Nome. Sua autodenominação - Rikbaktsa - significa "os seres humanos". Rik é pessoa, ser humano; bak é um reforço de sentido e tsa é o sufixo para a forma plural. Regionalmente são chamados de Canoeiros, por referência à sua habilidade no uso de canoas ou, mais raramente, de "Orelhas de Pau", pelo uso de enormes botoques feitos de caixeta, introduzidos nos lóbulos alargados das orelhas.
Língua. Seu idioma é considerado por
pesquisadores do Instituto Lingüístico de Verão como uma língua não
classificada em família, incluída no tronco lingüístico Macro-Jê.
Um dos aspectos interessantes da língua Rikbaktsa é o fato, comum a várias
outras línguas indígenas, de haver uma diferença entre a fala masculina e a
feminina, de modo que a terminação de muitas palavras indica o sexo do
falante. O conhecimento e a maestria no uso da linguagem é reconhecidamente
mais desenvolvido nos velhos, cujas conversas costumam ser acompanhadas com
interesse pelos que querem refinar seu conhecimento da língua.
Atualmente os Rikbaktsa são bilíngües, tendo aprendido e incorporado o
português. As novas gerações falam mais regularmente e melhor o português,
aprendendo e utilizando a língua Rikbaktsa à medida em que crescem e ocupam um
espaço no mundo adulto. Os mais velhos, por outro lado, utilizam o português
com mais dificuldade e apenas no contato com os "brancos".
Localização e história do contato. Os Rikbaktsa
vivem na bacia do rio Juruena, no noroeste do Mato Grosso, em duas terras indígenas
contíguas: a TI Erikpatsa, demarcada em 1968 (com 79.935 ha, homologada e
registrada), a TI Japuíra, demarcada em 1986 (com 152.509 ha, homologada e
registrada), e numa terceira terra indígena, a TI do Escondido demarcada em
1998 (com 168.938 ha, homologada), mais ao norte, na margem esquerda do rio
Juruena, totalizando um território de 401.382 hectares de mata amazônica.
Seu território tradicional situava-se entre os paralelos 9° e 12° latitude
sul e os meridianos 57° e 59° longitude oeste, espraiando-se pela bacia do rio
Juruena, desde a barra do rio Papagaio, ao sul, até quase o Salto Augusto no
alto Tapajós, ao norte; a oeste expandia-se em direção ao rio Aripuanã e a
leste até o rio Arinos, na altura do rio dos Peixes, configurando uma região
de cerca de 50 mil km2 .
Embora isolada, a região há havia sido atravessada por expedições científicas,
comerciais e estratégicas desde o século XVII. Entretanto, pouco se conhecia
das matas ocupadas pelos Rikbaktsa já que, naqueles trechos do rio Juruena e
Arinos, as expedições mantinham-se sempre no leito do rio ou na sua
proximidade, pouco se aventurando no interior da mata. Deste modo, até a
penetração dos seringueiros no final da década de 1940, nenhuma menção
havia sobre os Rikbaktsa. A ausência de referências históricas anteriores e
de estudos arqueológicos não permite determinar a antiguidade de sua ocupação.
Entretanto, a memória tribal, as referências geográficas expressas em mitos e
o extenso e detalhado conhecimento da fauna e flora que demonstram ter sobre o
território e seus arredores fazem supor uma permanência bastante antiga.
Eram bem conhecidos pelos grupos indígenas vizinhos com os quais, quase sem
exceção, mantiveram relações hostis. Famosos por seu ethos guerreiro
lutaram com os Cinta-Larga e Suruí a oeste, na bacia do rio Aripuanã; com os
Kayabi a leste e com os Tapayuna a sudeste, no rio Arinos; com os Irantxe,
Pareci, Nambiquara e Enauenê-Nauê ao sul, no rio Papagaio e nas cabeceiras do
rio Juruena; com os Munduruku e Apiaká ao norte, no baixo rio Tapajós.
Opuseram resistência armada aos seringueiros até 1962.
A partir da "pacificação" dos Rikbaktsa, financiada pelos
seringalistas e realizada pelos jesuítas entre 1957 e 1962, seu território
tradicional passou a ser ocupado por diversas frentes pioneiras, de extração
de borracha, madeireiras, mineradoras e agropecuárias. Durante e logo após a
pacificação, epidemias de gripe, sarampo e varíola dizimaram 75% de uma
população calculada em cerca de 1.300 pessoas. Perderam a maior parte de suas
terras e a maior parte das crianças pequenas foram retiradas das aldeias e
educadas no Internato Jesuítico de Utiariti, situado no rio Papagaio, a quase
200 km de sua área, junto com crianças de outros grupos indígenas também
contatados pelos missionários. Os adultos remanescentes foram sendo
gradativamente transferidos de suas aldeias originais para aldeias maiores e
mais centralizadas sob a direção catequizadora dos jesuítas. Em 1968 tiveram
demarcada cerca de 10% de seu território original - a Terra Indígena Erikpatsa
- as crianças foram sendo levadas de volta para as aldeias e a atuação
missionária nele se centralizou.
Na década de 70 a atuação missionária se modificou, atenuando seu
autoritarismo, reconhecendo o direito dos povos indígenas à sua própria
cultura e abrindo mais espaço, sempre reivindicado pelos Rikbaktsa, a uma maior
autonomia. Desde o final dos anos 70 passam a lutar pela recuperação de parte
de suas terras. Em 1985 conseguiram retomar a região conhecida por Japuíra.
