 por missionários capuchinhos para atender e aldear os índios
da margem esquerda do rio Doce e vale do Mucuri e um ou dois grupos ainda não
aldeados até então.
A partir da abertura da estrada em 1914, os Maxakalí do rio Umburanas, como
passaram a ser conhecidos nesse período, estabeleceram relações de troca com
os moradores da localidade de Machacalis, apesar do receio que sua presença
provocava. Ainda assim, o SPI não adotou qualquer medida para garantir o
atendimento a essa população.
A pressão e os conflitos com os aldeados no Jequitinhonha fez com que, a partir
de 1917, os Maxakalí do aldeamento de Kran e do Rubim terminassem por se
deslocar para Umburanas, reunindo-se aos demais ali refugiados, conforme se
deduz das informações prestadas a Rubinger e a Nascimento acerca da presença
de "um amansador de índios" de nome Fagundes, famoso por sua atuação
no meado do século XIX nas proximidades de Itambacuri.
Devido aos constantes conflitos entre índios e moradores nacionais, em 1920 o
governo de Minas Gerais cedeu à União 2.000 hectares de terras sob seu domínio,
para a instalação de Postos Indígenas no rio Umburanas, visando resolver a
questão dos chamados "índios bravios" dos rios Doce, São Mateus e
Mucuri. Afirmam os índios que Fagundes, nessa ocasião, teria vendido parcela
das terras cedidas ao SPI como forma de ser indenizado pelos serviços
prestados, e os levara para território baiano. Após várias epidemias e muita
insatisfação, os Maxakalí optaram por retornar ao Umburanas e por reunir-se
ao grupo que se recusara a abandonar o local, apesar de não receberem qualquer
tipo de assistência ou proteção por parte do SPI. Só vinte anos depois, em
1940, foi demarcada a área do Posto Indígena de Água Boa, deixando ao
desamparo aldeias localizadas na área hoje conhecida por Posto Indígena
Pradinho.
A insatisfação dos índios e os conflitos com os fazendeiros fizeram com que
se reiniciassem, em 1951, as negociações entre o SPI e o governo mineiro para
a criação e demarcação do PI Pradinho. A decisão final só foi tomada em
1956 quando do assassinato do líder indígena Antônio Cascorado. Porém, a
demarcação criou um fato inusitado: os dois Postos ficaram isolados por um
corredor de fazendas, inviabilizando o contacto e os deslocamentos dos índios
entre as duas áreas e agravando os conflitos com os fazendeiros.
A Guarda Rural Indígena.
Nesse mesmo ano, os fazendeiros instalados no corredor e em áreas de antigas
aldeias iniciaram sua campanha para legitimarem seus títulos junto ao governo
do estado, encontrando irrestrito apoio dos políticos locais e da Assembléia
Legislativa. Para conter a insatisfação dos índios, foi nomeado em 1966 o
Capitão Manoel Pinheiro para a administração do SPI em Minas Gerais.
O Capitão, ligado ao Serviço Nacional de Informações (SNI) e ao Serviço
Reservado da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, criou na área Maxakalí
a Guarda Rural Indígena (GRIN), que passou a se responsabilizar por manter a
ordem interna nas aldeias, coibir os deslocamentos dos índios, impor trabalhos
e denunciar os infratores ao Destacamento da Polícia Militar ali instalado. As
infrações leves eram punidas com prisão na própria área, e as consideradas
como graves, com exílio no Reformatório Agrícola Indígena, também conhecido
por Centro de Reeducação Indígena Krenak, localizado na área demarcada para
os índios Krenák, no vale do rio Doce, em Minas Gerais. Essa instituição
corretiva foi criada por Pinheiro para acolher os indígenas que opunham resistência
aos ditames dos administradores de suas aldeias ou eram considerados como
desajustados socialmente. Dessa forma, Pinheiro conseguiu desarticular a resistência
e oposição dos Maxakalí ao esbulho de suas terras e recebeu, como compensação,
uma fazenda no corredor que, durante muitos anos, dividiu as duas áreas indígenas,
de Água Boa e Pradinho.
