Quem são os Panará? Os Panará são os últimos
descendentes dos Cayapó do Sul, um numeroso grupo que, no século 18, habitava
uma vasta área no centro do Brasil, desde o norte de São Paulo, Triângulo
Mineiro e sul de Goiás ao leste do Mato Grosso e leste e sudeste do Mato Grosso
do Sul. Os Cayapó do Sul eram um símbolo de "ferocidade", porque não
costumavam fazer prisioneiros em ações guerreiras. A intensificação da
exploração mineral, que aumentou o fluxo comercial entre São Paulo e Goiás,
em plena terra deles, induziu os governos das duas províncias a contratar
sertanistas para afastá-los da rota de viajantes e mineradores. Com a
descoberta de ouro na região do rio Vermelho, em Goiás, por Bartolomeu Bueno
da Silva, em 1722, os Cayapó do Sul passaram a ter conflitos constantes com as
frentes de expansão.
Foram muitos e sangrentos os conflitos entre os Cayapó do Sul e os
colonizadores portugueses nos caminhos de Goiás e de Cuiabá. Nos primeiros
choques, segundo um cronista da época, mil Cayapó foram capturados numa só
campanha de três meses. Outra pesquisadora calcula que oito mil foram
escravizados nas primeiras guerras. Depois da segunda metade do século XVIII,
as bandeiras organizadas contra os Cayapó abandonaram o intuito de
"descer", ou seja, escravizar os índios, limitando-se a matar todos
os homens que pudessem pegar em armas. A guerra contra os Cayapó provocou
mortandade e aldeamento compulsório.
No século 19, a ocupação das terras no sudoeste de Goiás recrudesceu os
conflitos com os índios e levou a população cayapó praticamente ao
desaparecimento, restando apenas alguns grupos na região do Triângulo Mineiro.
Os Cayapó do Sul eram tidos como extintos nas primeiras décadas do século 20.
Os Panará que não aceitaram o aldeamento e a assimilação no século 18 e 19
se retiraram para o oeste e para o norte, para as matas mais fechadas do norte
do Mato Grosso. O que se sabe, por meio da etnohistória, é que os atuais Panará
ocuparam a bacia do Peixoto de Azevedo, afluente da margem direita do rio Teles
Pires, formador do rio Tapajós, até o início do século. A riqueza natural da
região contribuiu para que se fixassem nesta região.
A tradição oral dos Panará conta que eles vieram do Leste, de uma região de
campos cerrados, habitada por brancos extremamente selvagens e bravios, que
tinham armas de fogo, que brigavam incansavelmente e que mataram muitos
antepassados dos Panará. Segundo o chefe Akè Panará, "os velhos disseram
para nós que, antigamente, os brancos mataram muitos Panará, de espingarda.
Chegavam em nossas aldeias e matavam muitos. Se eles vierem para cá - diziam -
matem eles de borduna, que eles são bravos".
Os Panará falam uma língua da família lingüística Jê, da subfamília Jê
Setentrional, que inclui os Kayapó, os Suyá, os Apinayé e as línguas
timbira. Pesquisas recentes demonstram que o Cayapó do Sul e o Panará são, de
fato, uma língua só.
Índios Gigantes: Por que? Os Panará ressurgem na
história do Brasil na década de 70. Ninguém sabia como eles próprios se
chamavam. Eram "índios gigantes" ou Krenacore, Kreen-Akrore,
Kreen-Akarore, Krenhakore ou Krenacarore - variantes do nome kayapó kran
iakarare, que significa "cabeça cortada redonda", uma referência ao
corte tradicional de cabelo que identifica os Panará. Nos fartos relatos da época
do contato há uma preocupação subentendida constante de explicar sua origem
desconhecida. Chamá-los de gigantes, índios brancos ou índios negros era uma
forma de identificá-los e retirá-los do perturbador estado de alteridade
absoluta.
