Nome. Os Pirahã são descendentes
diretos dos Mura. A língua, a cultura material, a organização social e a
semelhança física não deixam dúvidas quanto a uma vinculação que tiveram
no passado. Nimuendajú (1982a/1925) foi quem fez a ligação entre os dois
grupos, passando a designar os Pirahã por Mura-Pirahã. A partir de então, a
história dos dois grupos liga-se, irremediavelmente, tornando-se de praxe
pensar os Pirahã como os modernos remanescentes da antiga 'Nação Mura',
outrora habitante das margens do Rio Madeira (cf. Nimuendajú, 1948, 1982a;
Rodrigues & Oliveira, 1977; Oliveira, 1978).
Pirahã é como os regionais os classificam e como eles se auto-identificam
diante da população envolvente e dos demais grupos indígenas. Hiaitsiihi é a
auto-denominação do grupo, significando um dos seres ibiisi (corpos) que
habitam uma das muitas camadas que compõem o cosmos.
Língua. Apaitsiiso ("aquilo que sai da cabeça")
é como os Pirahã se referem à sua língua. A língua pirahã foi classificada
como pertencente à família Mura por Nimuendajú (1982a). Henrichs (1964)
classificou-a como tonal. Everett analisou-a em inúmeros trabalhos (cf. 1979,
1983, 1985a, 1985b, 1986a, 1986b). Uma língua tonal caracteriza-se por lançar
mão de recursos supra-segmentais (a relação entre os tons) para estabelecer
significados. Assim, os Pirahã podem, a partir dos tons, gerar modos de
comunicação específicos: por meio de gritos, assobios, "falar-comendo".
O grito permite a comunicação a grande distância e, em geral, é usado nas
conversas travadas quando estão navegando em uma ou mais canoas pelo rio. A
comunicação por meio de assobios ocorre em expedições na mata ou no rio,
quando as vozes poderiam colocar em risco o objetivo da expedição. Everett
(1983) registrou que os assobios seguem os tons, e não uma tonalidade
padronizada que estabelece um significado. Assim, os Pirahã são capazes de
proferir palavras, e mesmo frases, com o recurso dos assobios. O "falar-comendo"
é a terceira possibilidade de estabelecer comunicação por meio dos tons;
enquanto mastigam, podem continuar conversando.
A maioria dos homens entende o português, mas nem todos são capazes de se
expressar nessa língua. As mulheres entendem mal o português e nunca o usam
como forma de expressão. Os homens desenvolveram uma "língua" de
contato para se comunicarem com os regionais, misturando palavras em Pirahã,
português e língua geral amazônica (mais conhecida como nheengatu).
Localização. Os Pirahã habitam um trecho das terras
cortadas pelo rio Marmelos e quase toda a extensão do rio Maici, no município
de Humaitá, estado do Amazonas. O rio Maici é formador do Marmelos, tributário
na margem esquerda do rio Madeira. Os períodos de seca e de chuva provocam
alterações importantes na ocupação dessa região. O Marmelos é um rio
largo, de águas pretas, cujas margens apresentam mata exuberante, árvores
frondosas, típica vegetação de floresta tropical. Na época da seca,
despontam praias de areia branca, intercaladas por blocos de rochas e ilhas, em
toda sua extensão. No período da chuva, a água invade a floresta, formando
extensos igapós, que deixam aparecer somente as copas das árvores e as
"terras altas". Subindo o rio Marmelos, depara-se com um longo trecho
em linha reta, denominado "Estirão Grande", início do território
Pirahã. Prosseguindo na mesma direção, mais à frente, junto à embocadura do
rio Maici, encontra-se uma das principais praias do Marmelos, ponto estratégico
para habitação, uma vez que dá acesso à exploração dos dois rios. Cruzando
a boca do rio Maici, ainda no Marmelos, passa-se por inúmeras praias, lagos,
igarapés e pelos rios Juqui e Sepoti. Este último demarca os limites do território
Pirahã, visto que as referências topográficas e toponímicas esgotam-se em
suas adjacências.