O resultado da atuação da GRIN foi manter os "contratos criminosos de
exploração das terras indígenas" (FIGUEIREDO, 27/08/1967), corromper as
lideranças, alimentar o faccionalismo interno, instalar um clima de constante
revolta entre os índios; beneficiar os posseiros e invasores das terras indígenas
e transformar os índios em marginais e meros espectadores do desenvolvimento
implantado em suas terras pelos fazendeiros (TORRES, 06/08/1968).
Só com a substituição de Pinheiro na direção da Ajudância Minas-Bahia, em
1974, desarticulou-se esse sistema repressivo, vindo à tona a exacerbação do
faccionalismo interno; a embriaguez constante; a recusa dos membros da agora
extinta GRIN a trabalhar, embora exigissem a continuidade do pagamento do salário,
e o fato dos índios terem se viciado ao paternalismo de presentes distribuídos
de forma irresponsável, tendo abandonado o trabalho nas roças.
A partir de 1975 a nova administração da FUNAI retomou a questão da
regularização fundiária dos Maxakalí, sendo que em 1992 o problema ainda não
estava resolvido, motivando a elaboração de Laudo Pericial e ampla movimentação
de ONGs a nível nacional e internacional para que fosse promovida a reunificação
das áreas dos Maxakalí. Isso ocorreu em 1993, com a demarcação
administrativa da área unificada e finalmente homologada em 1996. Os
fazendeiros solicitaram e ganharam o direito a serem indenizados pelas
benfeitorias, sendo os recursos repassados em 1997 à Administração Regional
da FUNAI. Como os cálculos de indenização não foram aceitos pelos
fazendeiros, está em curso um novo processo destinado a desentrusar o corredor
entre as áreas dos Postos Indígenas Pradinho e Água Boa à revelia dos
fazendeiros.
Organização social. Os
registros históricos dos vários momentos de seu contacto com os colonizadores
apontam os Maxakalí como semi-nômades, vivendo predominantemente de atividades
de caça e coleta e praticantes de agricultura incipiente, características
sociais que ainda podem ser observadas entre os índios do Pradinho de contacto
mais recente.
Suas famílias extensas matrilocais se articulam em outras três grandes
unidades básicas. Uma é a própria unidade definida pela identidade: inclui
todas as pessoas conhecidas por Maxakalí e que compartilham a língua, mitos, símbolos
rituais e história. Entretanto, o reconhecimento dessa unicidade não implica
no exercício, como tal, de qualquer atividade ou posicionamento político de
caráter coletivo.
Outra é o grupo doméstico, composto pelos moradores de duas a cinco casas
habitadas por famílias extensas, com direito a acesso mútuo. É a unidade básica
de integração social, pois a relação é estabelecida entre parentes consangüíneos
ou afins, cabendo a liderança ao homem mais velho do grupo ou,
excepcionalmente, a uma viúva. É um grupo não perene, que pode desagregar-se
em momentos de crise, morte ou desacordo, sem prolongar os conflitos.
A terceira é o bando, uma unidade de consenso, de articulação social mais
complexa. Inclui todos os parentes, englobando vários grupos domésticos. É a
unidade de maior integração social estabelecida em torno de um líder e de um
centro cerimonial (Kukex) em atividade, o que a caracteriza como unidade
política e religiosa com denominação própria. Exige um número ideal de
participantes para funcionar. Caso esse decresça, interrompe-se o cerimonial e
extingue-se o bando, ou xop, como é chamado na língua Maxakali.
Os Maxakalí classificam as pessoas em duas grandes categorias: os Xape
(parentes ou aliados do grupo familiar e dos quais se espera solidariedade,
bondade, consideração e respeito à propriedade) e Pukñog (o estranho
ou inimigo, alguém de quem não se pode esperar bondade ou consideração,
mesmo que seja parente de gerações mais afastadas ou afins em potencial). Os
casamentos preferenciais ocorrem com os Pukñog e os Xape-Hãptox Hã,
os parentes distantes e colaterais, o que permite a redução das tensões e
conflitos entre as várias unidades sociais.
