Nome. Timbira é o nome que designa um
conjunto de povos: Apanyekrá, Apinayé, Canela, Gavião do Oeste, Krahó,
Krinkatí, Pukobyê. Outras etnias timbira já não se apresentam como grupos
autônomos: os pouco numerosos Krenyê e Kukoikateyê vivem entre os Tembé e
Guajajara, que falam uma língua tupi-guarani (Tenetehara); os Kenkateyê,
Krepumkateyê, Krorekamekhrá, Põrekamekrá, Txokamekrá, recolheram-se e se
dissolveram entre alguns dos sete povos timbira inicialmente enumerados.
Alguns desses povos, apesar de distintos, são conhecidos pelas mesmas denominações.
A três deles é aplicado o termo Canela: Ramkokamekrá, Apanyekrá e Kenkateyê.
Desses três grupos vizinhos, do sul do Maranhão, o último desapareceu devido
à destruição de sua aldeia e aniquilamento de seus habitantes por um
fazendeiro, em 1913. Cada vez mais o termo Canela tem sido usado para designar
principalmente o primeiro, que está abandonando o nome Ramkokamekrá. Na
verdade, Canela vem a ser a abreviação de Canela Fina, termo que no início do
século XIX era aplicado aos "Capiecrans". Esse último termo, hoje não
mais usado, referia-se aos Ramkokamekrá.
Pelo nome Gavião, por sua vez, costuma-se designar três outros grupos timbira,
Krinkati, Pukobyê e Gaviões do Oeste, com mais freqüência o terceiro e com
menos o primeiro. Eles também mantêm uma certa proximidade espacial, os dois
primeiros no oeste do Maranhão, na borda da floresta amazônica, e o último no
leste do Pará, dentro dela. Esse tipo de vegetação permitiu aos grupos
maranhenses resistir por bastante tempo às expedições que contra eles
marchavam. O grupo paraense, por sua vez, recusou o contato com os brancos por
muito mais tempo ainda, só o aceitando no início da segunda metade do século
XX.
O nome Krenyê também se aplica a dois povos. O primeiro vivia na proximidades
da localidade maranhense de Bacabal, no baixo Mearim, não havendo notícias de
pessoas que hoje se identifiquem como a ele pertencentes. O outro vivia no médio
Tocantins e transferiu-se para o rio Gurupi, tendo vivido algum tempo junto a um
afluente deste, o Cajuapara.
O significado de seus nomes indígenas é indicado nos seus respectivos
verbetes.
Quanto ao nome mais geral, Timbira, Curt Nimuendaju, o etnólogo pioneiro no
estudo desses povos, admite que, se for de origem tupi, então pode significar
"os amarrados" (tin = amarrar, pi'ra = passivo), uma referência às
inúmeras fitas de palha ou faixas trançadas em algodão que usam sobre o
corpo: na testa, no pescoço, nos braços, nos pulsos, abaixo dos joelhos, nos
tornozelos. Mas vários desses grupos chamam a si mesmos de Mehím.
Língua. Esses diferentes grupos étnicos falam uma só língua, a timbira, que pertence à família jê, certamente com algumas diferenças dialetais entre si. O dialeto mais divergente é o dos Apinayé, que talvez possa até ser considerado outra língua, embora os outros Timbira não pareçam ter dificuldade em entendê-lo. Também são os Apinayé os que mais divergem quanto à cultura. Como os únicos que ficam a oeste do Tocantins, são chamados de Timbira Ocidentais, em contraposição aos demais, os Timbira Orientais. Em qualquer dos povos timbira da atualidade, os homens, além da língua indígena, falam fluentemente o português; as mulheres, mesmo quando não o falam, entendem. É bem provável que os Krenyê e os Kukoikateyê não mais façam uso da língua timbira.
Localização. Os grupos timbira se localizam no sul do Maranhão, leste do Pará e norte do Tocantins. Os que estão mais para sudeste, habitam uma área relativamente plana, interrompida por morros de paredes verticais e cimos chatos, muitas vezes escalonados, coberta pelo cerrado, cortada por cursos d'água ao longo dos quais se estendem matas-ciliares. Os situados mais para noroeste, ficam na transição do cerrado para a floresta amazônica, como os Apinayé, Pukobyê, Krinkatí, Kukoikateyê, ou já dentro desta, como os Gaviões do Oeste e os Krenyê.