Várias foram as causas dessa fama, que o contato com os irmãos Villas Bôas
mostrou ser improcedente. A maior parte dos Panará tinham estatura mais ou
menos igual à de outros grupos indígenas, como os Kayapó e os Xavante. Mas
havia, sim, alguns muito altos. Seus enormes arcos e tacapes, que chegavam a
medir 1,80 metro, impressionavam e induziam a supor que só pudessem ser
manejados por homens enormes. Os Kayapó, tradicionais inimigos dos Panará,
espalharam a fama dos índios gigantes também para valorizar suas lutas contra
eles.
Uma razão evidente, pública e notória, chamava-se Mengrire e tinha 2,06
metros de altura. Era um índio Panará seqüestrado de sua aldeia ainda criança
e criado pelos Kayapó Metuktire (os Txukarramãe). Foi levado, depois, para o
Parque Indígena do Xingu, onde morreu, ou foi morto, no final da década de 60,
aos 38 anos de idade. Mengrire, realmente, era um "gigante", mas foi o
único medido e reconhecido como tal por médicos e pesquisadores - a única
evidência com documentação comprovada.
Além desse único caso, Orlando Villas Bôas conta que, na época do contato,
existiam pelo menos outros oito Panará bastante altos. Mas morreram com as doenças
dos brancos. Os adultos panará de hoje, que viveram no Peixoto de Azevedo antes
de 1973, são absolutamente enfáticos sobre a existência de parentes
"muuuito altos" no passado.
A tragédia da chegada dos "brancos".
Quando viram um avião pela primeira vez, sobrevoando a aldeia Sonsênasan, em
1967, os Panará o chamaram de pakyã'akriti "falsa estrela cadente".
Eles correram para os arcos e atiraram no invasor, mas ninguém conseguiu
acertar. No avião, o sertanista Cláudio Villas Bôas encolheu-se
instintivamente vendo as flechas passarem rente. Estava procurando os "índios
gigantes" para pacificá-los antes de um previsível contato com os brancos
no rio Peixoto de Azevedo. Achou-os, afinal. Mas sentiu-se aflito. As flechas
riscavam o céu e caíam murchas. Apesar de todo o seu empenho em evitar o pior,
sabia ser o portador de um destino invulnerável à mira dos guerreiros. Tal
qual estrela cadente, o avião entrou na vida dos Panará como um agouro - para
mudá-la.
Foram necessários mais cinco anos para que os irmãos Villas Bôas finalmente
conseguissem se aproximar dos arredios Panará, no dia 4 de fevereiro de 1973,
porque os índios montavam e desmontavam aldeias e fugiam sempre. Mas antes
desse encontro histórico, antes da Cuiabá-Santarém passar por cima deles, o
contato esporádico com os vírus dos brancos da frente de obras da estrada
atacaram os Panará. Em dois anos, morreram tantos, de gripe e diarréia, que o
grupo quase desapareceu: "Nós estávamos na aldeia - lembra-se o chefe Akè
Panará - e começou a morrer todo mundo. Os outros foram embora pelo mato, e aí
morreram mais. Nós estávamos doentes e fracos e, então, não conseguimos
enterrar os mortos. Ficaram apodrecendo no chão. Os urubus comeram tudo".
Por causa da tragédia, em 1975 uma falsa estrela cadente das grandes pilotada
por oficiais da Força Aérea Brasileira, removeu os sobreviventes em uma ponte
aérea do Peixoto de Azevedo para o Parque Indígena do Xingu, a 250 km a Oeste.
Em dois anos, os Panará foram dizimados, desestruturados e despejados. E, em
uma hora, foram para outro mundo. No Xingu, viveram como fantasmas,
perambulando, errantemente. Sete vezes trocaram de aldeia procurando um lugar
parecido com o território original. Foi muito mais do que um exílio.
Mas vinte anos depois daquela memorável viagem na estrela, eles voltaram.
Viajaram até o Peixoto de Azevedo, voaram na estrela e descobriram, lá do
alto, um bom agouro: um pedaço intacto de suas terras ainda coberto de
florestas, preservado do garimpo, dos grileiros, dos madeireiros e dos bois. Um
bom pedaço. Então, mudaram-se de volta, fincaram pé e construíram uma aldeia
nova. Entraram com ações na Justiça e convenceram a Fundação Nacional do Índio
a apoiá-los. Afinal, recuperaram suas terras. De "vítimas do
milagre" transformaram-se em "sujeitos da história". Esta é a
verdadeira história dos índios gigantes - a história de uma vontade enorme.
