Os índios reconhecem o termo Waiãpi como designação inclusiva para todos
os subgrupos que vivem nessa área, correspondendo, portanto, à autodenominação
do povo. Utilizam, também, como autodesignação a expressão iane, nós.
Nos mitos de origem, os Waiãpi situam-se como uma etnia diferenciada,
globalmente, dos outros povos por eles conhecidos: os brasileiros (karai-ku),
os franceses (parainsi-ku) e os grupos indígenas vizinhos (Wayana-Aparai,
Tiriyó, Karipuna, Galibi e Palikur). A tradição estabelece que, no tempo mítico,
todos os povos viviam juntos e teriam sido separados pela intervenção do herói
criador, Ianejar ("nosso dono"). Após esta separação, as
outras etnias se distanciaram e, desde então, os Waiãpi consideram que habitam
o "centro da terra". Ali, eles se dividiram em diferentes grupos que
se reconhecem como "parentes".
Língua. A língua falada pelos Waiãpi se inclui na
família Tupi-Guarani. Com os Emerillon do rio Oiapoque, na Güiana Francesa, são
os únicos representantes desta família linguística na área. O conhecimento
do português, por parte destes Waiãpi, está progredindo rapidamente: em todas
as aldeias encontram-se de 5 a 10 homens entre 15 e 35 anos que falam bem o
português. As mulheres e as crianças, com raras exceções, não falam essa língua,
embora entendam a maior parte das conversas.
Existem Waiãpi também na Güiana Francesa, cuja língua apresenta diferenças
dialetais a nível fonético e lexical, por ter recebido influências de línguas
Karib. Entre estes Waiãpi do Oiapoque, a maioria dos homens fala francês e
muitos conhecem também a língua Wayana.
Contanto. A história dos Waiãpi nos últimos 250
anos corresponde à expansão desse povo rumo ao norte, desde sua origem no
baixo rio Xingu até sua instalação na área que ocupam hoje. Nos últimos 100
anos, essa migração os levou a abandonar os grandes eixos, como o rio Jari,
para se instalar nas cabeceiras e nos afluentes dos rios Jari, Amapari e
Oiapoque. Nestas regiões, experimentaram diferentes processos de relações
intertribais e interétnicas, que resultaram na diferenciação dos atuais
subgrupos Waiãpi.
Em 1973, os Waiãpi do Amapari foram "contatados" por uma equipe de
atração da Funai que preparava, naquela região, os trabalhos de abertura da
rodovia Perimetral Norte (BR 210). Quando os trabalhos de construção da
estrada foram interrompidos em 1976, o trecho final já penetrava por mais de 30
km a área indígena. A estrada, aliada à uma fiscalização inadequada, abriu
as terras dos Waiãpi aos invasores: inicialmente caçadores de peles, depois
garimpeiros e, mais recentemente, interesses de empresas de mineração, atraídas
pelas importantes jazidas de ouro, cassiterita, manganês e tântalo da região.
Ao mesmo tempo, crescia a pressão nos limites da área, na medida em que as
margens da Perimetral Norte vinham sendo ocupadas por serrarias, fazendas e
garimpos, alimentados pelos centros urbanos próximos (Serra do Navio, a 90 km
da área indígena, e Macapá, a 370 km).
A partir dos anos 80, os Waiãpi assumiram expulsar, sozinhos, os invasores de
seu território. Ao mesmo tempo, deram início a várias atividades de controle
territorial e de diversificação do extrativismo na área tradicionalmente
ocupada.
As dificuldades de subsistência nas aldeias super povoadas e as mais atingidas
pela proximidade da rodovia Perimetral Norte e, consequentemente, pelo
esgotamento dos recursos naturais, fez com que muitas famílias voltassem aos sítios
de ocupação tradicional, em zonas distantes dos Postos da Funai e das missões
de fé (MNTB - Missão Novas Tribos do Brasil, SIL - Sociedade Internacional de
Lingüística) que atuam na área, ou se dispersassem em pequenas aldeias
situadas num raio de 5 a 20 km dos Postos. Atualmente, há 13 aldeias
permanentes além de numerosos acampamentos dispersos em toda a extensão da área
indígena.
Em 1990, o presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio) interditou a Área
Indígena Waiãpi, com 543.000 ha, nos municípios de Almerim, Mazagão e Macapá,
no Amapá. Em 1994, iniciou-se, com apoio do governo alemão, no contexto do
PPG-7 ( ), a autodemarcação da área indígena Waiãpi. Neste mesmo ano, foi
fundado o Conselho das Aldeias Waiãpi, reunindo todos os chefes de famílias
extensas, que escolheram sua diretoria . Esta associação é também denominada
Apina, nome de um subgrupo da etnia lembrado pela sua valentia na guerra: eram
os Waiãpi que "flechavam longe". Seus objetivos principais são
garantir uma representação mais direta da comunidade junto às autoridades e
buscar soluções para reorientar o relacionamento com as agências que atuam na
área.
Vida cerimonial. A vida cerimonial dos Waiãpi é intensa, marcada por grandes ciclos de rituais como a festa do milho (no inverno), a festa do mel e as danças dos peixes. Esses ciclos constituem-se em cantos ordenados, que nem sempre são conhecidos por todos, dando lugar a reuniões entre comunidades para participação na festa, com danças e cantos das músicas coletivas, acompanhadas de flautas de diversos tipos. Durante essas reuniões são distribuídas grandes quantidades de caxiri preparadas por uma ou duas mulheres, cujos maridos são os "donos" da festa. A maioria dessas festas tem caráter profano. Certas danças, como as do milho, a dos peixes e o ciclo do turé, contêm elementos rituais mais preeminentes. Dançam mais em momentos de crise, para agradar e aplacar Ianejar, herói criador, que sempre ameaça destruir a humanidade. Por outro lado, os rituais associados à iniciação das meninas são realizadas no âmbito familiar e raramente dão lugar a festas coletivas.