História do contato. O contato com os civilizados
data do século XVIII. Em 1728 registra-se uma grande invasão timbira na
localidade de Oeiras, então capital da capitania do Piauí. Porém, já na
segunda metade do mesmo século não há mais notícia de presença timbira a
leste do rio Parnaíba. Foram as fazendas de gado em expansão da Bahia para o
Piauí e daí para o Maranhão que entraram em choque com eles, empurrando-os
para oeste.
No norte do Maranhão, área florestal, desenvolviam-se então as grandes plantações
de arroz e algodão. Essa atividade também fazia pressão sobre os Timbira,
porque necessitava de escravos para as plantações e para os descaroçadouros
de algodão. Um outro mercado de escravos era Belém, que se comunicava com a
região timbira por meio do rio Tocantins. Favorecia a escravização dos
Timbira uma Carta Régia de 5 de setembro de 1811, que permitia a escravidão
temporária dos índios do Tocantins e Araguaia que resistissem aos
colonizadores. Os índios eram combatidos por tropas constituídas de civis e
militares e ainda por índios cooptados, como os Krahó. O conhecimento desse
período nos é dado principalmente pelas memórias escritas pelo comandante
militar Francisco de Paula Ribeiro, que combatia os índios, mas não aprovava
as ciladas, promessas não cumpridas e escravidão imposta àqueles que se
mostravam propensos a estabelecer relações pacíficas.
A conquista das terras timbira pelos brancos se efetivou em sua maior extensão
no primeiro quartel do século XIX, dentro de um grande vácuo jurídico, ou
seja, entre a extinção do Diretório dos Índios pombalino na última década
do século precedente e a primeira disposição legal referente a índios do
Brasil independente, que somente ocorreu no Ato Adicional que emendou a
Constituição do Império em 1834. Entre esses dois limites, apenas a retrógrada
Carta Régia de 1811, que permitia a escravidão de índios hostis do Araguaia e
Tocantins por dez anos ou mais enquanto durasse sua "atrocidade". Nada
de concessões de léguas em quadra pela Coroa Portuguesa; nada de aldeamentos
criados pelo governo, como se fazia no século XVIII.
As disposições levadas a efeito no tempo do segundo imperador alcançaram de
modo muito diluído os Timbira e não impediram que ficassem à mercê dos
interesses dos criadores de gado e comerciantes regionais: a retomada das missões,
sobretudo com capuchinhos italianos, a partir de 1845; as diretorias provinciais
dos índios; as colônias militares. Na área florestal, as exportações de
algodão e arroz do norte maranhense caíram, dando lugar a uma época de
estagnação, depois que os Estados Unidos voltaram a produzi-los, ultrapassado
o período bélico que prejudicara o comércio norte-americano (a guerra da
independência, o bloqueio continental napoleônico e a chamada segunda guerra
da independência).
Talvez não seja exagero dizer que, após os grandes choques armados do começo
do século XIX, a história dos povos timbira é um contínuo definhar que dura
até meados do século seguinte. Os remanescentes das diferentes etnias que
sobravam após massacres, epidemias, expulsão da terra, iam engrossar a população
daquelas que não estavam, temporariamente, enfrentando tais problemas,
dando-lhes um reforço na manutenção da cultura timbira.
É possível distinguir três situações de contato com base na principal
atividade econômica regional: a) os que tiveram contato com as fazendas que
fazem criação extensiva de gado, que dispensam a contribuição de muitos
trabalhadores, ficaram à margem da atividade pecuária e não raro têm sido os
mais hostilizados por ocuparem terras necessárias à expansão desses
estabelecimentos e por transformarem em alvo o gado que ocupou suas áreas de caça.