Continuaram a luta pela região do Escondido, demarcada pelo Estado brasileiro só
em 1998, estando, entretanto, ainda invadida por garimpeiros, madeireiras e
empresa de colonização.
População. Sua população
atual é de cerca de 1.025 indivíduos, aproximando-se do montante populacional
que apresentavam na época dos primeiros contatos com a sociedade nacional. Uma
estimativa com base no tamanho e número das aldeias encontradas nas expedições
jesuíticas destinadas a "pacificá-los" indica uma população de
cerca de 1.300 pessoas no final da década de 50 do século XX. As doenças
derivadas dos primeiros contatos reduziram enormemente esta cifra.
Sofreram uma perda de cerca de 75% da população da época do contato até
1969, recuperando-se em parte da década de 70 em diante. A intermediação
protecionista da Missão Anchieta (MIA), apesar de produzir intensa pressão
aculturativa e desarticuladora sobre o povo Rikbaktsa, foi o que ao mesmo tempo
propiciou as condições mínimas para que se recuperassem fisicamente após a
mortandade pós-contato.
Em 1985, segundo levantamento da Missão Jesuítica, já havia uma população
de 511 pessoas, sendo 153 nascidas antes do contato e 357 nascidas depois. Assim
que as epidemias foram contidas e a produção alimentar regularizada, voltaram
a crescer em ritmo acelerado, se comparado com as taxas nacionais, como
demonstra a tabela a seguir.
|
Ano |
População |
% |
Fonte |
|
1957 |
1300 |
----------- |
(est. pessoal) |
|
1969 |
300 |
- 77 % |
(MIA/SIL) |
|
1979 |
380 |
+ 26 % |
(MIA/HAHN) |
|
1984 |
466 |
+ 22,6 % |
(MIA) |
|
1985 |
511 |
+ 9,65 % |
(MIA) |
|
1986 |
514 |
+ 0,58 % |
(MIA) |
|
1987 |
520 |
+ 1,16 % |
(MIA) |
|
1989 |
573 |
+ 10,19 % |
(MIA) |
|
1993 |
700 |
+ 22,16 % |
(MIA) |
|
1995 |
905 |
+ 29,29 % |
(MIA/ASIRIK) |
|
1997 |
950 |
+ 4,97 % |
(MIA/ASIRIK) |
|
1998 |
1025 |
+ 7,89 % |
(ASIRIK) |
A queda no crescimento nos anos 1985-87 parece corresponder tanto a um
aumento da mortalidade quanto à diminuição de nascimentos. Isso se deve em
parte ao conturbado período de luta pelo reconhecimento do Japuíra como área
indígena, no qual a queda da produção alimentar, aumento da debilidade física
e inadequação do atendimento à saúde parecem ter sido os responsáveis pela
debilitação do povo.
De 1987 em diante, quando já tinham a posse oficial do Japuíra, acesso a mais
recursos e uma perspectiva mais otimista de vida, e no qual a MIA e a Funai
preocuparam-se mais concretamente com o atendimento à saúde na área, a população
Rikbaktsa voltou a acentuar sua taxa média anual de crescimento.
A tuberculose e outras doenças pulmonares e as mortes por malária ainda
ocorrem com certa freqüência, mas parecem estar mais controladas, permitindo
uma expectativa de manutenção desses índices de crescimento populacional.
Atividades econômicas. A natureza se
apresenta como o grande manancial, onde os Rikbaktsa estão imersos. O
conhecimento milenarmente adquirido e oralmente transmitido sobre as espécies
vegetais e animais, suas interrelações e ciclos de reprodução, aliado a técnicas
adequadas de aproveitamento sempre garantiram sua reprodução biológica e
social. A socialização desses conhecimentos e técnicas e o livre acesso de
todos os indivíduos aos recursos do território do grupo ao qual pertencem,
garantem alto índice de igualitarismo interno. Não é preciso acumular
excedentes, já que estes se encontram "estocados" na mata e
todos sabem retirá-los no momento em que necessitam.
A divisão do trabalho é basicamente entre homens e mulheres, aproveitando e
reforçando os laços de interdependência pré-existentes ao nível da reprodução
biológica.
A autonomia econômica e política dos grupos domésticos, constituídos como
unidades de produção e consumo, é contrabalançada pelas relações do
sistema de parentesco (socialmente criadas) e de ordem ritual. Esse sistema de
relações de reciprocidade os articula na comunidade mais ampla, o povo
Rikbaktsa. A quebra de reciprocidade, que por vezes ocorre, é causadora de
atritos e diferencia os laços existentes entre os diversos sub-grupos
Rikbaktsa.
Na perspectiva Rikbaktsa eles são muito mais caçadores e coletores do que
agricultores, embora a agricultura, e as festas rituais a ela associadas, tenham
um papel central no ritmo e organização da vida social.
A economia Rikbaktsa caracteriza-se pela alternância de atividades
diferenciadas ao longo do ano, concentrando-se sazonalmente ora numa ora noutra
atividade. A unidade de produção e consumo cotidiano é a família extensa, ou
seja, dos habitantes de cada casa. Somente no decorrer dos rituais que
acompanham a atividade agrícola (derrubada de roça nova e colheita do milho
novo) e em poucas outras ocasiões é que ocorre uma cooperação mais ampliada.