O alto grau de dispersão faz com que os agrupamentos dos Maxakalí sejam
fluidos e mutáveis e que as dissidências, quando internas ao grupo doméstico,
redundem na reformulação da composição das "aldeias" e a distância
se interponha entre os antigos membros, desarticulando os bandos. Essa tendência
à dispersão é interrompida em momentos de crise, quando os bandos voltam a se
reunir em busca de soluções para os problemas enfrentados.
A propensão ao fracionamento constante é acentuada pela forma como ocorre a
liderança entre esses grupos, marcadamente difusa, fluida e restrita à aldeia
onde o líder vive com seus familiares consangüíneos e afins. Esses líderes,
devido à superposição das funções políticas e religiosas, devem garantir
aos seus liderados vantagens materiais, espirituais e manter o equilíbrio entre
os mundos visível e invisível. Entretanto, as constantes crises internas e
externas, as insatisfações e a dificuldade de promover a articulação entre
os interesses nem sempre concordantes de seu grupo familiar e do bando, exigem
um trabalho de busca do consenso nem sempre bem sucedido. O resultado é a
dispersão dos grupos familiares e o surgimento de novos bandos reordenados e
reagrupados de acordo com as alianças e posturas políticas adotadas pelos vários
grupos familiares frente à razão da crise e aos responsáveis por ela. Dessa
forma pode-se explicar o constante surgimento de novas aldeias, que se aproximam
ou distanciam física e politicamente das demais a depender do momento político.
Apesar dessa fluidez, os bandos são as unidades sociais mais complexas,
pressupondo o nível mais amplo de integração possível com atividades
coletivas, em termos econômicos, sociais, políticos e religiosos.
Constituem-se, portanto, em unidades autônomas, inclusive quanto à
possibilidade de reprodução física de acordo com as regras de casamento, com
cerimonial particular, denominação própria e limite específico de atuação
de cada liderança.
Em função dessas características sociais marcadamente dispersivas em termos
de articulação política e de a consciência de pertinência étnica entre os
Maxakalí não resultar em atividades coletivas, solidariedade ou mesmo idéia
de unidade ordenadora dos bandos, pode-se entender a questão da constituição
das novas unidades sociais autônomas e auto-suficientes constatadas no período
anterior a 1920. Caso esse processo social tivesse ocorrido sem interferências
externas - os conflitos com colonizadores e com outros grupos indígenas
deslocados dos seus territórios, a imposição externa de aldeamento compulsório
e a opção dos vários subgrupos dessa etnia de fazê-lo em conjunto - pode-se
levantar a hipótese de, num determinado período de tempo, ter ocorrido o
surgimento de novas identidades étnicas, como ocorreu com outros grupos Macro-Jê.
Inserção no sistema produtivo
regional. Os Maxakalí de Umburanas desenvolvem uma agricultura
incipiente e considerada por eles como uma atividade pouco atrativa, assim como
a criação de animais de grande e pequeno porte. Numa atitude que deve ser
compreendida não apenas como opção econômica calcada em padrões sociais
tradicionais mas também como um ato político, os Maxakalí passaram a caçar,
pescar e coletar nas fazendas vizinhas e a vagar por cidades mineiras e baianas
em busca de bens que não podem adquirir, porém, sempre retornando a suas
aldeias, onde retomam sua vida e atividades cotidianas.
Sua inserção na estrutura social e econômica em Umburanas é condicionada
tanto pelo conjunto de opções dos Maxakalí como pelo fato dessa região ser
das mais pobres de Minas Gerais, onde predominam a pequena e média propriedade
rural. No topo da hierarquia social situam-se os proprietários rurais. Os índios
são classificados abaixo da categoria dos trabalhadores rurais, embora
trabalhem eventualmente como assalariados para os fazendeiros, vendam produtos
silvestres, parte de sua pequena produção agrícola, artesanato e sementes de
capim nas feiras de Batinga e Santa Helena, e sejam até considerados como
proprietários das terras da reserva. Apesar de sua participação no sistema
produtivo regional, os índios são descritos como preguiçosos, sujos, ladrões
e bêbados, e excluídos socialmente da estrutura regional em que, a partir do
contato, estão inseridos.