Mas, por outro lado, são os que mais guardaram do modo de vida tradicional. Sem
trabalho que lhes produza um rendimento monetário que lhes permita comprar
artigos industrializados, tentam consegui-los por meio das longas viagens às
grandes cidades. É o caso dos Apanyekrá, Krahó, Pukobyê e Krinkati; b)
aqueles que, habitando a floresta, se viram diante de uma frente extrativa de um
produto de alto valor comercial, ao inserirem-se nesta atividade, modificaram
rapidamente sua cultura. É o caso dos Parkatêjê, que, estabelecendo contato
pacífico com os brancos, coletores de castanha-do-pará, somente por volta de
1955, têm hoje sua cultura indígena muito mais modificada do que os Timbira
que estão há quase dois séculos em contato com as fazendas de gado; c)
aqueles que puderam participar da extração de um produto de valor comercial
mediano, garantindo-lhes um suprimento de artigos industrializados não muito
grande, mas constante, mantiveram boa parte de suas tradições, mas não tanto
como os que estão ao lado da atividade pecuária; é o caso dos Apinayé, que
extraem o coco babaçu, embora os Timbira das vizinhanças do rio Gurupi que
participam da extração do óleo da copaíba estejam numa situação diferente,
e pouco conhecida.
Obviamente, esse é um modo de ver pautado nas perspectivas etnológicas de
meados do século XX, quando se consideravam as mudanças nas culturas indígenas
de acordo com a frente econômica que com elas fazia contato. Hoje é preciso
levar em conta outras formas de contato, como as grandes obras de
infra-estrutura que, no caso dos Timbira, afetaram direta ou marginalmente
sobretudo o noroeste florestal da região em que vivem: a rodovia Belém-Brasília,
a ferrovia Serra de Carajás-Itaqui; a hidrelétrica de Tucuruí; as linhas de
transmissão de energia; as grandes empresas agro-pecuárias.
Dispersão e coalescência dos povos Timbira. Já se
disse da distinção entre os Timbiras Orientais e Ocidentais. Curt Nimuendajú,
com base em diferenças dialetais, que correspondem também a uma distribuição
geográfica, classificou os primeiros em dois conjuntos, um ao norte e outro ao
sul.
Os Timbira Orientais do norte são aqueles que viviam nos cursos inferiores dos
rios Mearim e Pindaré, no Maranhão. No Mearim eram os Krenyê de Bacabal (núcleo
urbano junto ao qual estavam), os Kukoikateyê e, possivelmente, os "Pobzé".
Quanto aos do baixo Pindaré, as fontes não lhes deixaram os nomes. Os Krenyê
de Bacabal e os "Pobzé" começaram a apresentar-se pacificamente
diante dos moradores dessa localidade em meados do século XIX, de modo que o
governo criou a colônia de Leopoldina (no médio Grajaú) para eles e para os
Kukoikakateyê. Aí, em 1855, foram afligidos por uma febre epidêmica, que
matou muitos e fez outros fugirem. Em 1862 ainda havia em Leopoldina 336 Timbira
do Mearim, dos quais 87 eram Krenyê, 158 eram Kukoikateyê e 91 eram "Pobzé".
Em 1919 os Krenyê moravam em Cajueiro, em número de 43, enquanto os Kukoikateyê,
em número de 30, moravam no local chamado Santo Antônio. Quando o etnólogo
Curt Nimuendaju escrevia seu livro The Eastern Timbira, publicado em 1946, os
Krenyê e os Kukoikateyê ainda moravam em localidades próximas, na floresta, a
certa distância da margem direita do baixo Grajaú; quanto aos "Pobzé",
ele os dava por extintos. Destes três povos há atualmente apenas
representantes dos Kukoikateyê, que vivem na Terra Indígena Geralda/Toco
Preto, cortada pelo rio Grajaú, no município de mesmo nome, junto com índios
Guajajara. Os dados sobre a população dessa terra indígena dão 72 habitantes
para o ano de 1990, sem distinguir uma etnia da outra.