Fazem roças de coivara, de forma arredondada, de meio a dois hectares cada, com
várias espécies consorciadas de acordo com sua compatibilidade, expressas
muitas vezes na linguagem de parentesco. A cada dois ou três anos abrem novas
roças, abandonando a anterior ao trabalho de reconstituição espontânea da
floresta. Às vezes, além dos roçados perto da aldeia, possuem outros mais ou
menos distantes que, juntamente com as roças abandonadas, constituem reservas
alimentares, de onde colhem esporadicamente os tubérculos e bananas que
continuam a produzir por vários anos.
Plantam milho "mole" de dois tipos (um deles preto), batata-doce, cará,
mandioca "mansa", inhame, arroz, feijão, fava, algodão, urucu,
bananas de diversos tipos, cana-de-açúcar, amendoim e abóbora. Plantam também
abacaxi, cítricos (limão, laranja, tangerina), manga e outras frutas, embora
de forma mais irregular. Dizem que antigamente plantavam tabaco para fins
medicinais.
As roças são do grupo doméstico, constituído pelo "dono da
maloca", sua esposa, filhos solteiros, filhas solteiras e casadas, genros e
netos. O homem casado e com vários filhos que se separa da maloca do sogro
construindo casa própria faz também nova roça para sua família. Entretanto,
em quase todos os aldeamentos, chefes de família mais empreendedores e
influentes podem fazer sua derrubada com o auxílio de parentes e moradores da
mesma aldeia e de outras aldeias ao redor, sediando e organizando ao mesmo tempo
a realização de um ciclo ritual de festas que acompanha as atividades agrícolas
anuais.
As derrubadas novas são feitas de maio a junho, quando se firma a estação
seca. Nas capoeiras, isso ocorre de julho até a metade de agosto. Queimam e
fazem a coivara em agosto/setembro e plantam depois da primeira chuva, no começo
de outubro.
Grande parte do alimento consumido diariamente é conseguido através da caça,
da pesca e da coleta, praticamente ininterruptas durante o ano todo. Mas a caça
é a atividade por excelência dos homens. O papel social do caçador/guerreiro
parece ser o ponto de referência central do conjunto de valores constitutivos
da identidade masculina, a figura "arquetípica" do provedor de
alimentos e defensor da comunidade.
Os Rikbaktsa comem quase todos os animais, com poucas exceções, como o jacaré,
o tamanduá-bandeira, cobras, onças e "macaco da noite", de pêlo
quase branco. Apreciam a carne de todos os tipos de macaco (com a exceção
indicada), que é a caça mais freqüente. O porco do mato e o caititu são também
bastante valorizados, assim como a cotia, a paca, o veado (vermelho e cinzento),
o quati (que às vezes criam), a anta, vários tipos de tatu (do tatu canastra
fazem pulseiras da cartilagem do rabo, usadas pelas meninas e mulheres),
ariranha, irara etc. Caçam aves em quantidade e diversidade, valorizando-as
pela carne e pelas penas: araras (de três tipos), ararinhas, papagaios, gavião
(vários tipos), japuíra, mutum, mutum-carijó, tucano, tucaninho, garça,
pato, marreco, biguá, jacamim, jacu, jacutinga, macuco, macuquinho, pomba,
coruja, passarinhos de todo tipo.
Comem também todo tipo de peixe, ovas de tucunaré depositadas em galhos
submersos, tracajás, ovos de tracajá ou de cágado que descobrem em grande
quantidade enterrados para chocar nas praias que se formam na seca. As crianças
desde os três anos de idade costumam brincar no porto da aldeia, matando
peixinhos com seus pequenos arcos e flechas de três pontas. Capturam com a mão
peixinhos recém nascidos na vegetação submersa da margem, comendo-os muitas
vezes crus, quando são bem pequenos. Entretanto, apesar de variada e praticada
o ano todo a pesca nem sempre é farta. Na época da chuva ela se torna mais
rara e menos freqüente, sendo mais praticada e com melhores resultados na seca.
Na estação chuvosa, os rios inundam a floresta às vezes por uma grande extensão,
já que a região é plana, com suaves ondulações no seu interior. Formam-se
inúmeras lagoas e os peixes, que desovaram no final da estação seca,
espalham-se pela mata, mais rica em alimentação, para crescer e engordar. Sua
dispersão torna a pesca mais difícil, mas ainda assim é praticada,
principalmente à flecha.
De modo geral, as pessoas estão sempre atentas ao que a natureza oferece,
orientando sua alimentação, suas atividades, seus rituais, em conexão com os
ritmos entrelaçados de crescimento, alternância e maturação das formas de
vida animal e vegetal, recursos naturais que aproveitam intensamente na época
apropriada. A coleta é atividade diária, praticada pelos homens, mulheres e
crianças nas saídas freqüentes ao redor da aldeia; tiram embira para fazer
corda, buscam lenha, palha, madeiras para fins diversos, plantas medicinais etc.
Além da extensa variedade de frutas silvestres, o alimento coletado que guarda
maior importância na dieta Rikbaktsa é ainda hoje a castanha. De alto valor
nutritivo, ela é extensamente consumida; inteira, ralada e cozida como mingau,
como componente de massa de beiju, pão ou bolo e ainda para fazer óleo de
fritura.