Sua participação no sistema produtivo é limitada por um conjunto de vários
fatores: a deterioração do ecossistema dos postos indígenas, a redução dos
espaços disponíveis para a prática das atividades econômicas, a desestruturação
da organização social e econômica do grupo, a introdução de novas
necessidades de consumo que só podem ser satisfeitas através do sistema de
troca, o que vem acarretando, para os Maxakalí, uma dependência crescente.
Para satisfazer essas novas necessidades, teriam que ampliar a produção e o
tempo que dedicam ao trabalho assalariado. Porém, para alcançarem essa meta,
teriam que abandonar um conjunto de atividades de grande importância para a
reprodução social e simbólica do grupo: socialização das crianças, confecção
de objetos artesanais e realização de rituais. Entretanto, só aparentemente
isto significaria uma participação mais igualitária no mercado devido à
grande competitividade, pois todos os agricultores locais produzem basicamente o
mesmo, e também a outros fatores, como a dificuldade de os índios conduzirem
seus produtos aos vilarejos, a discriminação que sofrem e as dificuldades de
entenderem e dominarem as regras de concorrência e estabelecimento do valor
monetário real dos produtos.
Quanto à ampliação do tempo dedicado ao trabalho nas fazendas vizinhas, as
implicações sociais são mais visíveis, já que implicaria num engajamento
continuo e no abandono das práticas sociais mais valorizadas, como os rituais.
Sua resistência em adotar essa via de solução, faz com que os Maxakalí sejam
constantemente acusados de preguiçosos e pouco valorizados como trabalhadores.
Essa situação cria um quadro de contradições de difícil superação: para
disporem dos bens desejados precisam assalariar-se enquanto aguardam a colheita
de suas roças. Mas, como só são contratados nos momentos de plantio, limpa e
colheita, caso estejam a serviço dos fazendeiros, deixam de fazê-lo nas suas
próprias roças, o que lhes acarreta prejuízos futuros, por não terem
produtos de suas roças para colocarem no mercado no momento da colheita. Daí a
solução mais adotada ser ainda a "caça e coleta" nas fazendas
vizinhas e a mendicância, mecanismos de sobrevivência que lhes permitem manter
o regime descontínuo e irregular do tempo dedicado às atividades econômicas,
preservando o que consideram necessário para a reprodução social e simbólica
do grupo. Talvez assim se possa compreender o insucesso dos esforços de funcionários
do SPI e da Funai em transformá-los em sedentários, agricultores e criadores e
a opção dos Maxakalí em adaptarem suas práticas econômicas tradicionais à
nova realidade de convivência, acirrando os preconceitos e a marginalização
social e empurrando-os para a mendicância, a frustração e a embriaguez por se
sentirem incapazes de satisfazer suas aspirações de consumo e de
reconhecimento social.
Apesar de todas as compulsões sociais, políticas e econômicas e dos
desarranjos sociais que vivenciam, os Maxakalí caracterizam-se pela extraordinária
capacidade de preservar os traços mais marcantes de sua organização social e
expressões culturais. Destacamos, além das acima referidas, a manutenção das
regras de casamento e o ordenamento social calcado em relações de aliança e
de oposição entre as várias aldeias. Como um reflexo da manutenção dessas
estruturas sociais, o ordenamento espacial das aldeais se mantém o mesmo
descrito desde o século XIX por viajantes, administradores e militares: casas
inacabadas, distribuídas em torno de uma praça, onde estão fincados os
mastros cerimoniais através dos quais descem os espíritos dos mortos - os yãmiy
-, dispostas em forma de uma ferradura fechada numa de suas extremidades pela
"Casa da Religião" (Kukex) e, na outra pela do líder.
Cultura material. Suas casas
tradicionais eram feitas de galhos finos de árvores e estacas enfiadas no solo,
encurvadas na parte superior e amarrados e recobertas com folhas de coqueiro ou
patioba, num formato hemisférico. Eram muito baixas e nas proximidades havia
uma espécie de fogão feito com quatro forquilhas fincadas no chão, sobre as
quais descansavam quatro varetas cruzadas por outras e colocadas muito juntas,
permitindo assar ou cozer os alimentos. Essa forma tradicional de cocção de
alimentos foi adaptada para o uso de panelas de alumínio, cada vez mais comuns
no uso cotidiano do grupo.