Por sua vez, os grupos timbira do baixo Pindaré, a partir de meados do século
XIX, começaram a migrar para oeste. Em 1862 havia de 100 a 150 desses migrantes
no rio Gurupi, que separa o Maranhão do Pará. Explorados por um civilizado,
afastaram-se deste rio, mas a ele retornaram em 1889, reincidindo na situação
de viver sob a influência de um outro civilizado. Em 1900, receberam mais
migrantes timbira do Pindaré, que tinham sobrevivido a um ataque dos Guajajára
ajudados por seringueiros. Sofreram um ataque dos Kaapór
em 1903, depois um surto de sarampo, até se fixarem no Araparitíua, um
afluente da margem paraense do rio Gurupi. Curt Nimuendajú aí os visitou em
1914-1915, contando 41 indivíduos. Ainda chegou a ver restos das máscaras que
haviam usado num rito realizado antes de sua visita, no qual também fizeram
corridas de toras. Entretanto, tinham abandonado o cultivo da terra para
dedicarem-se à extração do óleo de copaíba, trabalhar para seringueiros ou
prestar serviços de remadores. Em 1919 eram 43. Esses Timbira do Araparitíua,
como Nimuendajú os denominou, foram transferidos posteriormente para Posto
Felipe Camarão, junto à foz do rio Jararaca, afluente da margem maranhense do
mesmo Gurupi, mais ao norte, destinado aos índios Tembé, ficando reduzidos a
uns poucos sobreviventes.
O conjunto dos Timbira Orientais do sul, inclui os Krenyê do Cajuapara, os
Krinkati, os Pukobyê, os Gaviões Ocidentais, os Krepumkateyê, os Krorekamekrá,
os Põrekamekrá, que no início do século XIX ficavam entre o Mearim e o
Tocantins, e os Krahó, Kenkateyê, Apanyekrá, Canela e Txokamekrá, que na
mesma época ficavam entre o Mearim e o Itapicuru.
Os Krenyê do Cajuapara viviam anteriormente na faixa entre o Mearim e o
Tocantins; em meados do século XIX, tinham duas aldeias próximo à colônia
militar Santa Tereza, hoje Imperatriz, com uma população acima de duzentas
pessoas, e entre eles atuava um missionário carmelita. Em 1872, já estavam nas
cabeceiras do rio Cajuapara, um formador maranhense do Gurupi, numa aldeia de
400 a 500 habitantes. Contavam que tinham emigrado das vizinhanças de
Imperatriz porque, na ausência dos homens, sua aldeia fora atacada por
moradores do sertão, que raptaram muitas crianças indígenas. Em represália,
eles queimaram uma fazenda vizinha, matando sete pessoas, e daí saíram,
temendo a vingança dos sertanejos. Nimuendajú visitou-os no Cajuapara em
1914-1915, onde tinham uma aldeia de cerca de cem habitantes. Em 1919, a população
tinha caído para 65. Pouco depois o SPI os transferiu mais para o norte, para o
Posto Felipe Camarão, na foz do rio Jararaca, um outro afluente da margem
maranhense do rio Gurupi. Reduziram-se, então, a uns poucos sobreviventes.
Por conseguinte, tanto os Krenyê de Cajuapara (oriundos do médio Tocantins)
quanto os Timbira do Araparitíua (oriundos do baixo Pindaré) convergiram para
o mesmo local, o Posto Felipe Camarão. Darcy Ribeiro, que subiu o rio Gurupi
nos anos 1949-1950, dá notícia, nos seus Diários Índios (1996, pp. 84-85,
87, 93, 166-168, 196-200) da presença desses Timbira, sem mais distinguir suas
diferentes origens. Eram ao todo 23 indivíduos, que moravam no Posto Felipe
Camarão, na aldeia de Sordado (ao que parece de uma só casa) acima desse
posto, e, mais abaixo, no Posto Pedro Dantas, o local onde se fez o primeiro
contato com os Kaapor. Alguns eram casados com não-Timbira, índios ou não.
Ribeiro reuniu todos num mesma esquema genealógico, e colheu de seu líder a
terminologia de parentesco e alguns mitos (um deles, o dos gêmeos, dos Tembé).
Esse líder, que sabia falar as línguas portuguesa, tembé e kaapor, e era o
que mais conhecia a língua timbira, não tinha muita segurança na pronúncia
das palavras desta última. Em suma, os índios atualmente conhecidos como Krenyê,
que vivem na Terra Indígena do Alto Guamá, no município paraense de
Paragominas, descendem dos Timbira do Gurupi que Darcy Ribeiro conheceu. Dados
relativos ao ano de 1990 indicam uma população de 813 indivíduos para essa
terra indígena, habitada por Tembé, Kaapor, Guajá, Munduruku e Krenyê, mas não
especificam os números por etnia.