Muito consumido também é o mel de vários tipos de abelhas, usado como adoçante,
misturado à água ou nos diversos tipos de chicha. Chicha é o nome genérico
dado aos vários tipos de "sopas", "vitaminas" ou
"sucos" que os povos indígenas costumam fazer. Os Rikbaktsa costumam
fazer chicha de bananas, milho fofo, batata-doce, cará, milho com banana, patauá,
inajá, buriti, buritirana, assari, seriva (pupunha), bacuri, bamy, aboho,
bamy com milho e uma infinidade de outras menos freqüentes. Não há
nenhuma bebida ou chicha fermentada entre eles ou, quando há, é de fermentação
recente por ter sido preparada a dois ou três dias no máximo, sem teor alcoólico
detectável. São gostosas, bastante nutritivas e, no clima quente local, uma
boa prevenção contra a desidratação, sendo tomada por todos, homens,
mulheres e crianças, com grande freqüência.
Preferem o mel ao açúcar, que atualmente também é usado em larga escala;
tanto o mascavo que produzem em pequena quantidade, quanto o refinado comprado
no comércio regional. O mel de jati, fino, claro e de sabor delicado é tido
como o melhor para crianças, com qualidades medicinais contra tosse.
Os Rikbaktsa costumam criar vários tipos de aves, tendo-as como um estoque vivo
de penas para seu enfeites, do qual lançam mão sempre que necessitam. Criam
araras, ararinhas, pequenos periquitos, mutum, jacutinga, jacu etc. A mais comum
é a arara (amarela, vermelha ou cabeçuda). É comum encontrar araras
perambulando pelo chão ao redor das casas, dentro delas ou nas árvores próximas.
Os Rikbaktsa mostram grande afeição por elas, sempre as nutrem com castanha,
milho e outros alimentos, o que não impede que, de tempos em tempos, debaixo de
grande alarido da arara, que deve ser bem segura pelos pés e cabeça,
arranquem-lhe quase todas as penas. Em uma semana as penas começam a crescer de
novo e ficam de cores cada vez mais fortes, mais "maduras" como dizem
os índios. Muitos criam também galinhas, pelos ovos e carne mas também pelas
longas penas do rabo de galo, incorporada aos enfeites plumários tradicionais,
com um belo efeito estético. Por fim, há cães em quase todas as malocas,
valiosos auxiliares na caça.
Por outro lado, incorporaram inúmeras mercadorias e utensílios produzidos pela
sociedade envolvente, com a qual mantém relações comerciais, obtendo renda
monetária nos últimos anos principalmente com a produção e comercialização
da borracha, da castanha e do artesanato (sua arte plumária é das mais belas
entre os grupos tribais brasileiros). Da produção agrícola e extrativa
voltada para o mercado, realizada sob o comando dos jesuítas nas duas primeiras
décadas de contato, passaram à auto- organização da produção e
comercialização da borracha na década de 80, através de uma cooperativa
interna, organizada em consonância com sua forma de vida social.
Nas últimas décadas o avanço do desmatamento em torno de suas terras tem
prejudicado a reprodução dos animais da floresta e o crescimento da pesca
comercial nos rios que limitam seu território tem prejudicado a reprodução
dos peixes, afetando em parte tanto a caça como a pesca, aumentando sua dependência
do mercado. Com a queda do preço da borracha, principalmente nos anos 90,
apoiaram-se mais na produção e venda da arte plumária e, secundariamente, na
venda esporádica de peixe, castanha e outros produtos para o pequeno comércio
regional, como forma de obter alguma renda monetária.
Como alternativa econômica ao modelo de ocupação regional marcado pelo
desmatamento extensivo, os Rikbaktsa desenvolvem desde 1998 um projeto de manejo
sustentável não-madeireiro, centrado num primeiro momento na extração e
envasamento de palmito para venda e, futuramente, também no beneficiamento e
comercialização da castanha e outros produtos. É uma iniciativa pioneira,
administrada pela Associação Indígena Rikbaktsa (ASIRIK, fundada em 1995),
com assessoria técnica do Instituto de Estudos Ambientais (IPA) e do Instituto
de Apoio ao Desenvolvimento Humano e do Meio Ambiente (TRÓPICOS), em parceria
com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a Coordenadoria de Assuntos Indígenas
do Mato Grosso (CAIEMT), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos
Renováveis (IBAMA) e a Prefeitura do Município de Juína - MT, financiado pelo
Programa de Apoio Direto às Iniciativas Comunitárias (PADIC) do PRODEAGRO e do
Programa de Gestão Ambiental Integrada - PGAI/PPG7.
Estas atividades voltadas para o mercado mesclam-se e, por ora, subordinam-se às
atividades econômicas tradicionais, num projeto social que tenta potencializar
a renda monetária e a capacidade produtiva Rikbaktsa juntamente com a manutenção
das características de organização, ritmo e diversidade da vida cotidiana.
Organização social. As aldeias
tradicionais compunham-se de uma ou duas casas habitadas por famílias extensas
(o dono da casa, sua esposa, filhos e filhas solteiras, filhas casadas, genros e
netos) e uma casa dos homens ("rodeio" no português e makyry
na língua Rikbaktsa) onde viviam os viúvos e jovens adultos solteiros. Em
1957, foram encontradas 42 aldeias, espalhadas por seu território, situadas no
interior das matas, em locais próximos às cabeceiras de córregos, ligadas
entre si por trilhas na floresta. Com a centralização imposta pelos jesuítas
as aldeias tornaram-se maiores, menos numerosas e localizadas ao longo da margem
direita do rio Juruena. Nas duas últimas décadas, a reconquista de partes de
seu território (TI Japuíra e TI do Escondido) impulsionou a multiplicação do
número de aldeias em seu porte tradicional, embora algumas dentre elas cheguem
a ter mais de 10 casas.