Em termos de cultura material, a diversidade dos objetos dos Maxakalí sempre
foi descrita como de grande simplicidade. Suas armas tradicionais são o arco e
a flecha. O arco, feito de pau d'arco ou do lenho da palmeira airi, apresenta um
profundo sulco longitudinal na parte dianteira, o que lhes permite ali guardar
uma flecha reserva enquanto disparam outra. Suas flechas, feitas de taquaraçu
ou de ubá, apresentam três formas: a primeira, destinada à guerra e à caça
de animais de grande porte, feita de taquaruçu tostado, entalhado e raspado com
a ponta em forma lanceolada, cortante e afiada; a segunda, com ponta farpada,
feita de palmeira airi ou pau d'arco, com dez ou doze entalhes dirigidos para trás;
e a terceira, destinada à caça de animais pequenos, feita a partir de galhos
retos com um nó, de modo a obter a forma de roseta. Tanto os arcos como as
flechas são confeccionados pelos homens assim como vassouras, cestos de maior
dimensão, peneiras, chocalhos, bodoques, destinados ao uso cotidiano e colocação
no mercado regional, e vestimentas para rituais.
As mulheres pescam, coletam e realizam a colheita das roças. Confeccionam vasos
cerâmicos de vários tamanhos, redes, colares, cestos de carga com tiras de
sustentação que passam pela testa, redes de pescar, sacos e sacolas feitos com
fios de tucum, algodão e envira. Responsabilizam-se também pelo transporte dos
pertences familiares e das crianças durante os deslocamentos do grupo.
No passado, os Maxakalí andavam nus, perfuravam o lábio inferior onde
introduziam pequenas lascas de bambu e os homens amarravam o prepúcio ao ventre
com um pequeno cipó. Hoje os remanescentes adotaram as roupas de seus vizinhos
nacionais, porém, mantêm um gosto especial pela decoração do corpo com
tintas multicoloridas, inclusive com o uso de papel carbono retirado dos escritórios
da Funai.
Ritos. Toda a vida social
dos Maxakalí é pontuada por ritos, não se observando, no entanto, os
referentes à identificação da maturidade da moça. A dos rapazes, no entanto,
é marcada por iniciações rituais secretas, indicando que a sociedade Maxakalí
estabelece claras distinções entre os papéis masculinos e femininos. Desde
pequenos, os meninos dispõem de um pequeno rancho, onde, além de aprenderem as
atividades próprias do seu sexo, inclusive as rituais, mantêm relações mais
próximas com os homens do seu grupo.
Os rituais de cura destinam-se às crianças, jovens e adultos. Os recém-nascidos,
por ainda não lhes ter sido atribuído um nome, não existem socialmente e,
portanto, não são objeto de preocupação quanto à necessidade de intervenção
em caso de doença. Quanto aos velhos também serem excluídos, explicam que,
pela idade avançada, necessitariam descansar após tantos trabalhos e
dificuldades vividos, sendo respeitado o seu direito de morrer.
A doença é motivo de grandes traumas entre os Maxakalí, pois é interpretada
como resultado de uma intervenção voluntária ou provocada dos espíritos que
capturam as almas das pessoas, fazendo-as ficar doentes. Conseqüentemente, os
rituais de cura visam restaurar o equilíbrio, agradando aos espíritos
malignos, dos quais as mulheres são as presas mais fáceis.
O ritual é comandado pelo líder do grupo, que, acompanhado dos parentes,
canta, dança e pergunta em voz baixa ao doente qual o espírito que o atormenta
e a este quais os seus desejos que precisam ser satisfeitos.
Cumprida essa etapa, os homens retiram-se para a Casa da Religião para adotarem
as medidas necessárias para dar continuidade aos trabalhos. Tendo obtido todo o
necessário, retornam junto ao jirau do doente, promovendo nova sessão de cânticos
e rezas e lançando grandes baforadas de fumo sobre o paciente. Os espíritos são
instados a se retirarem. Quando o cão da casa gane, é considerado que foi
estabelecido o contacto com o espírito iniciando-se um nova etapa do processo
de cura: a casa é deixada no escuro e usam-se os zunidores até novos ganidos
do animal. Este é o sinal indicativo da saída do espírito. Os responsáveis
pelos rituais se retiram da casa, onde as lamparinas voltam a ser acesas e a
comida ofertada aos espíritos desaparece, sendo o consumo atribuído aos
homenageados.