Os Põrekamekrá, no início do século XIX, tinham duas aldeias entre o alto
Grajaú e o rio Farinha, um pequeno afluente do rio Tocantins ao norte de
Carolina. Uma delas fez a paz com os brancos e compareceu a Carolina (então São
Pedro de Alcântara), conduzida por seu chefe "Cocrît", trazendo
galhos verdes em sinal de paz. Meses mais tarde a aldeia transferiu-se para
perto desta vila, mas seu chefe foi aprisionado e seus seguidores sofreram nas mãos
dos brancos tantos abusos que parte deles se refugiou junto aos Krahó (migrados
da bacia do rio Balsas, afluente do Parnaíba, para o rio Farinha). A outra
aldeia foi assaltada por um expedição de São Pedro de Alcântara, ajudada
pelos Krahó. Os assediados, persuadidos por falsas promessas transmitidas pelo
referido chefe "Cocrît", apresentaram-se diante da expedição em número
de 364, sendo ali mesmo atacados, uns mortos, outros aprisionados, enquanto
alguns fugiam. Dos 164 aprisionados, 130 foram embarcados para serem vendidos no
Pará. Junto com esta segunda aldeia dos Põrekamekhrá foram atacados também
os Põkateyê. Retirando-se os segmentos finais dos dois nomes, kamekrá e kateyê,
comuns nos etnônimos timbira, e considerando-se o re como diminutivo, todos os
dois nomes são constituídos por põ. Mas Curt Nimuendajú lhes dá traduções
diferentes: enquanto põre, do primeiro etnônimo, seria o nome da coruja caburé,
põ, do segundo, significaria campo (cerrado). De qualquer modo, faltam outras
informações sobre os Põkateyê.
Os Krorekamekrá (krore = caititu) também viviam na região de Carolina e eram
inimigos dos Krahó. Curt Nimuendajú ainda viu uns poucos descendentes deles na
aldeia dos Canelas.
Os Krepumkateyê (Krepum = nome próprio de um lago; seria referência a um
lugar onde as emas põem, pum, ovos, kre) viviam próximo ao local anteriormente
ocupado pelos "Caracategé", no rio Grajaú, sendo provavelmente
descendentes deles. Ajudaram a perseguir os Guajajara
após o episódio de Alto Alegre, em que morreram missionários capuchinhos, em
1901. Em 1919, Nimuendajú os encontrou em decadência, sem terra e na dependência
de um fazendeiro. Esse etnólogo conjectura que os poucos Karenkateyê (karen =
lodo) que encontrou na aldeia dos Canelas poderiam ser "Caracategé",
com base na semelhança dos nomes e na posição, segundo a rosa-dos-ventos, que
eles ocupavam na praça central da aldeia. Faz, com menos convicção, uma
suposição alternativa: a de que seriam "Canacategé", que moravam no
rio Farinha, afluente do Tocantins. Estes, no começo do século XIX, apesar de
pedirem paz, foram atacados por uma expedição de Carolina apoiada pelos Krahó,
sendo parte escravizados para serem vendidos no Pará e os outros dispersados.
Por conseguinte, todos os Timbira da faixa entre o Mearim e o Tocantins daí de
deslocaram ou foram dispersados ou aniquilados, com exceção dos Pukobyê e dos
Krinkati. Mesmo esses dois se viram em dificuldades. É bastante provável que
os Gaviões do Oeste, que habitam a floresta junto ao rio Tocantins, no Pará,
seriam uma facção dos Pukobyê que deles se separou no século passado,
recusando-se ao contato com os colonizadores. Os Krinkati, por sua vez, viram-se
de tal modo reduzidos em sua terras, que chegaram a dispersar no início do século
XX, e durante alguns anos não tiveram aldeias; entretanto, conseguiram
novamente erigi-las.