O Rio Maici é estreito e profundo. Na travessia, avistam-se centenas de
castanheiras em toda a sua extensão. A ocupação neste rio se faz desde a
embocadura até as proximidades da cabeceira; a ponte que o cruza na rodovia
Transamazônica, distante 90 quilômetros da cidade de Humaitá, delimita o
território Pirahã. O Maici é o lugar das terras altas, pontos estratégicos
para a exploração dos seus 17 castanhais. No verão, formam-se pequenas praias
que servem de locais para habitação.
A terra pirahã foi demarcada em 1994, tendo como limite norte o rio Marmelos:
do igarapé Folharal até o igarapé Água Azul, compreendendo toda a extensão
da margem esquerda deste rio; o limite sul é a ponte sobre o rio Maici, na
rodovia Transamazônica; o limite leste e oeste é composto por uma extensa
faixa de terra que avança mais de 8 quilômetros partindo das margens esquerda
e direita, respectivamente. A região soma aproximadamente 400 mil hectares num
perímetro de 410 quilômetros.
Demografia. A atual população Pirahã é de aproximadamente 360 pessoas. Na década de 1920 e na de 1970, foram estimados em 90. Em 1985, data do primeiro censo, a Funai contou 141 pessoas, registrando um equilíbrio entre os sexos (cf. Levinho, 1986). Essa população se espalha ao longo do Maici e no trecho do rio Marmelos, em pequenos grupos, na época das chuvas, dedicando-se à coleta de castanha nos locais de exploração do produto. Na época da seca, concentra-se em grupos maiores, habitando algumas praias dos rios referidos. Dois grandes grupos populacionais pirahã dividem o território. Um grupo de aproximadamente 120 indivíduos habita a região do Marmelos e as margens do Maici, até um local denominado Cuatá. Outro agrupamento, composto por 100 pessoas, vive à distância de cerca de dois dias de barco deste último ponto (Cuatá), ocupando, pelo menos, quatro locais até as proximidades da Transamazônica. Segundo os Pirahã, até a década de 60, estes grupos habitavam conjuntamente os locais próximos à foz do Maici. Os motivos alegados para a separação dos grupos e interiorização de um grande número de indivíduos na região do alto Maici, foram conflitos provocados por 'roubo' de mulher, desencadeando dois assassinatos. A crise definiu, assim, uma nova configuração na ocupação do território.
História do Contato. Os Pirahã, propriamente ditos,
surgem nas crônicas e documentos somente a partir do final do século XIX e
começo deste século. Nimuendajú, em 1921, encontra uma aldeia Pirahã no
Estirão Grande do Marmelos e outra no curso inferior do Maici. Informa que, em
1921, o SPI fundou um posto no Maici para atender a estes índios que, em sua
opinião, são "felizes na sua pobreza, ...até hoje pouco têm ligado às
vantagens da civilização e, excepção feita às ferramentas, quase não se
encontra entre eles sinal de contato permanente com os civilizados. São
extremamente indolentes, mas pacíficos, tanto que não me consta nenhuma
hostilidade contra os civilizados, invasores de seus castanhais, apesar dos freqüentes
abusos que estes intrusos cometem."(Nimuendajú, 1982a:117).
Nimuendajú registrou conflitos entre os Pirahã, Matanawi e Parintintin na área
do alto Maici. Datam dessa mesma época as informações fornecidas por Gondin
(1938), atribuindo aos Pirahã a mesma atitude belicosa dos Mura. Segundo o
autor, os Pirahã guerreavam no alto Maici com os Torá e Parintintin, mantendo
esse estado de beligerância até 1922, data da instalação de um posto de
vigilância pelo Serviço de Proteção aos Índios - SPI (cf. Gondin, 1925).