Não há uma forma definida para as aldeias, como entre outros povos do mesmo
tronco lingüístico que, a exemplo dos da família Jê, constroem aldeias
circulares que refletem a organização social. Atualmente, há cerca de 33
aldeias nas áreas contíguas (TI Rikbaktsa e TI Japuíra) localizadas ao longo
do rio Juruena, Sangue e Arinos, acompanhando os limites de suas fronteiras,
como estratégia de vigilância de suas terras e otimização do uso dos
recursos naturais. Em 1998 construíram mais uma aldeia na TI do Escondido, só
agora demarcada, onde planejam a criação de mais aldeias para consumar sua
reocupação.
Os Rikbaktsa dividem os seres do universo em duas séries opostas e
complementares. Essa divisão, embora utilizada para os outros seres da
natureza, opera mais extensamente em relação à sociedade Rikbaktsa e,
configurada no sistema de parentesco, fornece o princípio classificatório mais
abrangente através do qual organizam sua vida social. A sociedade Rikbaktsa é
dividida em metades exogâmicas, uma associada à arara amarela (Makwaratsa)
e outra à arara cabeçuda - um tipo de arara vermelha - (Hazobtisa),
cada uma subdividida em vários clãs, associados a animais e vegetais.
|
M E T A D E S |
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|
C L Ã S |
Makwaraktsa |
Hazobiktsa |
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- Makwaraktsa |
- Hazobiktsa |
|
|
- Tsikbaktsa |
- Umahatsaktsa (figueira) |
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- Bitsitsiyktsa |
- Tsuãratsa (macuquinho) |
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- Mubaiknytsitsa |
- Tsawaratsa (inajá) |
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- Zoktsa ("pau torcido", um tipo de árvore) |
- Bitsiktsa (tucano) |
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- Zuruktsa (animal feroz, mítico, aparentado à onça que hoje não existe mais) |
- Buroktsa (árvore, |
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|
- Wohorektsa |
- Zerohopyrytsa (jenipapo) |
|
Os casamentos são realizados entre as metades. Na década de 70, apesar de
considerados incestuosos, realizaram-se casamentos entre membros da mesma metade
de parentesco, em parte devido a dificuldades derivadas da mortalidade pós-contato,
em parte induzidos pelos jesuítas no seu esforço "civilizatório".
Atualmente as prescrições tradicionais são seguidas com rigor. A descendência
é patrilinear e se funda na crença de que uma criança é gerada pelo pai,
assemelhando-se sempre a ele e nunca à mãe. Além disso, parecem acreditar que
qualquer outro homem que copular com uma mulher grávida participa da
paternidade. Dizem que o filho toma o lugar do pai, dá continuidade a
ele. A ligação entre pai e filho (ou filha) ultrapassa o momento da geração,
sendo considerada um elo vital (mais do que social) que se estende por toda a
vida. O casamento preferencial é entre primos cruzados e a regra de residência
é uxorilocal, isto é, o noivo vai morar com os pais da noiva. A norma geral é
a monogamia, mas a poliginia é permitida e ocasionalmente praticada. A cerimônia
de casamento é bastante informal. Depois de estabelecido um acordo entre as famílias
dos noivos e entre estes, o líder da aldeia retira a rede do homem de sua própria
casa (ou da casa dos homens) e a amarra ao lado da rede da mulher, na casa de
seu sogro, onde passa a morar nos primeiros anos de casamento, mudando-se depois
de ampliar sua família para junto de seus irmãos casados. O divórcio é
comum, principalmente nos primeiros anos de casamento, e é facilmente
conseguido por qualquer um dos cônjuges.
Em conjunto com as relações de aliança entre grupos patrilineares criadas
pelo casamento, os princípios classificatórios do parentesco determinam a
distribuição das pessoas entre aldeias e estabelecem relações de prestígio
e influência, constituindo-se no cerne de suas relações políticas internas.
As relações entre os indivíduos, apoiadas nestes princípios, são
classificadas por meio de um sistema formado por mais de sessenta termos, a
maior parte constituintes de pares recíprocos.
A posição que uma pessoa vai ocupando na sociedade Rikbaktsa é definida pelo
grupo de idade, o sexo, o clã e a metade. Seu sexo a coloca num lado da divisão
do trabalho e define as tarefas que irá assumindo ao longo de sua vida. Esse
percurso, e os papéis sociais que nele serão assumidos, é percorrido em
conjunto com outras pessoas do mesmo sexo que, por passarem conjuntamente pelos
rituais que marcam sua entrada na vida adulta, constituem um grupo de idade. Sua
pertinência a um clã de uma metade de parentesco determinada, por outro lado,
define suas possibilidades de casamento, seu papel e suas obrigações nas
festas coletivas rituais, organizadas com base na reciprocidade de direitos e
obrigações que as metades têm uma com relação à outra. Por outro lado,
conforme o avançar da idade, as pessoas capacitam-se a assumir posições cada
vez mais centrais na organização da vida social, até a chegada da velhice,
que as coloca no mais alto nível de respeitabilidade.
As crianças desde cedo acompanham os pais, ajudando-os em seus afazeres.