Dos Timbira que ficavam a leste do Mearim, os Krahó foram os que sofreram maior
deslocamento. No início do século XIX viviam próximo ao rio Balsas, afluente
do Parnaíba. Afastados daí pelo avanço da frente pecuarista, deslocaram-se
para junto do rio Farinha, um afluente do Tocantins, onde, cooptados por
fazendeiros e por um comerciante que tinha base em Carolina, ajudaram-nos a
combater os Timbira da faixa entre o Mearim e o Tocantins. Em meados do mesmo século,
foram transferidos mais para o sul por um missionário capuchinho para terras
hoje no Estado do Tocantins.
Dois povos Timbira da faixa entre o Mearim e o Itapicuru desapareceram como
grupos autônomos. Um deles foi os Txokamekrá (txó = raposa), também
conhecidos como Mateiros, que viviam entre a margem direita do Mearim e a
esquerda do rio Itapicuru, de Caxias para o sul, nucleados ao longo do rio das
Flores, afluente do primeiro. Sofreram uma derrota dos brancos no fim do século
XVIII. Foram surpreendidos por uma outra expedição em 1815. Refugiaram-se no
alto de uma serra. Os que daí desceram desarmados, enganados por propostas de
paz, aliança contra seus inimigos e promessas de ferramentas, foram
aprisionados e vendidos em leilão na praça de Caxias. Em 1818 revidaram,
aceitando os presentes de uma expedição, mas depois matando os expedicionários
que desciam com eles para Caxias, a fim de estabelecer um acordo. Em 1847 ainda
se registrava a existência de duas aldeias suas. Passaram por uma epidemia em
1855. Inimigos dos Ramkokamekrá, que chegaram a ajudar os brancos contra eles,
acabaram por fundir-se com eles ainda no século XIX. Doenças os levaram a
separar-se deles. Porém, cada vez mais acossados pelos sertanejos, voltaram a
se juntar aos Ramkokamekhrá por volta do início do século XX. Nimuendaju, que
pesquisou entre estes últimos em 1929-1936, foi aí adotado por uma família
Txokamekrá. O mesmo aconteceu com etnólogo William Crocker, que iniciou suas
pesquisas com os Canela nos anos 1950.
Também desapareceram os Kenkateyê em 1913, num massacre traiçoeiro promovido
por um fazendeiro. Viviam nas cabeceiras do Alpercatas, afluente do Itapicuru.
Os poucos que escaparam ao massacre procuraram refúgio sobretudo entre os povos
que parecem ter-lhes dado origem, em meados do século XIX: os Apanyekrá e os
Krahó.
Desta faixa, portanto, restaram os Krahó, os Canelas e os Apanyekrá, em cujas
aldeias foram abrigados descendentes de outros Timbira que se dispersaram.
A cultura timbira. A cultura de cada povo timbira
atual é tema de seus respectivos verbetes. Aqui se apontará simplesmente
aquilo que têm em comum. As semelhanças começam pela própria aparência que
dão ao corpo. O corte de cabelo é o mesmo para ambos os sexos, longos, com um
sulco em torno da cabeça à altura da franja, interrompido, menos para os
Apinayé, na parte posterior. Os homens trazem grandes batoques auriculares; os
Gaviões do Oeste furavam também o lábio inferior. As jovens, sem filhos,
tinham um cinto de vários cordéis de tucum. Entre a maneira de se apresentar
do período pré-contato e as tendências atuais de cada vez mais adotarem o
vestuário dos civilizados, os Timbira do cerrado mantiveram uma indumentária
feita com artigos dos civilizados, mas com características próprias: os homens
escondiam o sexo com um retângulo de tecido preso a um cinto de couro ou um
cordel; às vezes, ao viajar, faziam a tanga com a parte superior das calças,
que eram amarradas às cintura com as pernas; vestiam-nas normalmente só quando
se aproximavam de locais habitados por civilizados. As mulheres se cobriam da
cintura aos joelhos com uma peça de pano, que tinham o cuidado de embainhar com
agulha e linha; no pescoço, várias voltas (podiam chegar a trinta) de miçangas,
guarnecidas com um feixe de medalhas católicas (chamadas de "verônicas").
Esses vestuário era usado sem prejuízo da pintura de corpo.