A morte e suas possíveis conseqüências também são encaradas como responsáveis
pelo desequilíbrio social, pois o espírito do morto - yãmiy - tanto
pode provocar doenças em outros, como transformar-se em onça preta e atacar o
grupo. Os Maxakalí tomam como sinais mais preocupantes dessa possibilidade o
movimento do corpo já considerado morto pelo grupo, e, após o sepultamento, o
encontro da cova revolvida e do cadáver exposto. Espetar os corpos dos mortos
com uma vara ou flecha é a medida para evitar a transmigração e transmutação
da alma e para forçar sua permanência na morada eterna. Para observar se o
objetivo foi alcançado e evitar maiores problemas, os Maxakalí visitam
diariamente a sepultura e, caso ocorra de o corpo ficar descoberto, é
desenterrado e queimado, sendo feito, posteriormente, o enterro secundário.
Outras medidas podem ser adotadas variando conforme a gravidade da situação:
abandono e queima da casa do morto, da aldeia e até da Casa da Religião, morte
dos animais, destruição dos pertences do morto e abandono do local da aldeia.
O controle das entidades malignas pressupõe, por parte do líder religioso, força
e grande conhecimento dos mitos e dos ensinamentos dos ancestrais e é visto
como um ato de grande dimensão social. Tanto assim que os rituais de cura são
executados por mais de uma pessoa com o apoio dos espíritos considerados como
amigos e benfazejos. A prática isolada de rituais por apenas um dos membros da
comunidade, além de ser considerada um ato anti-social, é interpretada como prática
de feitiçaria, o que, normalmente, resulta na morte do acusado.
Além desses rituais de cura, os Maxakalí realizam outros também de data
imprevisível e que visam solucionar eventuais crises sociais ou políticas ou
agradecer aos entes sobrenaturais a solução de questões que ameaçam a
sobrevivência da comunidade.
Há outros, de caráter propiciatório, por estarem vinculados aos períodos de
plantio e colheita, que ocorrem no mês de janeiro e no período compreendido
entre maio e outubro. A população masculina acima de dezenove anos é ordenada
em dez grupos rituais compostos de dois a sete indivíduos cada.
Nessas ocasiões, os participantes retiram-se para as matas onde confeccionam
suas vestes cerimoniais e se pintam. Então retornam em fila indiana para a
aldeia, carregando o mastro cerimonial que é fincado no pátio em frente à
Casa da Religião. Os homens recolhem-se à essa Casa dando continuidade às
cerimônias secretas.
As mulheres, excluídas dessa etapa das atividades, permanecem em suas casas
preparando os alimentos que serão consumidos durante o ritual. O animal
destinado ao sacrifício é abatido a flechadas, servindo de elemento de troca
com os produtos das roças e da coleta trazidos pelas mulheres. Estas resumem-se
a participar das danças no pátio, sendo-lhes vedado, no entanto, o uso dos
instrumentos musicais cerimoniais: chocalho de cabaça, apito feito de taquara,
zunidores e flechas rituais. Após as danças e a troca de alimentos com os
homens, o que solidifica as relações de solidariedade e interdependência
social, todos encerram o ritual com um banho no rio mais próximo.
Os rituais, tanto de propiciação como de cura, continuam a ser executados,
ainda que com pequenas adaptações, como o consumo de café, bolachas, e a
compra ou obtenção por doação do animal a ser sacrificado, que é solto e
"caçado" pelos participantes.
Todas essas intrincadas crenças estão intimamente associadas com o universo
religioso dos Maxakalí. O mito de criação tem como figura central Topa,
que vivia entre os homens, mas, tendo se aborrecido, retirou-se e enviou-lhes um
grande dilúvio, havendo variantes quanto ao número de sobreviventes - um homem
ou um casal - que deram origem ao povo Maxakalí.
