No
estado de Goiás, na região compreendida pelos municípios de Rubiataba e Nova
América, precisamente entre o Ribeirão Carretão e a Serra Dourada, vive um
grupo de pessoas conhecidas pelo nome de tapuio. Sua origem coincide com os
primeiros séculos de formação de Goiás, a descoberta do ouro, a chegada de
colonos e seus escravos africanos, o surgimento de arraiais garimpeiros e,
naturalmente, a resistência dos índios a todo esse movimento. Os tapuios são
o resultado da mescla desses povos e trajetórias de vida. Descendem de diversas
etnias indígenas que fizeram hostilidades à colonização e foram aldeadas
naquela região, como igualmente procedem dos demais outros agrupamentos humanos
que para lá afluíram, isto é, dos negros fugidos da escravidão nas minas de
ouro e, mais tarde, já no início do século XX, das populações migrantes
oriundas do próprio Goiás e estados vizinhos.
Tapuio não é expressão designativa de uma etnia. É muito mais expressão de
identificação por outros moradores da região do que uma auto-identificação,
pois tanto os registros históricos quanto a tradição oral asseveram uma
procedência étnica de índios Xavante, Xerente, Javaé e Karajá que foram
para lá conduzidos a partir do último quartel do século XVIII. Pode-se,
contudo, concordar que este convívio prolongado em torno e em termos
desta precisa forma de relacionamento possa ter incutido e cristalizado nos que
são chamados tapuios a aceitação desta identidade genérica.
Gente,
lugar, história. Quem trafega pela rodovia BR-153
pode apreciar as elevações formadas pela Serra Dourada, as fazendas agropecuárias
e as pequenas cidades que se multiplicaram a partir de 1940, com a criação da
Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG) e a construção das capitais Goiânia
(1942) e Brasília (1960). Não fossem uma e outra edificação de aspecto
antigo à beira da estrada, muito pouco se poderia verificar como marcas históricas
deixadas pela intensa atividade de mineração e povoamento ali desenvolvida
principalmente no século XVIII. Justamente nesta região — antes entremeada
apenas por arraiais garimpeiros como Pilar, Crixás, Tesouras, Ouro Fino, Antas,
Santa Rita e hoje inteiramente alterada pela presença das cidades de Rubiataba,
Valdelândia, Cruzelândia, Ceres e Rialma — vive uma comunidade de pessoas
vinculadas a uma mesma origem indígena e a um passado que remonta aos tempos da
colonização.
Os que chegam ou passam desavisados, sem conhecimento prévio da história da
região, dificilmente farão diferença entre essas pessoas e os demais
moradores que vivem nas mesmas condições de vida sertaneja como lavradores, peões
de fazenda, sendo católicos ou evangélicos e quase sempre com pouca ou nenhuma
instrução. Todavia, a permanência no lugar vai permitindo desembaciar essa
visão inicial e verificar quão significativa é a expressão tapuio como
efeito delimitador e identificador de um conjunto de famílias entrelaçadas por
constantes casamentos de parentes relacionados entre si como descendentes dos últimos
índios que viveram na histórica aldeia do Carretão. Tratar dos tapuios do
Carretão é voltar-se para a história dessa aldeia e da formação do estado
de Goiás.
A aldeia do Carretão foi criada pela administração colonial de Goiás para
receber índios Xavante. A iniciativa buscava refrear suas constantes
incursões aos arraiais garimpeiros que progressivamente vinham invadindo seu
território. O acordo de paz deu-se no contexto de uma política colonial menos
agressiva, que propunha substituir a guerra e escravização de índios hostis
à colonização pela convivência com brancos em aldeamentos construídos à
semelhança de aldeias européias. Estavam em vigor o Alvará de 6 de junho de
1755, que garantia liberdade a todos os índios do Brasil, e o Diretório dos Índios,
que regulamentava esta nova condição jurídica, organizando as povoações indígenas
segundo padrões da civilização cristã européia.
A aldeia foi construída nas encostas da Serra Dourada junto ao Ribeirão Carretão
ou São Patrício, a pouco mais de vinte léguas de Goiás, a antiga capital do
estado. Foi fundada durante o reinado de Dona Maria I, entre 1784 e 1788,
chamando-se inicialmente Pedro III do Carretão, em homenagem ao príncipe
consorte.