No Parque do Xingu. Quando os Panará chegaram no Parque do Xingu, no dia 12 de janeiro de 1975, uma equipe da Escola Paulista de Medicina examinou 27 dos 29 homens recém-chegados, os adultos de mais de 20 anos. A altura média era de 1,67 metro e correspondia ao padrão dos grupos Jê, um pouco mais altos do que os índios do Alto Xingu. Não havia nenhum fenômeno.
Modo de vida. Transferidos do Peixoto Azevedo para o
Parque Indígena do Xingu, os Panará continuaram como índios caçadores,
pescadores, agricultores e coletores. Nômades Jê induzidos à sedentarização,
os Panará sempre deixam claro que sua sociedade, tal como se encontrava
estruturada no Parque do Xingu, era apenas um simulacro, uma versão empobrecida
do que era nas suas terras tradicionais.
Os sinais dos vinte anos de vivência no Xingu e no mundo dos brancos são visíveis.
Nas casas encontram-se panelas de alumínio, sal, às vezes açúcar, fósforo e
querosene. A mudança na alimentação e o contacto com microorganismos e bactérias
deterioraram os dentes. As mulheres usam vestidos e os homens, calção. Todos têm
facas, machados e facões, e alguns têm rifles ou espingardas.
As mulheres adultas não usam mais o corte tradicional de cabelos curtos, com
duas linhas paralelas raspadas em cima da cabeça, substituído pelos cabelos
compridos com franjas, no estilo feminino suyá. A pintura corporal, a arte plumária
e a música assimilaram elementos da cultura xinguana, principalmente dos Kayapó,
seus vizinhos mais próximos.
Tão evidente quanto os sinais da convivência é o cultivo explícito da lógica
panará da organização do espaço, do tempo, da produção e da reprodução
da vida na aldeia, o que é discutido em língua panará. Muitos falam kayapó
ou suyá ou as duas línguas e quase todos entendem alguma coisa do português
mas apenas alguns homens o falam com alguma fluência. Os discursos mais
sofisticados até recorrem a palavras do português nas frases, mas o que é
importante é dito em língua panará.
Espaço social. Os Panará vivem numa aldeia grande,
circular, com residências situadas na periferia do círculo. No centro fica a
Casa dos Homens, ao clássico estilo das aldeia dos grupos de família lingüística
Jê. No círculo da aldeia estão fixados os lugares dos quatro clãs existentes
e todas as casas domésticas pertencem a um deles. Os pontos cardeais panará
indicam os lugares dos clãs no círculo da aldeia, orientados pela trajetória
do sol.
Os nomes dos clãs sugerem um mapeamento, no espaço, dos processos temporais de
crescimento e maturação. Os clãs chamam-se: kwakyati pe, kwasôti pe, kukre nô
pe e kwôsi pe, todos nomes alusivos a esses processos. Kwa é
"buriti"; kyati é "raiz" ou "o ponto em que o tronco
entra no chão"; sôti é "folha", "ponto" ou
"fim"; kukre é "casa"; e kwôsi é "costela". O
leste, no sol nascente, é kwakyati pe; o oeste, no sol poente, kwasôti pe. Ou
seja, o leste é a raiz, o início, e o oeste é a folha, o fim. Os dois clãs
polarizados inscrevem na organização espacial da aldeia o signo do tempo, pela
trajetória do sol, de nascente a poente, e mapeiam nessa representação
espacial o processo de crescimento da raiz até a folha.
Os nomes dos clãs também podem se referir às pessoas-membros do clã ou ao
lugar, dependendo da inflexão. Por exemplo: kwatyati pe para "o lugar da
raiz do buriti"; ou kwkyatanterà para "povo da raiz do buriti";
kwasôti pe para "lugar da folha do buriti", ou kwasôtantera para
"povo da folha do buriti". É importante lembrar a forma da palmeira
buriti: um tronco reto e sem galhos, com folhas só no alto. Em outras palavras,
trata-se da árvore ideal para incorporar o contraste raiz/folhas. Com seu
tronco é que se realizam as "corridas de tora", cerimônia de imenso
significado para os grupos Jê em geral e para os Panará.