Aprendem a conhecer a floresta, seus recursos, seus segredos, através da vivência
compartilhada e dos ensinamentos transmitidos no decorrer das tarefas e através
dos mitos transmitidos pelos mais velhos. Dos rituais de passagem tradicionais
praticam a perfuração de orelha e do nariz para os meninos, durante a grande
festa final do ciclo ritual que acompanha a abertura das roças. Antigamente
faziam tatuagens no rosto para as moças e no peito para os rapazes, no ritual
de passagem para a idade adulta, seguidos por uma reclusão cerimonial que podia
durar mais de um mês, durante o qual não podiam tomar sol, nem serem vistos
por ninguém que fosse parente muito próximo. As reclusões, as tatuagens e o
uso do botoque no lóbulo da orelha dos rapazes foram sendo abandonados após o
contato. Antigamente os meninos passavam a viver na casa dos homens a partir dos
12 anos de idade, onde sua educação era completada por um mentor. Hoje em dia
vivem com os pais até o casamento, quando mudam para a casa do sogro e este
costuma completar a educação tradicional do genro.
Cada clã tem um estoque fixo de nomes, estabelecidos num passado imemorial,
usados por todas as gerações mortas e portados continuamente pelas gerações
vivas. Há os nomes de criança e os nomes de adultos. Uma pessoa recebe
ao longo de sua vida três ou quatro nomes, deixando livre o anterior para ser
usado por outra pessoa.
Os nomes são sugeridos por membros do clã do pai, mas a decisão sobre a sua
adequação está na mão dos velhos, nem todos do mesmo clã, mas
pertencentes a uma mesma classe de idade. Eles se reúnem antes da festa que
acompanha a derrubada da mata para o plantio, quando decidem quem vai ganhar
novo nome (crianças e adultos) e qual será. No decorrer da festa, no canto
noturno, o "dono da festa" anuncia os nomes e as pessoas que os
ganharam.
Uma criança pode receber o "nome de criança" que seu pai, avô ou
irmão mais velho já usou. Ainda que seja mais comum receber nomes cujo último
usuário tenha morrido bem velho, depois de uma vida plena, um homem pode
receber um nome já usado por seu pai, avô ou outro membro do clã, mesmo
que este ainda esteja vivo.
A não ser no caso das crianças pequenas, ninguém é chamado pelo nome próprio.
Os Rikbaktsa chamam-se entre si pelos termos de parentesco, por nomes cristãos,
por apelidos ou referindo-se a uma relação conhecida estabelecida com uma
terceira pessoa.
O nome próprio só é conhecido por seus parentes mais próximos e seus
aliados, os que participam da mesma festa de derrubada, e costuma ser
desconhecido pelas pessoas com as quais mantém relações mais distantes. Para
os inimigos é segredo, não se diz. Mas, mesmo os que conhecem o nome do
interlocutor não o pronunciam em público. Seria uma grande indelicadeza, uma
invasão da privacidade, expor assim o nome de uma pessoa. Nem se diz a alguém
o nome de uma pessoa que não está presente. Só o próprio dono pode
revelá-lo, se sentir confiança para tal. Também não se costuma pronunciar o
nome dos que morreram recentemente, referindo-se ao morto como "o
falecido" e referindo-se a seu parentesco com uma terceira pessoa.
Ciclo de vida. Uma criança porta o nome que recebeu
após o nascimento até receber outro, entre os 9 e 12 anos de idade. O critério
não é a idade cronológica exata, mas o grau de aprendizado a que chegou.
Entre os 3 e 5 anos o menino recebe um arquinho e flechas feitos por seu pai,
começando a acompanhá-lo em pescarias e caçadas. Vai conhecendo a
"fala" dos bichos (isto é, o modo como os animais comunicam-se entre
si, os sons que produzem e o que eles indicam), o nome e as características das
plantas e árvores, a geografia local. Com 8-10 anos de idade já sabe
fazer seu próprio arco e flechas, ainda que menores do que os de um adulto,
usando-os com alguma maestria. Quando já sabe flechar bem, aos 11-12 anos, fura
o nariz na festa do milho, na estação das chuvas, e ganha seu segundo nome, um
nome intermediário entre seu nome de criança e o de adulto, que portará mais
tarde.
Começa a freqüentar a casa dos homens durante o dia, aprendendo sobre as
festas, sobre os mitos, a respeito da utilização de ervas medicinais; aprende
a tocar flauta, fazer os enfeites plumários, arcos e flechas de adultos. Ao
mesmo tempo, passa a assumir mais sistematicamente as responsabilidades de
provedor de sua casa e aldeia, participando de todas as tarefas adultas.
Aos 14-15 anos de idade, quando já consegue matar bichos grandes, como porco do
mato, anta, capivara, veado etc., e já sabe o suficiente sobre as festas,
passava pelo rito de perfuração do lóbulo das orelhas, que ocorria na festa
grande, na estação da sêca, ponto culminante do ciclo ritual anual. Este
rito, que hoje em dia não mais acontece, introduzia o rapaz na classe de idade
dos homens feitos. Já podia casar e também participar das expedições
guerreiras que regularmente moviam contra os Cinta-Larga, outros grupos vizinhos
e, depois, contra os seringueiros. Nessa fase recebia seu terceiro nome, logo após
a perfuração de orelha ou depois de casar.
Atualmente, mesmo sem furar a orelha, os rapazes são considerados adultos
quando agregam as condições adequadas de idade e aprendizagem, recebendo então
seu terceiro nome, em geral depois do casamento. Alguns homens podem trocar de
nome ainda mais uma vez, recebendo um quarto nome, quando forem homens maduros,
donos de maloca com filhos crescidos, família grande e influência social.
As mulheres também são nominadas da mesma forma que os homens, nas festas de
derrubada, obedecendo porém a outros ritos de passagem.