Ali teriam sido aldeadas apenas duas frações de uma população
presumivelmente numerosa. Inicialmente fixaram-se no local cerca de 38
pessoas de um grupo Xavante contatado no sertão de Amaro Leite. A esta população
inicial somaram-se os dois mil e duzentos outros índios da mesma etnia trazidos
de regiões vizinhas ao arraial de Pontal. Historiadores afirmam que esta população
logo alcança o número surpreendente (talvez irreal) de cinco mil indivíduos.
Nas primeiras décadas do século XIX, aquela população já tinha sido
drasticamente reduzida a poucas centenas de sobreviventes devido aos surtos epidêmicos
e às grandes fugas motivadas pela inadequação ao modo de vida e ao regime de
trabalho no Carretão. Para contrabalançar essas perdas populacionais, seriam
trazidos índios genericamente denominados Kayapó provenientes de aldeias em
pleno declínio e já em processo de extinção, que foram as de São José de
Mossâmedes e Maria I, também em Goiás. Relatórios provinciais também
registram a presença de índios Javaé, Xerente e Karajá, o que reforça
a convicção de que o convívio de etnias, muitas vezes incompatíveis entre
si, foi um dos fatores motivadores das constantes retiradas e decréscimos
populacionais.
Relatos deixados por viajantes que estiveram no Carretão fazem referência ao
aspecto físico da aldeia. As moradas destinadas aos índios foram construídas
enfileiradas uma ao lado da outra, formando uma rua. A casa maior
destinava-se aos diretores de aldeia e autoridades em passagem pelo lugar. A
capela, localizada dentro da casa do capelão da aldeia, o paiol de mantimentos,
o moinho de milho, o engenho de açúcar, um sistema de canalização e uma
estrada passando em frente à aldeia em direção a Pilar compunham as
demais construções, dando-lhe aspecto de povoação emergente.
A aldeia foi fundada no tempo em que o Diretório dos Índios estava em vigor
(1757-1798). Conforme a orientação daquele regimento, o governo da aldeia
devia ser composto por um diretor, um pároco ou capelão, um capitão-mor indígena
e uma guarnição de soldados. Os índios deviam repartir suas horas e dias de
trabalho entre tarefas relacionadas com os interesses gerais da aldeia — e,
conseqüentemente, do governo de Goiás — e as que se destinavam ao consumo próprio
e de suas famílias. Eventualmente eram requisitados por terceiros para
cumprirem tarefas diversas, como a de remeiros, carregadores e guias de viagem.
Viajantes que estiveram com alguma demora na aldeia do Carretão puderam
observar a continuidade dessa organização, mesmo quando já tinha sido abolido
o Diretório. Os poderes atribuídos ao diretor de aldeia por aquele regimento,
o isolamento do lugar e distância dos centros urbanos faziam a população indígena
aldeada correr o risco de ser transformada em mão-de-obra escrava, a despeito
de uma legislação que garantia liberdade a todos os índios indistintamente.
Isso também explica porque as evasões foram freqüentes na história da aldeia
do Carretão.
Mas nem sempre a aldeia contou com o funcionamento pleno dessa estrutura de
poder e organização do trabalho. Cronistas, naturalistas e autoridades do
governo de Goiás que estiveram no Carretão não deixaram de observar, na ausência
eventual de uma ou outra ou mesmo de todas as representações de autoridade, a
explicação para a estagnação econômica e para um estado quase permanente de
miséria da população indígena. Mesmo assim, não deixariam de registrar a
boa qualidade do solo, a produção de alho, as grandes plantações de café e
a condição do lugar se firmando cada vez mais como pouso de viajantes para
suprirem-se de víveres e de remeiros e guias índios.
Teria sido esta condição o motivo pelo qual a aldeia do Carretão não foi
extinta pelas autoridades governamentais de Goiás, como seriam as do
Duro, São José de Mossâmedes e Maria I. Argumentando o declínio das
atividades produtivas, a falta de recursos financeiros, a ociosidade da população
indígena e mesmo a evasão ou ausência absoluta de índios no lugar, foram
extintos aqueles aldeamentos criados nos séculos XVII e XVIII. Desta vez, já
no século XIX, as atenções do governo de Goiás se dirigiam para a implantação
da navegação dos rios Araguaia e Tocantins e para o povoamento e criação de
atividades agropecuárias nessa nova região.