O desenho da aldeia é uma representação da totalidade do universo social do
grupo. No meio do círculo da aldeia havia, tradicionalmente, duas Casas dos
Homens, onde residiam meninos adolescentes. O leste era a casa dos kyatantera,
"o povo da raiz, ou do início"; e oeste a dos sôtantera, "o
povo da folha, ou do fim". São as metades cerimoniais, as sociedades de
homens, que dividem a aldeia (Leste/Oeste, Raiz/Folha) e que se empenham nas
corridas de toras, em momentos-chaves do grande ciclo ritual.
Os dois outros clãs não são norte/sul. O clã kukrenô pe fica no sudeste, e
o clã kwasôti pe no sudoeste, como se fossem interpostos no meio dos outros
dois clãs polares. O significado do primeiro, o kukrenôwantera, é "povo
sem casas" e remete ao mito de origem da sociedade panará, numa época em
que a ordem social não existia, quando os antepassados viviam sem casas.
Remetem ao tempo anterior ao mundo de aldeias, agricultura, músicas e ritos
panará. O kwôsitantera, o "povo da costela", refere-se à morte
(quando só os ossos permanecem) ou ao tempo posterior, em que acaba a
sociabilidade do cotidiano. Ou seja, entre o "início" e o
"fim", na arquitetura do espaço social panará, é incluído o tempo,
em toda sua extensão, desde antes do mundo existir até depois, quando já
passou. A aldeia é a representação da totalidade, do espaço e do tempo.
Os clãs têm vínculos fortes com as mulheres, uma vez que todo mundo, sem exceção,
pertence ao clã da sua mãe. Todo o sistema de parentesco dos Panará está
pautado nas relações espaciais. Calcula-se como chamar fulano de tal baseado
em que casa nasceu sua mãe, em que lugar no círculo da aldeia casou seu pai e
assim por diante.
Relações sociais. O parentesco masculino, porém,
tem um papel importante. Os nomes panará são transmitidos pelos homens. É o
pai que dá nome ao filho e é a irmã do pai, ou algum outro parente feminino
do clã do pai, que dá o nome à filha. Os homens dão para seus filhos seus próprios
nomes, ou os nomes dos seus irmãos ou outros parentes. Todo mundo tem pelo
menos dois nomes, alguns até uma dúzia. Todo nome é o nome de algum
antepassado e foram os antepassados míticos que deram os nomes aos Panará, bem
como aos animais, aos pássaros e aos peixes.
Embora existam mecanismos para a invenção de nomes, via de regra o sistema não
admite tal coisa; nome verdadeiro é nome dos antepassados, os suankyara, os
"de antes". O leque dos nomes panará sugere nada menos do que uma
lista de todas as coisas do mundo. Assim, Tekyã é "canela curta",
Kokoti, "inchado", Kyùti, "anta", Pè'su,
"castanha-do-pará", Nansô, "rato", Sampuyaka,
"Matrinchã" (literalmente, "rabo branco"), Sôkriti,
"folha falsa" ou "coisa que parece folha". Assim como os clãs
colocam de forma permanente os pontos cardeais da cosmologia panará no círculo
da aldeia, o sistema dos nomes afirma a adequação do saber dos antepassados à
tudo que existe, pondo em circulação perpétua, ao longo das gerações, os
nomes do tempo mítico dos primeiros velhos.
São essas as relações básicas que organizam os eventos da vida da aldeia.
Tradicionalmente, os meninos até 12 ou 13 anos moram com seus pais, na casa da
mãe. Atingindo essa idade, vão dormir na Casa dos Homens, conforme sua metade
cerimonial. Depois de alguns anos de residência na Casa dos Homens, o menino
estabelece relações mais estáveis com uma menina e, paulatinamente, vai se
incorporando à casa da futura esposa. Ou seja, a relação do menino com a sua
família de origem é cortada pela residência na Casa dos Homens e, a partir daí,
ele começa a criar a sua família de procriação incorporado à casa de sua
mulher, onde terá filhos. O casamento consolida-se com o nascimento de filhos.