Assim como os meninos, as meninas recém-nascidas recebem um nome clânico de
criança. No passado, por volta dos 12 anos de idade, depois de menstruar pela
primeira vez, as meninas furavam o nariz. Hoje, algumas furam e outras não.
Nessa idade tomam "remédio do mato" para diminuir a dor do parto
quando tiverem filhos.
Tradicionalmente, o pai decidia quando a filha iria receber as tatuagens faciais
("riscar o rosto"), o que ocorria na festa grande, na mesma ocasião
em que os meninos tinham o lóbulo da orelha perfurado. A partir daí era
considerada mulher feita, pronta para casar.
Depois da perfuração de nariz a moça já podia receber novo nome, em
geral dado depois de riscar o rosto ou logo depois do casamento. Não há
a prática de reclusão das moças, a não ser nesse curto período. Não há
também cabanas menstruais, nem se percebe regras de isolamento relativas à
menstruação.
Hoje em dia, esse ritual de passagem não é mais praticado, assim como a
perfuração do lóbulo de orelha dos rapazes e as expedições de guerra, nas
quais o caçador formado tinha sua primeira experiência como guerreiro,
completando sua formação de homem adulto. A experiência de guerreiro tem sido
nos últimos anos a participação ativa dos jovens nas lutas para a recuperação
e manutenção de seu território.
Visões sobre a doença, a morte e a vida. Os
Rikbaktsa acreditam que há uma permutação de "almas" entre os seres
do mundo físico. Assim, o destino dos mortos é diferenciado segundo a vida que
tiveram como seres humanos. Alguns voltam de novo como seres humanos (até mesmo
como "brancos") ou encarnados como macacos "da noite" (um
dos poucos animais que eles jamais caçam); outros, que foram pessoas más em
vida, voltam como animais perigosos aos homens, como a onça ou cobras
venenosas. Por outro lado, os seres existentes um dia foram humanos e seus mitos
registram como foram transformados definitivamente em animais. Assim, os porcos,
a anta, as araras, os pássaros e até a lua já foram gente.
As centenas de histórias que formam o tecido mítico que dá forma e sentido à
vida Rikbaktsa são recontados constantemente pelos mais velhos e até as crianças
se orientam por eles na sua relação com o meio físico e social envolvente,
procurando manter a harmonia de suas atividades com a ordem imanente do cosmos,
retratada nos seus mitos.
A doença é vista como um desequilíbrio resultante da quebra de tabus (isto é,
atos que ferem a harmonia ou a ordem imanente do mundo) ou como produto do feitiço,
ou de envenenamento provocado por algum inimigo. As técnicas curativas
tradicionais se baseiam no uso de inúmeras plantas com qualidades medicinais e
em purificações rituais.
Todas as atividades de caça, coleta, pesca e agricultura se inserem nesse
universo de significação e são ritualizadas no ciclo de cerimônias ritmadas
pelo ano agrícola. Neles, a música, as canções e os enfeites plumários tem
uma importância fundamental, expressando de forma sensível seu universo social
e mítico, suas formas de sensibilidade afetiva, estética e religiosa. No
processo de retomada de sua dignidade étnica, os rituais, a música e as
narrativas míticas revestem-se de importância crucial, expressando e
constituindo o núcleo de coesão e identidade que lhes permite enfrentar as
transformações induzidas pelo contato, sem desintegrar-se como povo de cultura
e história originais.
Há a festa do milho verde em janeiro, a festa da derrubada em maio e festas
menores pontuando toda a seqüência de atividades anuais. O ponto alto do ciclo
ocorre em meados de maio, quando as metades e os clãs aparecem com suas
pinturas corporais, enfeites plumários e toques de flauta característicos.
Nessa ocasião encenam-se episódios míticos e também episódios de lutas
vividas na história recente por homens da comunidade.
Os Rikbaktsa são exímios tocadores de flautas e as canções tradicionais
apropriadas são tocadas em todas as festas.
Situação atual. O genocídio e as pressões
deculturadoras que marcam sua história pós-contato, tendentes a desintegrá-los
como cultura autônoma, desencadearam em contraposição um processo de reordenação
sociocultural, no qual os Rikbaktsa procuram se orientar na tentativa de
encaixar as alterações criadas pelo contato com suas formas tradicionais de
vida social, das quais mantém seus princípios de organização social, grande
parte de suas práticas rituais, de seu conhecimento da natureza, dos usos
medicinais das plantas, enfim, de seu patrimônio cultural.
De um lado, a fragmentação do poder político interno e da organização da
produção e distribuição tem representado uma garantia da autonomia dos
grupos familiares e dos indivíduos dentro da sociedade Rikbaktsa. De outro
lado, porém, tem representado um empecilho a empreendimentos que abarquem a
cooperação continuada de um conjunto maior dentro da sociedade. Assim, em
virtude da multiplicidade de contatos com agências externas de vários tipos,
das novas tarefas e atividades decorrentes do incremento do contato com a
sociedade envolvente, os Rikbaktsa criaram em 1995 a Associação Indígena
Rikbaktsa - ASIRIK - para mediar a organização destes novos empreendimentos
com a estrutura sócio-econômica interna. A ASIRIK é dirigida por um colegiado
formado por representantes de todos os sub-grupos territoriais internos, alcançando
grande representatividade na sua forma geral de deliberação.