Os antigos aldeamentos, então localizados em áreas já colonizadas, seriam
motivo de cobiça e disputa fundiária por pessoas interessadas em se apossar de
terrenos doados em tempos passados aos primeiros índios ali aldeados. Para
tanto, a lei n.º 601, de 18 de setembro de 1850, editada com o intuito de
organizar a estrutura agrária do país, prevendo em alguns artigos a
possibilidade de se adquirir terrenos de extintas aldeias, favoreceu a pura e
simples invasão, seja pelo recurso de declaração falsa de que não havia mais
índios no lugar, seja pela perseguição e violenta expulsão dos que
ainda insistiam em lá permanecer.
O Carretão escapou a essas especulações fundiárias que levaram à extinção
desses aldeamentos ainda no correr do século XIX seguramente devido a sua posição
geográfica estratégica para as expedições exploratórias que partiam da
cidade de Goiás em direção ao norte, precisamente a região dos rios Araguaia
e Tocantins. Haverá também quem argumente nos relatórios provinciais o
“parentesco” dos índios aldeados no Carretão com os que então
voltavam a atemorizar, com seus ataques, as povoações e fazendas, o que é
condizente com o testemunho de um naturalista, ao presenciar na mesma
aldeia “índios selvagens” em visita aos seus. O Carretão manteve-se
nesta condição de ponto de referência para os viajantes e, possivelmente, sem
contar com recursos materiais e com a presença permanente de diretores e
religiosos até o fim do século XIX. Um dos últimos relatórios provinciais,
de 1879, ainda faz referência à presença de duas índias remanescentes da
numerosa população Xavante aldeada no Carretão. Daí para frente, um missionário
em visita ao lugar em 1888 também confirma a existência de duas índias,
mas registra a presença de um índio entre elas e de caboclos descendentes de
índias casadas com negros, vivendo em moradas esparsas por toda extensão do
antigo terreno do aldeamento.
As
muitas faces de uma identidade étnica. Eram estas
as informações oficiais sobre a aldeia do Carretão quando uma mulher,
identificando-se como índia Javaé, procura em 1979 a Fundação Nacional do Índio
(FUNAI) para reclamar das arbitrariedades que vinham sendo cometidas com
sua gente que vivia nas proximidades da região onde havia decorrido toda história
da aldeia. Parecia aos funcionários antropólogos dessa instituição
indigenista estar diante de mais um caso de revivalismo étnico, como
muitos que estavam a ocorrer no Nordeste e Leste do Brasil: por um lado, um litígio
fundiário, abuso de chefes locais acobertados por políticos, mas,
por outro, ali estava a sobrevivência étnica, quase heróica, de um grupo
fragilmente unido à custa das próprias discriminações a que estão sujeitos
como descendentes indígenas, sem contar com a proteção oficial dada pelo
governo brasileiro aos índios reconhecidos como tais, vivendo nas mesmas condições
de qualquer lavrador pobre, com a distinção de serem identificados como
herdeiros de uma terra doada aos seus ancestrais, que era indistintamente cobiçada
por todos, humildes e poderosos.
As primeiras viagens da FUNAI (1979 e 1980) aos arredores da sede da antiga
aldeia permitiram confirmar a semelhança da situação com a de outros grupos
indígenas que viviam em antigas áreas de colonização e que detinham em sua
bagagem histórica diversas experiências civilizadoras realizadas com seus
ancestrais. A aldeia do Carretão, no entanto, parecia configurar um
caso-limite, uma vez que a sua população remanescente já não detinha nada da
cultura ancestral; seus traços físicos não os distinguiam de outros
sertanejos e, em termos organizacionais, tudo parecia indicar uma iminente
fragmentação da comunidade em pequenas famílias e indivíduos isolados, bem
como a sua dispersão geográfica por fazendas e centros urbanos. A própria
história confirmava essa sentença inexorável, começando pela fundação
da aldeia no tempo de uma política que propunha exatamente a assimilação
total dos índios pelo uso exclusivo da língua portuguesa, a adoção de hábitos
e crenças da civilização cristã européia e seu adestramento a serviço da
colonização.
A rebeldia e fugas freqüentes demonstram quão penoso deve ter sido esse
processo. Os índios que permaneceram reproduziram-se nas condições impostas.
Seus descendentes nasceram e se criaram sem conhecer a situação anterior. Como
esperar que, passados duzentos anos de pressões assimiladoras, continuassem
eles a ser como seus ancestrais?