Também assemelham-se na cultura material. Usam cabaças como recipientes para
água e alimentos, em lugar de cerâmica. Dormem em estrados forrados com
esteiras, em lugar de redes de dormir. Fazem uma profusão de artefatos feitos
de palha trançada: cestos, esteiras, faixas. Assam bolos de mandioca e carne,
envolvidos em folhas de bananeira brava, sob pedras previamente aquecidas. Água
ou caldos também podem ser posto a ferver quando colocados em cabaças ou
capembas, mergulhando-se no líquido pedras aquecidas. Hoje, o uso de pedras
aquecidas é mais freqüente no preparo de bolos para os ritos; para a alimentação
cotidiana se usam panelas de ferro. Não há vestígios de como seriam as casas
antes do contato com os brancos. As de hoje, de origem sertaneja, são
retangulares, com teto de duas águas coberto de folhas de palmeira. As paredes,
de troncos verticais entremeados com palha, tendem casa vez mais a serem
substituídas por barrote. Geralmente faltam as divisões internas da casa
sertaneja, assim como as janelas.
Nas aldeias timbira, as casas se dispõem uma ao lado da outra, ao longo de um
largo caminho, de modo a formar um grande círculo. De cada casa sai um caminho,
mais estreito, em direção ao centro, onde está o pátio. Este, ao contrário
do que acontece com aldeias de outros povos jê, não tem casa-dos-homens ou
qualquer outra construção. Isso não impede os rapazes de dormirem nele ao
relento quando não chove. O pátio é o local das reuniões masculinas, ao
amanhecer e ao anoitecer. Nele as mulheres cantam dispostas em fila, ombro a
ombro, conduzidas por um cantor que agita o maracá.
O casamento, monogâmico, implica na transferência do marido para casa onde
vive a mulher. A união se torna estável depois do nascimento do primeiro
filho. Mas há ampla liberdade sexual para solteiros e casados. Casas contíguas
oriundas do desdobramento de uma casa anterior são, por força da regra de
residência pós-marital, relacionadas entre si por linha feminina e formam uma
unidade social. As pessoas nascidas num mesmo segmento de casas desse tipo não
casam entre si. Tais segmentos são, pois, exogâmicos.
Dentro do espaço da aldeia, as direções têm significado. É preciso estar
atento para oposições como centro/periferia, leste/oeste, alto/baixo e outras
para se chegar a ter algum entendimento dos vários ritos que aí se realizam. Há
ritos relacionados ao ciclo de vida dos indivíduos, os relativos ao ciclo anual
e ainda os associados a um ciclo mais longo, de iniciação.
Desses ritos fazem parte as corridas de revezamento, em que cada uma das duas
equipes que as disputam carrega uma seção de tronco de buriti (ou de outro
vegetal). O formato das toras (longas ou curtas, maciças ou ocas, cavadas ou
com cabos), seu tamanho e seus ornamentos variam conforme o rito em realização.
Para essas disputas, mas não somente para elas, cada povo timbira se divide em
duas partes, ditas metades. O mesmo povo pode dividir-se em distintos pares de
metades, cada qual com seu critério de afiliação: nome pessoal, faixa de
idade, livre escolha, mas, ao que parece, em nenhum caso descendência
unilinear.
O nome pessoal, além de critério importante para afiliação a metades, também
está associado a certos papéis rituais, que são herdados com ele. O nome
masculino é transmitido por parentes de uma categoria que inclui o tio materno,
o avô materno e o avô paterno entre outros; o nome feminino, pela categoria de
parentas que inclui a tia paterna, a avó paterna e a avó materna, entre
outras.
Essa identificação pelo nome, de caráter mais ritual, se contrapõe a uma
outra que associa parentes geralmente integrantes da mesma família elementar.
Trata-se das evitações alimentares, sexuais ou de outros tipos de
comportamento que devem ser respeitadas quando um filho ou filha, pai ou mãe,
irmão ou irmã de um indivíduo passam por um período de crise, como os
primeiros dias de vida, uma enfermidade, a picada de um animal peçonhento,
baseadas na crença de que o que afeta a um também afetará o outro. Esses laços
costumam ser chamados "de substância" nos livros de etnologia.