Além dessa entidade, seu universo religioso é composto de grande quantidade de
entidades ordenadas em dez grandes grupos, subdivididos em duzentos subgrupos -
os yãmiyxop. Esse ordenamento baseia-se numa hierarquização complexa,
que inclui os espíritos dos Maxakalí, dos outros índios, dos não índios e,
finalmente, dos animais. No topo dessa hierarquia encontra-se Hãmgãyãgñag,
a alma finada individual, soberana das forças do bem e do mal e responsável
pela morte dos doentes.
Os vários seres sobrenaturais têm personalidades e exigências, inclusive
alimentares, bastante diferenciadas, o que exige não só sua identificação
durante os rituais, como também o conhecimento de como agradá-los para evitar
que venham a fazer mal à comunidade. Daí porque, ao retornarem das matas, e
sacrificarem ritualmente o animal designado pelo espírito a ser propiciado, os
homens recolhem-se à Casa da Religião para ouvir os espíritos amigos que os
ajudam a identificar o ser sobrenatural com que estão lidando e suas exigências.
Quando visitam a terra, esses espíritos podem ocupar vários locais: o coração
dos vivos, o oco das árvores, os picos mais elevados da área que ocupam, o
topo das árvores, mas preferem os postes cerimoniais localizados no pátio onde
são executadas as danças cerimoniais em frente à Casa da Religião - Kukex.
Nota sobre as fontes. As
primeiras referências datam do século XVI, quando eram conhecidos por
Amixokori. A partir de então, passaram a ser chamados pelas várias designações
dos subgrupos. Só a partir de 1808 é que a denominação Maxakalí passa a ser
comum, referindo-se sempre a aldeamentos onde vários subgrupos conviviam.
Há farta documentação tanto do período que antecede a 1808, destacando-se os
trabalhos de Wilhem Christian Gotthele von Feldner e de José da Silva Brandão,
como a partir de então, tanto de caráter administrativo - capitães-mores,
diretores de aldeias, padres, missionários, professores, comandantes de quartéis,
de destacamentos e de Divisões Militares - como de observadores como os
viajantes naturalistas que circularam entre os rios Pardo e o Doce, nos atuais
estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo na primeira metade do século
XIX. Dentre estes, destacam-se Augusto de Saint-Hilaire, Maximiliano
Wied-Neuwied, Johann E. Pohl e de J. B. von Spix e C. F. P von Martius.
Na segunda metade do mesmo século, os documentos mais importantes são
produzidos pela Companhia do Vale do Mucuri, administrada por Teófilo Benedito
Ottoni, particularmente seus relatórios de atividades dos anos de 1853, 1856 e
1857, por frades capuchinhos responsáveis pela administração dos aldeamentos,
Diretores Gerais dos Índios das três Províncias e pelos Diretores Parciais de
aldeamentos.
Com a instalação de uma diretoria do Serviço de Proteção aos Índios no Espírito
Santo, também responsável pela questão indígena em Minas Gerais, os relatórios
de Alberto Portela e de Estigarribia são da maior relevância.
Em termos de trabalhos acadêmicos, destacam-se o livro de Marcos Rubinger, as
dissertações de mestrado em Antropologia Social de Nelí Nascimento e de Míriam
Alvares Martins e a tese de Doutoramento em História Social de Maria Hilda
Baqueiro Paraiso, assim como um artigo de cunho histórico dessa mesma autora.
Quanto à língua Maxakali, referência especial deve ser feita aos trabalhos do
casal Harold e Francis Popovich, ambos pesquisadores vinculados ao Summer
Institute of Linguistics. Também o primeiro autor citado é responsável por
importante trabalho inédito acerca da mitologia Maxakalí.
Há dois vídeos sobre os Maxakalí. Um deles, Maxakali, o Povo do Canto,
é dirigido por Marcelo Brum; o outro, Índios, os Primeiros Habitantes,
por Joana d'Arc Matias.
Maria Hilda Baqueiro Paraiso
Universidade Federal da Bahia
paraiso@astech.com.br
fevereiro de 1999
Anambé
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