A resposta não parece simples e breve. Uma representante deles esteve na
FUNAI chamando a si e aos demais através de seus referenciais étnicos
mais antigos: não foi como tapuia que ela se identificou (embora tenha chamado
o lugar onde vivem de Terra dos Tapuios) e sim Javaé, numa referência direta a
uma das etnias que estiveram presentes na aldeia do Carretão. Tapuio,
tapuia, são nomes atribuídos a eles pelos moradores da região, vizinhos,
fazendeiros, arrendatários, pessoas com quem conviviam e muitas vezes se
confrontavam na luta diária pela permanência nas terras doadas aos seus
ancestrais. Se indagadas essas pessoas sobre o que queriam dizer quando os
chamavam de tapuios — visto alguns moradores mais antigos reconhecerem neles
certa descendência Xerente ou Xavante — respondiam que não eram exatamente
índios e sim aquela gente específica. Indagados novamente sobre os
motivos de somente aqueles serem chamados tapuios, respondiam ora
classificando-os mediante noções idealizadas do que sejam e fazem os índios,
isto é, que gostam de pescar, caçar, cultivam roças irregulares, não têm
ambição, não guardam mantimentos etc., ora definindo-os no contexto das
contendas diárias como pessoas traiçoeiras, que armam tocaias.
Tapuio era expressão fiel de uma sucessão de discriminações e
desajustamentos sociais que nem os situavam na condição de índios, nem
tampouco de não-índios, uma ambivalência que suscitava a irônica descrença
por parte de quem os ameaçava quanto ao real merecimento de uma assistência e
proteção oficial. Na ausência de sinais que evidenciassem uma bagagem
cultural indígena, os tapuios credenciavam-se diante da FUNAI através de sua
história, uma trajetória de luta pela terra, narrando cada um à sua maneira a
história de suas vidas, a perda da terra, as arbitrariedades cometidas contra
eles, a coragem solitária de alguns parentes servindo às gerações seguintes,
a exemplo daquela mulher que esteve em Brasília a fazer denúncias e a pedir
proteção.
A
história oral de luta pela terra. No início dos
anos 80 havia ainda tapuios idosos que representavam o elo de ligação entre as
gerações contemporâneas e os parentes que viveram na histórica aldeia do
Carretão. O mais velho deles, Manuel Simão Borges de Aguiar, afirmando possuir
97 anos em 1980, começa a tecer as mais remotas lembranças a partir de umas
“tapuias velhas”, possivelmente as duas índias referidas nos últimos relatórios
provinciais, casadas com negros vindos das minas de Pilar, que deram origem às
famílias atuais. Ele não possuía referenciais negativos quanto à atuação
de diretores e religiosos. A representação tutelar que detinha era uma
construção idealmente positiva, associada a agrados, brindes, proteção
e vida regular. Contou que os antigos trabalhavam coletivamente sob as
vistas de um fiscal em “roças reúnas”, certamente as grandes plantações
registradas pelos cronistas viajantes. Deviam remeter a produção para a cidade
de Goiás, onde havia um diretor geral, uma informação que se coaduna
com a lei n.º426, de 24 de julho de 1845, que organizou o trabalho junto aos índios
prevendo uma estrutura hierárquica de representações tutelares nas aldeias e
nas capitais de cada província. Referiu-se à existência da aldeia do Carretão
onde hoje é uma fazenda. Como a descreveu e puderam os funcionários da FUNAI
verificar, a aldeia ficava próxima ao ribeirão Carretão, havendo ainda ruínas
de um curral de pedras, um rego d’água, peças do moinho ou engenho e indicações
do local que fora um cemitério. Simão conta que chegou a assistir a última
grande retirada de índios da aldeia do Carretão, uma “parenteza” que se
dirigiu sem voltas a Leopoldina (atual Aruanã, GO) à procura de novas
paragens.
Daí para frente focaliza a família imediata, irmãos, irmãs e primas, todos
descendentes das índias Raimunda Borges, de origem Xavante e Javaé, e Maria do
Rosário Ramos Machado, descendente Kayapó e de seus pais negros, Manuel Felipe
de Aguiar e Ivo Lopes, escravos fugidos das minas de Pilar ou talvez recém-libertos
pela lei Áurea de 1888. Viviam todos no Retiro, próximo ao lugar onde fora a
aldeia. O casamento de Simão com a criada de um forasteiro havia permitido a
entrada deste na localidade onde fora a sede da aldeia, como se ele houvesse
adquirido um direito de posse. Este indivíduo vende o direito de posse a um
segundo, que o requer para titulação, em 1923, conforme os procedimentos que
estavam em vigor desde a Lei Agrária n.º 601, de 1850, e que haviam conduzido
à extinção muitos aldeamentos. Felizmente, em 1930, uma delegação de
índios do Carretão recorre à Inspetoria criada em Goiás pelo Serviço de
Proteção aos Índios (SPI) em 1911, para demonstrar que a aldeia não estava
despovoada e extinta.