As mulheres não apenas sinalizam o pertencimento aos clãs como são,
efetivamente, as donas das casas, nas quais vivem com o marido, com as filhas e
os maridos delas e os filhos até a maturidade desses. Se o casamento monogâmico
acaba - e pode acabar várias vezes na vida adulta - o homem é que sai de casa.
É comum desfazerem-se uniões e casar-se novamente quatro ou cinco vezes. A
história traumática do grupo, cheia de viuvez, contribuiu para isso.
Assim como nos outros grupos Jê, com seus sistemas de classes de idade, ser
plenamente adulto entre os Panará é expresso pelos termos taputun, velho, e
twatun, velha, o que significa ter filhos já casados, ser avô ou avó. Os
genros devem trabalhar para os sogros fazendo roça para a mulher e para a família
dela, trazendo caça e peixe para sua própria casa bem como para a de sua mãe,
além de manifestar respeito, uma atitude formal de deferência para com a
classe de idade dos velhos.
Os jovens (piàntui, mulher nova, e piôntui, rapaz novo) tratam do trabalho
produtivo: a roça, a caça, a pesca e a preparação de comida. Os velhos
cuidam da organização e reprodução das atividades produtivas por meio de
discursos na praça ou na Casa dos Homens, além da organização dos ritos.
Nessas coisas, os homens têm um papel preponderante, tendo um espaço
privilegiado nas atividades rituais e nos discursos formais. Isso se deve, em
parte, à mediação dos homens nas relações com o mundo fora da sociedade
panará, o que, tradicionalmente, ocorria por meio da guerra. A influência das
mulheres velhas, por sua vez, é efetiva em qualquer decisão que afete a aldeia
como um todo.
Vida Cerimonial. A corrida de toras é a atividade
cerimonial mais importante. Feita em vários momentos, na festa da puberdade
feminina, após expedições guerreiras ou por si só, é a maior demonstração
pública da força e energia masculina. Recomeçar a prática da corrida de
toras dentro do Parque do Xingu teve um significado crucial no processo da
reconstrução social. Durante muitos anos, os Panará não fizeram Casa dos
Homens no Parque, sob alegação de que não havia meninos. De fato, só após
sua última mudança dentro do Parque, quando se instalaram na aldeia no rio
Arraias, fizeram uma. Não é por acaso que no mesmo momento em que se sentiram
capazes de fazer a Casa dos Homens também começaram a ensaiar a retomada das
suas terras.
A questão dos recursos naturais é crucial para se compreender porque era um
problema viver no Xingu. Sob o ponto de vista deles, não só estavam em terra
alheia como em terra pobre. No Parque Indígena há menos caça do que no
Peixoto de Azevedo, várias frutas que eram objetos importantes da coleta -
inclusive a castanha - não existem, a terra é menos fértil e a roça rende
menos e esgota-se mais rápido.
Tudo isso, dada a ordem social e cosmológica panará, implica uma perda muito
além de material. A floresta, os rios, os igarapés e os lagos são fontes não
só de recursos materiais, mas a base da ordem social. Os antepassados míticos,
que deram seus nomes aos Panará e ao mundo, foram seres
"consorciados", combinados - animais mas também gente panará. Os
mortos, na aldeia dos mortos, embaixo da terra, criavam muitos animais que
ofertavam aos vivos, para criar e matar, em ritos de sacrifício destinados a
ordenar as relações de troca entre clãs. Uma interpretação à falta de caça
no Xingu é que "os mortos não dão mais". A falta material põe em
risco a relação entre os vivos e os mortos e entre parentes e afins. À noite,
as estrelas são os mortos panará do passado, as pequenas, os homens, e as
maiores e mais brilhantes, as mulheres. Um branco que buscasse entre os Panará
o que lhe parece religião não encontraria nada. A vida social, o mundo natural
e a vida cosmológica são regidas pelas mesmas categorias.