Em 1959, é iniciada a ação do Summer Institute of Linguistics - SIL, que
permanece na área indígena até 1980. Um casal atuou entre 1960 e 1966 e outro
de 1967 até 1977. O SIL estabeleceu sua Missão em três localidades distintas:
no Estirão Grande do Marmelos, no interior do rio Maici em um local de nome
Tuxaua, e em um barranco denominado 'Posto Novo', nas proximidades da foz do
Maici. Embora os missionários tenham estado em contato permanente com os Pirahã
por mais de 20 anos, desenvolvendo trabalho assistencial e de evangelização,
é difícil, hoje, reconhecer traços de sua passagem pelo grupo. Informações
encontradas nos relatórios do SIL revelam as dificuldades para instalação de
uma Missão, em virtude de os índios estarem "espalhados em vários pontos
ao longo dos rios", as mulheres não falarem com estrangeiros, além dos
conflitos com regionais que não queriam qualquer tipo de controle sobre o
território. Em 1967, são registrados conflitos entre os Pirahã e os brancos,
provocados pelo comércio de castanha, resultando na morte de um índio. Em
1968, há uma epidemia de sarampo que dizima 10% da população indígena,
registrando 14 óbitos. Em 1971, ocorrem mais conflitos com os regionais, no período
da safra da castanha, quando um Pirahã é esfaqueado e jogado no rio. Depois
deste episódio, os índios pensam em migrar para as cabeceiras dos igarapés do
Maici, fugindo, assim, dos embates com os regionais.
Um relatório de 1979, escrito por missionário voluntário católico que viveu
por 10 meses entre os Pirahã na foz do Maici, estimava sua população em 107
indivíduos, sendo que 56 viviam no baixo Maici e 51 nas aldeias do alto.
Informava, também, que, em 1974, o grupo fora atingido por uma epidemia de
sarampo, registrando mais de 30 óbitos.
As informações deste século sobre os Pirahã - fornecidas por Nimuendajú,
missionários do Summer, funcionários da Funai e antropólogos - enfatizam que
o grupo, embora mantenha estreito contato com os brancos, consegue manter sua
cultura tradicional e seu estilo próprio de vida. A região do Marmelos e do
Maici é até hoje invadida, durante determinados momentos do ano, por
comerciantes de Manicoré, Auxiliadora, Humaitá e Porto Velho. As fontes
consultadas, narram, desde o começo deste século, o envolvimento conflituoso
entre os Pirahã e agentes da frente extrativa da castanha. Na estação das
chuvas, é constante o movimento de barcos pelo Maici. Até 1985, os regionais
ocupavam feitorias ao longo deste rio, explorando os castanhais circunvizinhos.
Nos dias de hoje, a situação sofreu considerável mudança. Após intervenção
da Funai e de uma equipe do Conselho Indigenista Missionário - Cimi que atua na
área desde 1991, os Pirahã passaram a ocupar os castanhais da região do Maici,
coletando diretamente o produto que trocam por farinha, munição, roupas e
instrumentos de trabalho com os comerciantes locais, numa negociação
intermediada pela equipe do Cimi.
Organização social. Os Pirahã concebem o tempo como uma alternância entre duas estações bem marcadas, definidas pela quantidade de água que cada uma possui: piaiisi (época da seca) e piaisai (época da chuva). Essas marcações temporais combinam-se com formas de organização espaço-sociais. Temos, portanto, uma série de oposições concebidas a partir das relações entre tempo e espaço:
|
Seca
|
Chuva
|
| praia | terra alta |
| casa familiar | casa coletiva |
| concentração | dispersão |
| abundância | escassez |
| vida ritual | vida cotidiana |
A organização da vida social a partir das duas estações é projetada no
espaço, criando, assim, um tempo-espaço da praia versus um tempo-espaço da
terra alta.
Os Pirahã se organizam em pequenos núcleos residenciais, cujo número varia
conforme a estação do ano. Na época da seca, encontra-se uma média de cinco
agrupamentos e, na época da chuva, 10 a 13. Estes núcleos estão concentrados
em duas áreas distintas do território, o alto e o baixo Maici, conformando,
assim, conjuntos maiores que englobam os diversos arranjos residenciais. Os núcleos
que fazem parte de um conjunto mantêm relações pautadas pela contigüidade
espacial e pelos laços de consangüinidade e afinidade. Os conjuntos estão
separados por uma distância considerável, são praticamente independentes, com
relações esporádicas entre seus membros. Por conseguinte, as relações
sociais, os casamentos, as trocas, os rituais de congraçamento se dão no
interior de um conjunto.