Alguns anos depois, esse mesmo direito de posse é vendido a um terceiro, que
volta a requerer título definitivo. O momento é carregado de tensão. Este
requerente, através de seu advogado, procura comprovar a inexistência de índios,
alegando evasão dos mais puros e miscigenação dos que permaneceram. Um
advogado prontifica-se a fazer a defesa dos índios, como também alguns
servidores da Inspetoria de Goiás chegam a dedicar-se à questão, mas foram
todos derrotados pelo requerente, que detinha parentesco e amizade com Antônio
Ramos Caiado, chefe político local, proprietário de extensas pastagens e
sucessivas vezes senador e governador de Goiás. A perda do terreno do Carretão
foi seguida por perseguições violentas, a expulsão de famílias que ousaram
resistir, o confisco de seus bens, a derrubada da capela, prisões arbitrárias,
desarmamento e a própria morte do requerente por um tapuio em nome da honra
ferida.
Em 1942, Simão e familiares, em viagem com intuito inicial de chegar ao Rio de
Janeiro, são interceptados em Anápolis e de lá conduzidos ao interventor de
Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, que resolve a contenda assegurando-lhes duas
glebas de terras. O texto da Lei estadual n.º 188, de 19 de outubro de 1948,
que concede estas terras, refere-se a “descendentes de índios
Xavante”, citando o nome de cada um e não deixando dúvidas quanto à
legitimidade da posse por Simão, irmão, irmãs e prima que estiveram nessa
viagem. Segundo a tradição oral, eram apenas frações do que foi um
terreno de quatro léguas em quadra.
Com os episódios violentos da capela, perderam para sempre a realização da
festa do Rosário, que congregava devotos e romeiros de regiões vizinhas numa
manifestação de plena acomodação desses descendentes indígenas ao modo de
vida e às tradições sertanejas, especialmente as que ex-escravos
cristianizados organizavam em torno de irmandades religiosas. Entretanto, os
contatos com outros índios não cessaram. Simão conta a vez em que
receberam uma comitiva de índios Xerente que ia para o Rio de Janeiro com a
intenção de ver “papai grande”, o então presidente Getúlio Vargas. Um
desses Xerente daria informação sobre o paradeiro dos Xavantes que saíram do
Carretão, contando a Simão que havia estado na expedição de Francisco
Meireles, que foi o sertanista responsável pelo reinício dos contatos com este
grupo após século e meio de aguerrida recusa ao convívio com os brancos.
Outras visitas foram relatadas e demonstram que a posição do
Carretão, a meio caminho das regiões do Araguaia e Tocantins, havia se mantido
como ponto de referência para viajantes índios, ciganos e comerciantes
ambulantes que ainda faziam esse percurso a pé ou em lombo de burro.
Foi mantida a posse das duas glebas, especialmente a maior, onde Simão
instalou-se, atraindo posteriormente seus sobrinhos e sobrinhas após a morte
das irmãs, que viviam no Retiro em área abrangida ou limítrofe com a segunda
gleba assegurada pelo governo de Goiás e totalmente invadida desde os
anos 40. Se forem situadas num mapa regional todas as moradas dos tapuios desde
que deixaram a aldeia do Carretão, instalando-se no Retiro e depois na gleba
maior onde correm os córregos Macaco, Carretãozinho e Passarinho, poder-se-á
verificar que houve um recuo em favor dos fazendeiros e uma perda progressiva e
sem voltas do antigo terreno.
Paralelamente outras perdas sucedem. Enquanto Simão esteve forte, chefiou seus
parentes na produção de roças. Repartiu entre ele, seus filhos e
sobrinhos, lotes de terras onde faziam suas moradas e roças menores à medida
que estes foram constituindo famílias, então acrescidas da presença de
emigrantes atraídos à região pelos movimentos populacionais desencadeados
pela CANG e pelo surgimento de núcleos urbanos diversos. Simão envelhece e com
ele as expectativas de conservarem as mesmas formas cooperativas de trabalho e
as tradições religiosas e recreativas do início do século XX, que tanto
haviam propiciado autoconfiança e união dos parentes.