Subsistência. Os Panará plantam milho,
batata, cará, várias espécies de banana, mandioca, abóbora e amendoim. Nas
terra férteis do Peixoto e do Iriri as mesmas bananeiras davam frutos durante
anos a fio, enquanto no Xingu requerem pés novos a cada ano. A dificuldade do
trabalho sem ferramentas de aço foi suplantada com a aquisição de facas, facões
e machados. O fascínio por esses instrumentos levou os Panará a atacarem o
inglês Richard Mason, em 1961, a procurarem a Base Aérea do Cachimbo, em 1967,
e a aceitarem o contato com Cláudio Villas Bôas, em 1973. Facas e miçangas
eram os únicos despojos levados dos inimigos mortos nas guerras com os Kayapó.
No contato com os brancos, no primeiro momento em que ganharam muitos machados
de aço, os Panará jogaram seus machados de pedra no rio.
A pesca ocorre tanto no período de cheia ou de seca, já que as técnicas de
captura dos peixes variam de acordo com o nível da água: timbó na estação
de águas baixas e arco e flecha nas águas cheias. A caça é a atividade
masculina mais prestigiada. Anta, macaco-prego, macaco-aranha, paca, jacu, mutum
e outros galináceos são abatidos com arco, flecha e borduna. Sobretudo o
conhecimento dos animais e do ecossistema, mais do que força ou tecnologia,
garante os resultados das empreitadas. Como coletores, os Panará valorizam
muito as diversas qualidades de mel que recolhem, comendo-o puro, misturado com
açaí, ou diluído n'água. Apreciam também mamão bravo, cupuaçu, cacau
selvagem, caju, buriti, tucum, macaúba, inajá, mangaba, pequi e a importante
castanha-do-pará, coletada entre novembro e fevereiro, justamente no período
em que as roças já foram plantadas mas não começaram a produzir.
Para os Panará todo o processo de produção de subsistência é organizado
pelas relações sociais. O trabalho diário de cada família nuclear - a mulher
colhendo mandioca ou outras plantas da roça, o homem indo caçar ou pescar - dá
conteúdo a um ciclo ritual transcendente, através do qual toda a força do
trabalho coletivo é mobilizada por complexos pedidos e prestações mútuas de
serviços entre clãs, culminando na preparação coletiva de uma grande
quantidade de mandioca ou milho, que tem como complemento o resultado de uma caçada
coletiva que dura até semanas. No desfecho da cerimônia, todos preparam um
imenso paparuto (massa de mandioca ou milho recheada com carne, embrulhada em
folhas de bananeira e assada em forno de chão), aquilo que se come todo dia,
para divisão entre os clãs e conseqüente consumo. Não ter caça significa, a
longo prazo, que não há como manter a arquitetura social.
Da mesma forma, a roça é não só um espaço altamente socializado como também
um campo de trabalho material e social fundamental. Parte daí a explicação da
forma geométrica das roças que tanto deixaram perplexos os integrantes das
frentes de atração. O desenho circular da roça, com certas plantas na
periferia, e suas linhas, às vezes cruzadas, de bananeiras ou milho cortando o
centro, é uma reprodução (parcial) do espaço da aldeia, com oposição entre
centro e periferia, usando os mesmos conceitos de espaço que orientam a pintura
corporal e o corte de cabelos, sempre em ressonância com o sistema social. O
crescimento do milho e do amendoim são referências temporais para os ritos de
perfuração das orelhas, do lábio inferior dos homens e de escarificação das
coxas, que, por sua vez, articulam-se com o ciclo de trocas entre os clãs. Ter
roças fracas, que não rendem, é um problema que abala toda a fábrica social
panará.
Enquanto viviam no Xingu, os Panará não cansavam de repetir que sua sociedade
era um simulacro, uma versão reduzida, inferior e empobrecida da sociedade como
fora outrora no Peixoto de Azevedo. Por outro lado, existem indícios de que
essa condição de diminuição perante os velhos antepassados não é meramente
um sinal do desastre do contato. Todo discurso formal dos velhos na praça,
especialmente o dos chefes, parte do pressuposto (explícito) de que quem fala
(o velho, o chefe) sabe tudo, e quem escuta (o jovem) não sabe nada. O discurso
formal é sempre de quem viu e escutou os velhos antepassados para quem não viu
e não escutou. Há sempre também um tom exortativo, para estimular "os de
agora" (kômakyara), que vivem hoje, a seguir o modelo dos antepassados,
"os de antes" (suankyara), que eram mais generosos, mais
trabalhadores, mais felizes, mais fortes, mais bonitos, menos egoístas, menos
fofoqueiros e menos preguiçosos.