Os termos de parentesco classificam filhos dos tios de sexos opostos aos dos
pais com parentes de outras gerações. A aplicação dos termos aos parentes
distantes pode afastar-se do padrão quando envolve portadores do mesmo nome
pessoal, parentes para com os quais se mudou de atitude, amigos formais. Quanto
a esses últimos, vale esclarecer podem ser de dois tipos: aqueles unidos por
uma amizade mais espontânea, que os faz iguais, como se fossem irmãos; e os
ligados por um laço mais rígido, marcado simultaneamente por uma solidariedade
exagerada e pela evitação, que os faz como contrários.
Seus grupos locais se relacionam pela chefia honorária, constituída pela
aclamação de um morador de uma aldeia pelos de outra, da mesma ou de outra
etnia, estabelecendo uma relação de paz e amizade, e proporcionando hospedagem
de uns na aldeia dos outros.
Seus mitos, que estão referidos nos verbetes específicos de cada etnia
timbira, são na grande maioria os mesmos, com pequenas variações: Sol e Lua e
a criação dos seres humanos, do trabalho, da morte, da menstruação, dos
animais importunos e peçonhentos; a Mulher-Estrela, que ensina o uso dos
vegetais cultiváveis; a luta contra o grande gavião e a grande coruja e a
origem do rito de iniciação Pembyê; a assunção de um homem aos céus pelos
urubus, de onde traz o conhecimento do xamanismo e do rito de iniciação
Pembkahëk; o conhecimento do uso do fogo, que foi tomado das onças; a
transformação de alguns seres humanos em monstros, como o Perna-de-Lança; o
surgimento do homem branco pela exclusão de um membro anômalo do seio da
sociedade indígena. É constante, pois, nessa mitologia a passagem de
conhecimentos de fora para dentro da sociedade e de certos seres no sentido
contrário. Além dos mitos, os diferentes povos timbira fazem narrativas de caráter
mais histórico, geralmente episódios de conflito e guerra.
Aspectos contemporâneos. No passado, a instituição da chefia honorária era o único elo formal que podia relacionar povos timbira, ou melhor, ligar duas a duas, aldeias do mesmo povo, ou de dois povos timbira, ou ainda de um povo timbira com a de um não-timbira. Em tempos recentes os Gaviões do Oeste têm mostrado interesse em conhecer os outros povos Timbira, visitando-os, como ilustra o vídeo Eu já fui seu irmão, de Vincent Carelli. O empenho dos diferentes povos timbira em defender seus interesses comuns conduziram à criação, em 1994, da Associação Vy'ty Cati, com sede em Carolina, no Maranhão.
Nota sobre as fontes. Aqui se fará referência a
fontes que tratem de todo o conjunto dos povos Timbira ou que façam comparações
entre os mesmos. Não existe um trabalho geral sobre os Timbira, mas Curt
Nimuendajú, em seu livro sobre os Canela, The Eastern Timbira, faz uma breve
histórico de cada povo timbira, inclusive os extintos sobre os quais há alguma
informação. Dentre as fontes históricas destacam-se as memórias de Francisco
de Paula Ribeiro, militar português que comandava as tropas do sul do Maranhão
no começo do século XIX.
São poucos os trabalhos que comparam diferentes povos timbira. Roberto DaMatta,
pela comparação das versões krahó e canela do mito de origem dos
civilizados, discute a complementaridade do avô materno e tio materno no que
tange à autoridade doméstica. Maria Elisa Ladeira, mediante o estudo dos Krahó,
Apanyekrá e Apinayé, relaciona demografia, transmissão de nomes pessoais e
sistema matrimonial. Julio Cezar Melatti toma os grupos da praça entre os Krahó,
Canela e Krinkatí, como transfiguração simbólica das diferentes
possibilidades do indivíduo se relacionar com o grupo. Dolores Newton encontra
distinção entre os Krinkatí e Pukobyê no exame da técnica de torcer os fios
de algodão e de trançá-los na confecção de redes de dormir. Maria Elisa
Ladeira e Gilberto Azanha, no artigo "Os 'Timbira atuais' e a disputa
territorial", dão notícia da situação das terras de cada povo timbira.
Vincent Carelli, num vídeo, mostra como os Gaviões do Oeste e os Krahó numa
troca de visitas, se estudam e se comparam.
Julio Cezar Melatti
Universidade de Brasília
melatti@unb.br
janeiro de 2000
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