O casamento com emigrantes foi um fator que levou à transferência gradativa da
posse dos terrenos, que passaram a ser arrendados, alugados ou vendidos para se
transformarem em pastagens. A mulher que esteve pela primeira vez na FUNAI
contara exatamente em poucas palavras os duzentos anos da trajetória de
transformação paulatina de índios Xavante, Javaé, Kaiapó, Karajá,
Xerente, que passam a ser tapuios e progressivamente também vão perdendo
sua autonomia tribal, sua herança cultural, suas terras.
Mas o passado de cunho mitológico dos tapuios não remonta aos tempos
imemoriais de seus ancestrais que dominavam um território vastíssimo,
correspondente a uma boa parcela do atual estado de Goiás. O passado dos
tapuios coincide com o da fundação da aldeia do Carretão, quando perdem sua
autonomia tribal e são incorporados às atividades colonizadoras que contribuíram
para a formação do estado de Goiás. A rainha Dona Maria I, o imperador Dom
Pedro II, o presidente Getúlio Vargas, o interventor Pedro Ludovico, o inspetor
Mandacaru são personagens benfeitores que revalidaram a posse do Carretão em
diversas ocasiões. A ação de ir à procura de um órgão governamental que
trata especificamente dos índios estava coerente com essa tradição oral que
os conduziu para o único caminho que conheciam e poderiam tomar antes que
viesse acontecer o seu desaparecimento total como etnia, em razão da fusão de
distintos grupos indígenas que viveram intensa experiência transformadora em
sua essência original.
Aspectos
contemporâneos e perspectivas para o futuro.
Em 1979, quando funcionários da FUNAI começaram a freqüentar o Carretão,
ainda encontraram algumas condições que lembravam os registros feitos por
observadores no fim do século XIX e início do século XX. A região continuava
isolada pela falta de meios de comunicação e de luz elétrica. A antiga
estrada sem pavimentação ainda passava sinuosa pelo terreno do aldeamento,
servindo aos pedestres, animais, e eventualmente aos poucos fazendeiros da
região que dispunham de carros.
Os centros urbanos mais próximos eram Nova América e Rubiataba e deviam ser
alcançados a pé. O grupo escolar, administrado pela prefeitura de Rubiataba,
mantinha um professor aparentado a um dos fazendeiros que haviam se apossado das
terras do aldeamento. As famílias dos descendentes indígenas encontravam-se
espalhadas pelo que foi o terreno do aldeamento, então inteiramente ocupado por
terceiros com suas fazendas, pastos e roçados.
Não pareciam nem se comportavam como herdeiros legítimos daquelas terras.
Mantinham-se humildes e servis, às vezes na condição de peões sem terra a
serviço de fazendeiros que descendiam em linha direta dos que haviam requerido
ou simplesmente se apossado do terreno. Alguns mais afortunados os serviam como
vaqueiros. A outra parte assumia a difícil empreitada de derrubar matas,
fazer roçados duas ou mais vezes para ao final plantar o capim, entregando ao
proprietário o pasto formado e voltando a ser o mesmo lavrador de sempre,
sem-terra, sem haver acumulado nada para si e cada vez mais desgastado
fisicamente.
Os tapuios que permaneciam vinculados às glebas doadas pelo governo de Goiás
haviam feito acordos com terceiros em troca de mantimentos ou de algum dinheiro
em espécie, tornando-se progressivamente dependentes, pois ficavam sem terras
para cultivar seus roçados e presos por períodos longos a cláusulas
contratuais fraudulentas passadas desapercebidas pela falta de malícia ou
analfabetismo dos donos dos lotes. Outros acabavam por vender suas partes nas
glebas, movidos pela esperança de mudança para a cidade ou simplesmente
iludidos pela expectativa de receber algum dinheiro que, pela sua raridade,
exercia fascínio e provocava embriaguez.