A comparação entre os vivos, hoje, e os antepassados é recorrente no discurso
panará. A impressão que se tem é que os Panará vivem sobre a contingência
de serem um reflexo pálido do passado, característica da relação entre
velhos e jovens, antepassados e descendentes de modo geral. Esse pressuposto da
inferioridade de tudo o que é atual ajuda a entender a disposição de recompor
a sociedade, depois da catástrofe
Volta ao território tradicional. Essa
disposição e as limitações impostas pelos limites do Parque Indígena do
Xingu levou os Panará a empreender um processo de retorno ao seu antigo território
tradicional. Em outubro de 1991, seis Panará e seis brancos tomaram um ônibus
para uma histórica viagem rumo ao Peixoto de Azevedo. Foi a primeira vez que os
Panará decidiram voltar à sua região desde a transferência, em 1975. O grupo
chegou na cidade de Matupá, na BR-163, extremo-norte do Mato Grosso e começou
a fazer o reconhecimento do território.
O vale do Peixoto de Azevedo mostrava um aspecto desolador. Os garimpos e as
fazendas haviam derrubado a mata, poluído e assoreado os rios, especialmente o
Braço Norte. Muitas calhas tinham virado lamaçais. Vastos trechos do paradisíaco
Peixoto de Azevedo eram lodo puro. Os índios constataram com estupor os efeitos
do desmatamento desordenado, da pecuária e de vinte anos de garimpagem. Ali
mesmo, manifestaram o desejo de se encontar imediatamente com as autoridades
responsáveis pela construção da estrada que induziu à ocupação da região.
Ficaram indignados e exigiram satisfação.
Ainda nesta viagem, os Panará sobrevoaram a área, constatando que, das oito
aldeias existentes em 1968, seis tinham sido destruídas pelos garimpos e
projetos de colonização e pecuária. Surgiu aí a idéia de reivindicar uma
indenização pela ocupação e destruição das terras. Nesse mesmo sobrevôo,
identificaram um trecho de território, próximo à serra do Cachimbo, chegando
às cabeceiras do rio Iriri, ainda coberto com matas e rios conservados, de
pequeno caudal. Uma parte da terra ainda não tinha sido ocupada.
A partir daí, os Panará discutiram longa e repetidamente entre eles, na sua
aldeia, o que tinham visto, identificando a área tradicional que ainda não
estava ocupada e chegando a um consenso sobre a área pretendida. Os Panará
decidiram abrir mão de grande parte do território tradicional, ao qual por lei
teriam direito, para evitar confronto com os brancos, e reivindicaram a área
sem ocupação efetiva: 488 mil hectares nas cabeceiras dos rios Iriri e
Ipiranga, na fronteira entre Pará e Mato Grosso, incluindo a gleba de
propriedade do Incra, no Mato Grosso. Em março de 93, os Panará solicitaram,
formalmente, a demarcação das terras.
Em Brasília, os Panará, representados pelo Núcleo de Direitos Indígenas,
apresentaram na 8ª Vara da Justiça Federal uma Ação Declaratória contra a
União Federal, a Funai e o Incra. Pediam a posse permanente da área panará
tradicional e seu usufruto exclusivo.
O retorno. Em
novembro de 1994, os Panará convocaram os líderes dos povos do Parque do Xingu
para uma reunião na aldeia do rio Arraias, para apresentar e discutir o plano
de retorno para o território original. Foi uma reunião histórica, que durou
três dias. Muitos co-personagens da saga dos índios gigantes estavam presentes
– como o chefe kayapó txukarramãe Raoni; seu sobrinho e na época diretor do
Parque, Megaron; o líder Kayabi Mairawe, chefe do Posto Diauarum da Funai; e os
chefes kayabi Prepuri e Cuiabano. Cláudio e Orlando Villas Bôas foram
convidados, mas não puderam comparecer. Pela primeira vez toda a liderança
xinguana reuniu-se na aldeia panará.