Nos núcleos residenciais, torna-se difícil precisar o grupo doméstico ou a
família elementar como unidade de produção e consumo. O casal é a unidade
mais perceptível; por meio desta unidade a fragmentação da vida social ganha
amarração e sistematicidade. Kage é a designação para uma relação entre
duas pessoas de sexo oposto, não implicando, necessariamente, relação sexual
e/ou filhos. A autonomia do casal é evidenciada nas expedições de pesca e de
coleta; permanece sozinho por dias, semanas, passando, assim, a idéia de se
bastar para constituir uma vida social. Por um lado, o casal produz a fragmentação,
estimula o estilo de vida autônomo, não gregário, marcado por uma forma
provisória de viver (mudanças constantes, abrigos frágeis, bens escassos).
Por outro lado, o casal aparece como unidade fundamental, opera como um
ordenador das relações sociais, costurando, mesmo que de forma tortuosa, o
tecido social.
O conjunto que engloba os núcleos residenciais do baixo Maici é o mais
populoso. A conformação destes conjuntos e sua manutenção no tempo devem-se
a três fatores: a "herança do território", a classificação dos
parentes em "próximos" e "distantes" e os casamentos,
preferencialmente, contraídos no interior dos conjuntos.
Através das noções de consangüinidade e afinidade, criam-se duas formas de
classificação distintas: os parentes distantes, os mage, e os parentes próximos,
os ahaige. A partir dessas classificações, engendram-se formas distintas de
reciprocidade e, conseqüentemente, diferenças que reproduzem níveis de inclusão
e exclusão dos núcleos residenciais ou dos conjuntos maiores.
Os arranjos matrimoniais são, também, os responsáveis pela maneira como se
organizam no espaço. Os casamentos podem ocorrer no interior de um mesmo núcleo
residencial, entre núcleos, ou até mesmo se dar entre os conjuntos.
Na sociedade Pirahã, raramente escuta-se alguém chamar ou referir-se a uma
pessoa pelos termos de parentesco; não servem de emblema para as relações
interpessoais. O fato de não serem enunciados não significa que não cumpram
uma função classificatória ou que não informem sobre o modo como essas relações
interpessoais se constróem.
Observa-se a existência de quatro termos básicos usados numa primeira
classificação do universo dos parentes. Esses termos, antepostos ou pospostos
a outras palavras produzem os modos derivados para classificar uma relação. Os
três modos derivados definem-se pela fixação de elementos (como pronome,
verbo e substantivos que definem sexo e idade) ao termo básico.
Pode-se incluir o sistema de parentesco pirahã numa "estrutura
elementar", se levarmos em consideração o termo ibaisi, que corresponde
às primas cruzadas bilaterais, que vem a ser o modo como os Pirahã designam a
mulher com quem se casam. No caso Pirahã, o termo ibaisi recobre as posições
genealógicas "primas cruzadas" (filha do irmão da mãe e filha da
irmã do pai), e é de fato o único traço, no nível da terminologia, que
aponta, neste contexto, uma afinidade virtual.
Um homem se relaciona com sua mãe, com a esposa do pai, com a irmã, com a
prima paralela, com a prima cruzada, com a sogra, com a cunhada, com a esposa,
com a filha e com a filha da esposa. Se considerarmos que é o homem o responsável
pela pesca e roça, principais atividades produtivas da sociedade pirahã,
tem-se que ele é o provedor de alimentos. As relações com a mãe, irmãs,
primas paralelas e cruzadas são do tipo ahaige, ou seja, implicam que, o homem
"deva pescar" para estas mulheres. Se for casado, tal prática também
se aplica à sua esposa e às suas filhas e filhas de sua esposa. Através de
sua esposa, sua sogra e suas cunhadas têm acesso ao produto de sua pesca. Um
homem jamais afirmaria que pesca para seu sogro ou para seu cunhado, pois estes
terão acesso aos produtos de sua pescaria através das mulheres.