A presença da FUNAI na região — instalando uma representação
administrativa no lugar, passando a cuidar do atendimento médico, sanitário e
providenciando uma orientação educacional mais compatível com a realidade
social e cultural dos tapuios — foi decisiva para suspender essa tendência à
fragmentação e perda das terras. Sua ação visando a sanar os conflitos fundiários
e a revalidar os direitos dos tapuios às terras do Carretão tendeu, contudo, a
só considerar legítima a posse das duas glebas doadas pelo governo de Goiás
em 1948. Foi realizada a demarcação da segunda gleba, que teve sua área
original reduzida de 98 para 77,5043 hectares, e da primeira gleba que foi
ampliada de 1.430,4780 para 1.666,4512 hectares, concluindo-se o processo
administrativo pela homologação da demarcação através da edição dos
Decretos n.º 98.825 e n.º 98.826, de 15 de janeiro de 1990, e seu registro nos
cartórios municipais.
Quanto às terras da sede da antiga aldeia que foram apossadas violentamente,
continuam sob o controle da família do requerente. Cemitérios e outras áreas
relacionadas ao terreno do antigo aldeamento também foram excluídas desta nova
demarcação, ainda em processo inconcluso de regularização fundiária devido
a pendências de ordem jurídica que vêm permitindo que os invasores
mantenham-se nas áreas até que o julgamento final decida pela sua saída ou
permanência.
Essa é uma história que vem se repetindo em cada canto do país, às vezes sem
que haja observadores para o registro. Enquanto tal situação fundiária
perpetua indefinições, cansaço e desesperanças, ocorrem movimentos
paralelos. De um lado, muitas famílias de tapuios continuaram sua trajetória
em busca de novas alternativas, entendendo o deslocamento para as fazendas e
depois para os centros urbanos como uma solução. Este é o caso de 131
pessoas, que compõem 39 unidades domésticas em fazendas ou cidades,
conforme Christian da Silva (1998). Contudo não se distanciam de seus parentes
que permanecem no Carretão, que são 104 indivíduos, que formam 27 unidades
domésticas, de acordo com o mesmo pesquisador. Pelo contrário há uma comunicação
permanente. Essas famílias tenderam a estabelecerem-se próximas umas das
outras, reproduzindo no ambiente urbano a lealdade étnica e a reciprocidade em
serviços diversos que operavam bem enquanto estiveram nas terras do
Carretão. Os que vivem hoje no Carretão apresentam uma nova face. São
principalmente jovens recém-casados e, com alguma freqüência, preferindo o
casamento entre eles mesmos enquanto primos, isto é, filhos, netos e bisnetos
dos que lutaram pela permanência nas terras e que têm seus nomes citados um a
um na lei estadual que assegurou as duas glebas. Isso parece indicar um
movimento de identificação voluntária como parte de uma etnia, seja esta
Xavante, Javaé, Kayapó, Karajá, Xerente ou genérica e simplesmente
denominada tapuia, como assim tem sido registrada pela FUNAI e pela
diocese de Rubiataba, ou ainda, tapuios, como eram conhecidos na região antes
de decorrer todo esse processo de revalidação de seus direitos fundiários.
Chamados por tantos nomes, nenhum tem sido suficientemente abrangente e
expressivo das grandes transformações por eles vividas. Caberá deixar a eles
próprios a decisão sobre como querem ser chamados e quais caminhos desejam e
poderão trilhar. O trabalho da diocese de Rubiataba, através do Conselho
Indigenista Missionário (CIMI), promovendo o contato deles com outros índios,
a presença permanente da FUNAI na área, os deslocamentos freqüentes de cada
um deles para tratamento de saúde nas administrações regionais desse órgão
em Goiânia, Araguaína, Gurupi, ou mesmo Brasília, funcionam como
escolas-teatro acerca de um modo de ser indígena que irremediavelmente haviam
perdido nesses duzentos anos de contato com a nossa sociedade. Mas o caminho que
os levará a serem plenamente brasileiros, usufruindo de todos os direitos de
cidadãos sem deixarem de ser o que são, talvez seja o modo de ser sertanejo,
mesclando contribuições culturais de índios, negros e brancos que já
convivem há séculos.