Quatro chefes panará, Akè, Teseya, Kôkriti e Krekõ, os quatro homens mais
velhos, declararam pública e energicamente a intenção de retornar para a
terra de seus pais e avós, no Peixoto de Azevedo. Enfatizaram que o Xingu não
é terra panará e que sua verdadeira terra é fertil, com caça e pesca
abundante. Nove Panará, homens e mulheres, discursaram defendendo a volta. Um
jovem panará discursou contra o retorno. A grande maioria dos líderes
convidados que falaram apoiaram a iniciativa e muitos, como os líderes dos Txikão,
Suyá e Kayabi, falaram com saudade das terras deixadas para trás, quando
vieram morar no Parque. Olympio Serra, que sucedeu os irmãos Villas Bôas na
direção do Parque, lembrou que a idéia original da criação do Parque
contemplava um território muito maior, que, se tivesse sido criado, teria
protegido as terras originais dos Panará, Txikão e Kayabi, tornando desnecessária
a atração e transferência desses grupos para o interior das fronteiras atuais
do Parque. A conferência dos chefes xinguanos na aldeia do rio Arraias
sacramentou o retorno panará ao Peixoto de Azevedo.
Em dezembro de 1994, a Funai concluiu o processo de identificação e delimitação
da Terra Indígena Panará. No mesmo mês, os Panará entraram com uma Ação
Ordinária de Reparação de Danos Materiais e Morais na 7ª Vara da Justiça
Federal, no Distrito Federal, impetrada por advogados do Núcleo de Direitos Indígenas,
contra a União Federal e a Funai, pedindo reparação de danos e indenização
"a ser apurada em liquidação de sentença".
Ao longo de 1995 e 1996, gradualmente, os Panará foram se mudando para uma nova
aldeia, aberta pouco a pouco, a qual batizaram de Nacypotire, nome panará para
o rio Iriri. Em setembro de 1996 já havia nessa aldeia nova 75 pessoas, onze
casas, um posto da Funai e uma pista de aterrissagem razoável. Os que ficaram
no Xingu só pensavam na mudança, mas tinham que esperar que as roças
plantadas no Iriri vingassem, para garantir a sustentação de 183 pessoas. No
Iriri, de novo em seu território, o orgulho dos Panará era absoluto.
No dia 1° de novembro de 1996, o ministro da Justiça declarou de "posse
permanente" dos índios a Terra Indígena Panará, com 495.000 hectares nos
municípios de Guarantã (MT) e Altamira (PA). O mesmo ato encarregou a Funai de
providenciar a demarcação física do território, fixando marcos no local. O
governo reconheceu, politicamente, os direitos dos Panará e os limites de suas
terras. Mas a história não terminou. O Presidente da República tem de
homologar, por decreto, a demarcação da Terra Indígena Panará. Ela deve ser
registrada nos cartórios de imóveis de Guaratã e Altamira. E tem de ser
registrada na Secretaria de Patrimônio da União, em Brasília. Só então os
direitos dos índios estarão consolidados.
De qualquer maneira, o êxodo foi virado ao avesso. O retorno ao Iriri é um
processo a longo prazo. Haverá obstáculos e riscos e os Panará sabem disso.
Trocaram a segurança do Parque do Xingu pela instabilidade de uma área aberta
à expansão econômica desordenada e predatória. Mas estão dispostos a
bancar. Com dificuldades ou riscos, não abrirão mão da terra reconquistada.
Ela é a força que dá gravidade à identidade de um povo de 183 indivíduos
que passou por muitas provas. No final, a verdadeira história dos índios
gigantes comprova a veracidade do mito. Não o da estatura, mas o da vontade.
Dos gigantes Panará.
Instituto Socioambiental
baseado no livro de ARNT, Ricardo; PINTO,
Lúcio Flávio; PINTO, Raimundo; MARTINELLI, Pedro.Panará : a volta dos índios
gigantes.
São Paulo : ISA, 1998.
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