Os Tingui-Botó estão localizados no município alagoano de Feira Grande. Foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Unuiversidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Este órgão instalou em 1983 o Posto Indígena Tingui-Botó (Portaria 817/N/83). Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese. À substituição de uma identidade "acanhada" de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se os desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar. Este fenômeno está se tornando freqüente entre populações indígenas do nordeste, tornando a etnia um fator aglutinador e mobilizador na luta por terra e condições de trabalho.
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio, e revitalizou entre os caboclos o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da "taba", ou seja do território sagrado, onde ele se realiza, cerca de dois hectares de terra mantidos historicamente com essa provável finalidade. Não há porém registro de como se deu esta preservação. Esta versão da origem do nome Tingui-Botó me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó, na década de 1980.
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, manter algumas palavras "na idioma", ou seja em sua língua ancestral, que utilizam no Ouricuri. Não há registro destes termos, dada a ausência de estudos lingüísticos.
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento). Produziam também artesanato de palha, e ainda o fazem, mas vem escasseando devido a diminuição da palmeira de cuja palha se servem para a fabricação das peças.
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.
De acordo com o Relatório da FUNAI, referente a 1997, a população atual é de 180 habitantes. Há controvérsias dentro do próprio órgão tutelar, que registra 342 indígenas em 1983 (FUNAI/3. DR/83). Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas e presidente do Grupo Especial de Estudos Indígenas de Alagoas, que envia em 1980 o primeiro relatório sobre o grupo para a FUNAI, eleva o número para 800, em dados referentes a 1984. Tais discrepâncias são atribuídas pelos especialistas à dispersão do grupo e à possível existência de não-índios nas terras adquiridas. Em 1997, contudo, a FUNAI dá notícia de apenas 28 invasores.
Olho d'Água do Meio dista três quilômetros de Feira Grande, 23 de Arapiraca e 155 de Maceió. Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) , existe uma escola na área para atender à comunidade indígena. Para atendimento médico, a população tem de deslocar-se para as cidades de Arapiraca ou Maceió.

 

Nota sobre as fontes. Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, Tingui-Botó: uma etnografia, apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto "shocós" de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como "shocó"ou "xocó". Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).

Fontes de Informação

 

Vera Lúcia Calheiros Mata
Universidade Federal do Rio de Janeiro (aposentada)
verabrito@callnet.com.br
maio de 1999

 

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