Nota
sobre as fontes. Estudar o Carretão é uma forma
de estudar a própria história da formação de Goiás. Sobre os
primeiros anos de criação da capitania, vale consultar a coletânea de
“Cartas dos Governadores de Goiás” (do período de 1756 a 1806). Duas
leituras clássicas são ponto de partida para qualquer pesquisa sobre Goiás:
“Descobrimento da Capitania de Goiás”, de Silva e Souza, e “Os Anais da
Província de Goiás”, de Alencastre. Ainda correndo os olhos sobre aspectos
históricos, geográficos, políticos e sociológicos de Goiás, mas com seguras
possibilidades de encontrar notas específicas sobre a aldeia e os índios do
Carretão, temos os viajantes, naturalistas, funcionários civis e militares, e
missionários religiosos:, Viagem ao Interior do Brasil, de Emanuel Pohl, que
esteve no Carretão em 1819; Corografia Histórica da Província de Goiás, de
Cunha Matos; Expedição às Regiões Centrais da América do Sul,
de Francis de Castelneau; O Selvagem, de Couto de Magalhães; e O Apóstolo do
Araguaia, de Gallais, sobre a vida de Frei Gil Vilanova, que visitou o
Carretão em 1888.
A leitura de todos os Relatórios da Província de Goiás, de 1835 a 1888,
principalmente os itens “incursões”, “aldeamentos” e “catequese”,
fornece informações pontuais muito curiosas a respeito da população índia
aldeada, condições de vida, problemas de ocasião, representantes tutelares,
recursos financeiros, necessidades materiais, projetos relativos ao destino da
aldeia do Carretão, entre outros temas recorrentes. Há microfilmes de todos os
relatórios provinciais na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Ainda
na Biblioteca Nacional encontra-se o documento intitulado Relação da Conquista
do Gentio Xavante, 1790, que traz uma narrativa detalhada das primeiros contatos
e acordos firmados com os índios Xavante aldeados no Carretão no século
XVIII. No Arquivo Histórico de Goiás, em Goiânia, há um valioso documento
relativo à fundação da aldeia do Carretão. Trata-se da Carta de José Pinto
da Fonseca ao Governador Tristão da Cunha Menezes anunciando a chegada de 2.200
índios Xavante no dia 13 de janeiro de 1788. No Museu do Índio, no Rio
de Janeiro, e no Arquivo Histórico Clara Galvão do Departamento de Documentação
da FUNAI, em Brasília, encontram-se microfilmes relativos à Inspetoria de Goiás,
e especificamente telegramas e dois preciosos relatórios sobre a aldeia do
Carretão referentes aos episódios violentos que culminaram na perda quase
total do terreno do aldeamento no início do século XX (microfilmes números
273, 277, 293, 323, 324, 341).
Referências fundamentais para quem estuda a história dos índios Xavante e da
política indigenista em Goiás são: Os Xavantes e a Civilização, de Lincoln
Souza; Os Aldeamentos Indígenas na Capitania de Goiás, de Marivone
Chaim; a tese de doutorado A Experiência Xavante com o Mundo dos Brancos, de
Oswaldo Ravagnani; e Os Índios e a Civilização, de Darcy Ribeiro,
especialmente a parte que trata do litígio fundiário no Carretão (pp. 65-66).
A dissertação de mestrado de Neide Esterci, O Mito da Democracia no País das
Bandeiras, traz excelente enfoque sobre a criação da CANG. Vale consultar os
estudos contemporâneos a essa situação histórica realizados pelo geógrafo
Leo Waibel, Capítulos de Geografia Tropical e do Brasil. Exame detido da lei
agrária 601 de 1850 encontra-se na dissertação de mestrado de Maria Amélia
Luz Estrutura Fundiária de Goiás.Estudo específico sobre a identidade étnica,
história oral e política indigenista tendo como referência o caso do Carretão
encontra-se na dissertação de mestrado de Rita Heloísa Almeida Lazarin,
O Aldeamento do Carretão: Duas Histórias. Nos arquivos da Diretoria Fundiária
da FUNAI existem três caixas contendo relatórios, fotos, mapas produzidos
durante os estudos de identificação e regularização fundiária das terras do
Carretão (processos números FUNAI/BSB/2015/80; “P/F/GYN/0133/87”
GYN/00130/88; 0042/92; Informação n. 28/DPI/28.06.95 e n. 38/DPI/16.09.97).
Atualmente há pesquisadores do Instituto Goiano de Pré-história e
Antropologia da Universidade Católica de Goiás e do Departamento de
Antropologia da Universidade de Brasília realizando estudos no Carretão.
Da Universidade de Brasília, Christhian Teófilo da Silva produziu uma série
de trabalhos universitários muito rica em novos questionamentos, entre eles,
sua dissertação de graduação Parados, Bobos, Murchos e Tristes ou 'Caçadores
de Onça?'.
Fontes
de Informação
Rita Heloísa de Almeida
FUNAI
ritaheloisa@zaz.com.br
maio de 1999
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