A vivência dos problemas relacionados à organização interna para produção
e comercialização, o contato direto com o mercado regional, as soluções
procuradas e testadas, foram um aprendizado intenso e preparatório para uma
nova fase de auto-organização e gestão econômica, fazendo convergir as
estruturas sócio-políticas tradicionais com formas de organização mais
adequadas às relações com a sociedade envolvente.
Há um grande investimento da sociedade Rikbaktsa na educação escolar de seus
membros, principalmente das novas gerações. Há cerca de 20 escolas distribuídas
pelas aldeias, dirigidas por professores indígenas, vários deles diplomados em
cursos realizados fora da área, em projetos de formação de professores
desenvolvidos pelo governo do Estado do Mato Grosso na última década. Tem
procurado também atuar na área de saúde, até recentemente assessorados pela
Missão Anchieta com cursos anuais para formação de enfermeiros e enfermeiras
indígenas, de "práticos" dentistas e microscopistas (para detecção
e tratamento da malária, endêmica na região).
Atualmente, diversificam seus parceiros, procurando desenvolver projetos econômicos,
de educação e de saúde, com apoio tanto dos órgãos governamentais
(municipais, estaduais e federal), como de organizações não-governamentais.
Nota sobre as fontes. As fontes bibliográficas
sobre os Rikbaktsa são todas posteriores ao contato estabelecido pelos jesuítas.
Há os trabalhos e relatórios dos próprios jesuítas no contexto da catequese
e tutela e os dos membros do Instituto Lingüístico de Verão, que também
atuaram entre eles, embora sem a mesma profundidade e presença que os jesuítas
da Missão Anchieta. Dos escritos dos jesuítas, o mais importante, que conta as
expedições de pacificação, os primeiros contatos, fornece uma descrição do
contexto regional, dos Rikbaktsa e de sua situação é o do Pe. João
Dornstaudter, que comandou todo o processo de pacificação. Outros trabalhos
importantes como fonte de informação sobre o estilo de atuação jesuítica na
época são os do Pe. Moura e do Pe. Weber.
Das primeiras descrições etnográficas sobre o povo Rikbaktsa, a melhor é a
do antropólogo Harald Schultz, que lá esteve em 1962, no primeiro ano de
contato pacífico, e que, além do texto preciso, produziu excelentes fotos
publicadas em ambos os artigos.
Descrições etnográficas também são encontradas nos trabalhos de Joan
Boswood, do Instituto Lingüistico de Verão, embora seus trabalhos estejam mais
voltados para o estudo da língua, tal como os de Sheila Tremaine.
Trabalho de maior fôlego é o do antropólogo Robert Hahn, que trabalhou entre
eles no início da década de 1970, produzindo a primeira tese sobre os
Rikbaktsa. Voltada para a análise do sistema terminológico de parentesco,
constitui a primeira etnografia extensa sobre os Rikbaktsa, abordando também a
atuação dos jesuítas e as implicações da catequese religiosa sobre este
povo.
Os trabalhos mais recentes sobre os Rikbaktsa, por hora, são de minha autoria.
Primeiro os relatórios de avaliação de sua situação, no âmbito da avaliação
do Projeto Polonoroeste, entre 1983 e 1988. Conta-se entre eles o relatório de
identificação das áreas indígenas do Japuíra e do Escondido, realizados em
1985. Novo relatório de identificação da área indígena do Escondido foi
realizado em 1993, redefinindo-a e constituindo a base para sua demarcação em
1998. Estes relatórios fornecem uma visão mais conjuntural, ainda que procurem
sempre se apoiar numa perspectiva da história Rikbaktsa.
As pesquisas realizadas com bolsas do CNPq resultaram num relatório de 1988 e
depois em minha tese de doutoramento de 1992. Nestes trabalhos procurei expor o
conjunto de informações históricas e etnográficas que levantei sobre os
Rikbaktsa, e analisá-las na perspectiva do campo teórico da antropologia.
Posteriormente, aprofundei alguns aspectos do seu pensamento no artigo
"Mitos Rikbaktsa". Publiquei outros dois artigos mais conjunturais,
voltados para suas lutas políticas e territoriais e desenvolvi mais uma
pesquisa voltada para uma comparação entre o modelo regional de ocupação do
espaço e uso dos recursos naturais e o modelo Rikbaktsa, além de produzir um vídeo
etnográfico sobre eles.
Em 1985, no contexto da luta pela recuperação da TI Japuíra, houve uma invasão
policial da área, violência física e moral sobre os índios, prisão e
tortura do Pe. Balduíno Loebens, missionário que trabalhava com eles há cerca
de 30 anos e outros abusos. Depoimentos sobre estes acontecimentos e o processo
judicial que se seguiu, do qual os Rikbaktsa saíram vencedores, estão contidos
no Dossiê Rikpaktsa, organizado por Odenir Oliveira, indigenista da
Funai. Por fim, há as obras de autoria dos próprios Rikbaktsa, uma delas
assessorada por Fausto Campoli, na ocasião assessor de educação da OPAN, e a
outra pelo Instituto Lingüístico de Verão.
Rinaldo S.V. Arruda
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
rinaldo@pucsp.br
novembro de 1998
Anambé
| Apiaká | Arara | Araweté
| Asuriní do Tocantins Ashaninka
| Atikum | Bakairí | Bororo
| Enawenê NawêFulni-ô | Galibi
| Galibi Marworno | Guajá | Guajajára
| Javaé Ka'apor | Kadiwéu
| Kaiabi | Karajá | Kariri-Xocó
| Katukina Pano | Krahó | Krenák
| Kwazá | Marúbo | Maku
| Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim
Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
|
Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é