As roças estão referidas aos homens, geralmente, irmãos que se uniram para
dividir o serviço e, juntos, "comer daquela roça". Um homem terá
acesso aos produtos da roça de outro homem através de uma mulher, assim poderá
comer da roça do marido de sua mãe, do marido de sua irmã, do marido de sua
filha e do marido da filha de sua mulher.
A caça é uma atividade pouco praticada, podendo ser exercida pelos homens e
pelas mulheres. Os homens caçam com espingarda (macacos, anta, caititu,
queixada, cutia, capivara, paca) e as mulheres caçam com auxílio dos cachorros
(paca, caititu, cutia). A coleta é uma atividade cotidiana entre os Pirahã
desenvolvida tanto na época da seca quanto na época da chuva, por homens e
mulheres.
Cosmologia. O cosmos é representado de modo estratigráfico:
camadas de terra sobrepostas umas às outras, produzindo planos paralelos que não
se comunicam fisicamente, a não ser pelos seres que os habitam. O que
identifica estas camadas como pertencentes a uma mesma classe é a sua base
morfológica. Cada patamar apresenta uma morfologia própria composta por água,
terra, árvores e animais, variando apenas em forma, tamanho e número. Embora
todos os patamares sejam designados migi, "terra", a diferença entre
eles é marcada pelo que contém e o lugar que ocupam na estruturação do
cosmos.
Os Pirahã admitem não saber ao certo o número de patamares. Apesar da
incerteza quanto ao número de camadas de terra que compõem o cosmos, as
pessoas reduzem essa estrutura complexa a um modelo simples, guardando detalhes
e impressões de apenas cinco patamares, que parecem constituir a forma mínima
possível para representar a cosmologia.
____________________ abaisi e ibiisi
____________________ abaisi e ibiisi
____________________ ibiisi
____________________ abaisi, kaoaiboge, toipe, ibiisi
____________________ abaisi e ibiisi
As linhas são os patamares do cosmos. Cada um deles é habitado por
determinados seres (ver nomes, à direita). O patamar intermediário é habitado
exclusivamente por seres ibiisi, os demais o são pelos abaisi e pelos ibiisi,
exceto o patamar imediatamente abaixo do intermediário, que abriga, também, os
kaoaiboge e os toipe. Ibiisi é uma designação genérica para "ser
humano": são ibiisi os Pirahã, os brancos e os outros índios. O que
define um ibiisi é o fato de ele possuir um corpo com uma forma específica. Os
abaisi têm a mesma forma geral dos ibiisi (são antropomorfos), mas ela é
imperfeitamente realizada, são seres defeituosos ou deformados. Os kaoaiboge e
os toipe são transformações póstumas dos ibiisi, habitando o patamar
imediatamente abaixo do intermediário.
Os Pirahã têm um elaborado sistema de nominação articulado diretamente à
sua cosmologia. Um Pirahã recebe o primeiro nome antes mesmo de nascer, ainda
no ventre materno. O nome que recebe tem uma estreita relação com a sua concepção,
é o nome do corpo (ibiisi). Outra fonte de nomes vem dos seres abaisi que
habitam o cosmos. Se os nomes ligados à concepção, nomes de origem, são
responsáveis pela criação de sua matéria, seu suporte, o ibiisi (corpo), os
nomes ligados aos seres abaisi estão relacionados à sua "alma",
nomes de "destino". Os mortos têm um papel importante no processo de
nominação. Se aos abaisi compete prover nomes que dão a "alma" ou a
possibilidade de destino póstumo, aos mortos, em geral, compete a
responsabilidade de comparecer ao ritual xamânico representando os nomes dos
abaisi e de passá-los, por intermédio do xamã, para os ibiisi. A crença
pirahã é de que, ao possuir um nome de abaisi, estará assegurada a transformação
em kaoaiboge e toipe, cada qual podendo ter, assim, um destino. Cada nome de
abaisi que um indivíduo possui refere-se à possibilidade de se transformar em
dois seres, denominados kaoaiboge e toipe. Kaoaiboge é um ser pacífico, que se
alimenta de frutas e peixes, vítima canibal dos toipe. Assim, se um indivíduo
tem oito nomes de abaisi terá, certamente, seu destino assegurado através da
transformação em oito kaoaiboge e oito toipe. A relação com os inimigos é
uma fonte de nomes. Segundo os pirahã, existiu na sua sociedade uma classe de
pessoas designada euebihiai. Essa categoria compreendia os guerreiros/matadores
que tinham como principal objetivo o assassinato de inimigos e a caça, provendo
o alimento ritual a ser consumido. O inimigo produzia nome, a caça não, mas
ambos eram tratados da mesma forma nos rituais realizados para a sua ingestão.
Os matadores observavam cuidadosamente o inimigo antes de matá-lo para nominá-lo.
O matador, então, dava ao inimigo o nome de abaisi que um morto possuíra. Vê-se
que a lógica desse tipo de prática onomástica baseava-se na semelhança física
de corpos: corpo de inimigo e corpo de um pirahã morto. Corpos iguais, nomes
iguais. Essa lógica é empregada até hoje para a nominação dos estrangeiros.
O euebihiai ao matar o inimigo apossava-se do seu nome. Guardava para si ou o
transmitia a outros pirahã.
Ritual e Xamanismo. Classificamos como pertencentes ao
plano ritual todas as ações que põem em relação os ibiisi com os abaisi e
com os kaoaiboge e toipe. São dois os tipos de rituais: o xamanismo e a festa.
Ambos têm a intenção de colocar em relação o domínio social com o do
sobrenatural, mas o xamanismo é o ritual privilegiado pela sociedade, enquanto
as festas, qualificadas de "grandes" e "pequenas", são
rituais complementares.
O xamanismo materializa o processo de interação entre os ibiisi e os abaisi
e/ou entre os ibiisi e os abaisi e os kaoaiboge e toipe. É por meio do xamã e
de sua performance que o encontro ganha dramaticidade e sustentação. O xamã
"troca de lugar" com os abaisi ou com os mortos visitando os seus
respectivos patamares enquanto estes vêm ao patamar pirahã. O desempenho do
xamã permite à sociedade o aumento e o resgate do patrimônio onomástico. O
xamanismo é uma possibilidade de fornecimento de nomes "novos" à
sociedade. Sua inserção no complexo onomástico se faz a partir da apresentação
de nomes de abaisi aos ibiisi para que estes os utilizem, posteriormente, na
nominação. Assim, o xamã é a base do ritual, ser único que é capaz de
representar, a cada sessão, toda a cosmologia.
A "Festa Pequena" e a "Festa Grande" têm a mesma
justificativa de existência: colocar o cosmos em operação. Na percepção
pirahã, ambos rituais são realizados com a intenção de provocar ruídos,
fazer barulho, para que o demiurgo Igagai, localizado no segundo patamar
celeste, possa ouvi-los, cientificar-se de sua existência e do lugar exato
aonde se encontram. O receio dos Pirahã de não serem localizados por Igagai
pode ser interpretado como um temor de que se repita o que está contido no
fragmento mítico que narra a destruição do mundo. A destruição do mundo
deveu-se, em última instância, ao fato de Igagai ignorar onde os pirahã
estavam. Foi somente com o choro das mulheres, que restaram sozinhas e sem o
fogo, que Igagai pôde, então, escutar, localizar e iniciar a reconstrução do
mundo. Ambos os rituais são preferencialmente realizados em época de lua
cheia. A lua cheia é interpretada pelos pirahã como o forno onde Igagai torra
a sua farinha. Entendemos que a realização do ritual no período da lua cheia
seja uma tentativa de que, ao localizar Igagai sob a lua cheia, este possa, também,
localizar os pirahã.
Marco Antonio Gonçalves
IFCS/UFRJ
marcoantonio@imagelink.com.br
Anambé | Apiaká
| Arara | Araweté | Asuriní
do Tocantins Ashaninka | Atikum
| Bakairí | Bororo | Enawenê
NawêFulni-ô | Galibi | Galibi Marworno | Guajá
| Guajajára | Javaé Ka'apor
| Kadiwéu | Kaiabi | Karajá
| Kariri-Xocó | Katukina Pano
| Krahó | Krenák | Kwazá
| Marúbo | Maku | Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
| Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é