Agricultura. A agricultura é uma atividade central na vida dos Waiãpi. A abertura das clareiras condiciona a localização das habitações permanentes e o ritmo dos deslocamentos sazonais; o produto das plantações, de curto, médio e longo ciclo, contribuem em praticamente 50% dos alimentos consumidos pelo grupo. Os trabalhos agrícolas são realizados segundo técnicas tradicionais de queima e coivara; o uso de machados de ferro, aos quais os Waiãpi do Amapari têm acesso regular há apenas 30 anos, modificou, segundo eles, o tamanho das clareiras, sem alterar, porém, o ritmo dos trabalhos agrícolas. Queimar e limpar as roças são atividades coletivas, nas quais um chefe de família é ajudado por outros membros da comunidade, num sistema de mutirão denominado pusirõ. Na roça, as espécies cultivadas são plantadas sem ordem aparente. Há uma nítida ênfase para a mandioca brava, cujos sub-produtos -farinha, beiju, tapioca, tucupi e caxiri- constituem a base da alimentação. Os outros produtos cultivados são o milho, a banana, o cará e a batata doce, cana de açúcar e frutas como caju, mamão, abacaxi, além da pimenta, amendoim e feijão. Os Waiãpi cultivam, ainda, o urucum, a cana para as flechas, o curauá, do qual obtêm fibras para cordas, o veneno de pesca, o algodão, cuias e cabaças. Para cada espécie, os Waiãpi possuem um número elevado de variedades: conhecem mais de quinze tipos de mandioca brava, dez tipos de batata, outros dez de cará, cinco de milho, etc...
Localização. Os Waiãpi ocupam,
há mais de dois séculos, uma vasta área situada nos confins do Brasil e da
Guiana Francesa, delimitada pelas bacias dos rios Jari, Oiapoque e Araguari.
No lado brasileiro dividem-se em três subgrupos territoriais: o grupo do alto
Jari/Cuc, o grupo "arredio" do alto Ipitinga e o grupo principal da
região do Amapari.
O grupo do alto Jari dispersou-se entre os anos 1967 e 1981: a maioria migrou
para a Guiana Francesa, habitando aldeias situadas à margem do rio Oiapoque, e
outros foram transferidos pela Funai, em 1982, para o Parque Indígena do
Tumucumaque. Somavam na época, 10 indivíduos.
Fora da TI Waiãpi, há notícias de dois subgrupos isolados da mesma etnia, que
ocupariam, respectivamente, as cabeceiras dos rios Amapari e Anakui, no Amapá,
e o alto rio Ipitinga, no Pará. São poucas as informações disponíveis sobre
estes subgrupos. Em 1975 a Funai realizou um sobrevôo e localizou uma maloca
grande com uma população estimada em 80 índios.
A região do Amapari é a área de concentração atual dos Waiãpi que vivem no
Brasil. Corresponde à região delimitada a oeste pelo rio Inipiku
(Mapari), ao sul, pelo rio Karapanaty (Aroã), afluente do baixo
Inipuku, e, a leste, pelos igarapés Onça e Kumakary (Água Preta),
afluentes do rio Felício, que desemboca no rio Amapari. Esta área inclui-se
nos municípios de Mazagão e Macapá, no estado do Amapá.
Trata-se de uma área de floresta tropical densa, onde predominam pequenos
cursos d'água, praticamente todos encachoeirados. A região é extremamente
acidentada, formada por uma sucessão de colinas e alguns planaltos, situados
nos contrafortes das serras do Iratapuru, Ipitinga e Tumucumaque. Os solos,
predominantemente argilosos e arenosos, são ácidos, apresentando alto risco de
erosão. O clima, de tipo equatorial, quente e úmido, oscila entre um período
de chuvas, de janeiro a julho (inverno), e um de seca, de agosto a dezembro (verão).
No Brasil, estão distribuídos em 13 aldeias na TI Waiãpi, recentemente
demarcada.
População. Dados demográficos dos últimos
25 anos demonstram que os Waiãpi têm tido um crescimento populacional
constante, sendo que a taxa de natalidade cresceu muito nos anos que se seguiram
ao contato com a Funai, ocorrido em 1973.
Nessa época, eles contavam, no Brasil, com 151 indivíduos. Quinze anos depois,
somavam 310 indivíduos. Hoje são 498 indivíduos no Brasil (censo de 1994) e
412 na Guiana Francesa (censo de 1992), totalizando uma população de
aproximadamente 910 pessoas.
A aldeia. A composição da aldeia Waiãpi não é
constante: os membros do grupo local estão sempre em movimento entre as aldeias
e as casas provisórias construídas junto às roças. Cisões políticas e
reunião de membros de grupos distintos contribui para a recomposição
constante da população das aldeias, assim como surtos de doenças, mortes e
problemas de invasões intermitentes do território por garimpeiros. O ciclo agrícola
e o esgotamento da caça também influenciam o deslocamento dos Waiãpi por seu
território.
A aldeia Waiãpi não apresenta formato característico, as casas estão
dispersas no espaço limitado pelo igarapé ou pelo rio e pelas roças, deixando
livre uma praça (okara) onde se realizam as atividades sociais e
rituais. Cada casa corresponde a uma família nuclear ou, em raros casos, a uma
família extensa, abrigando em média 4 a 7 pessoas.
As casas do tipo tradicional são casas palafíticas construídas sobre estacas
que podem chegar à altura de dois metros: tem-se acesso ao estrado por uma
escada esculpida num tronco de árvore. A cobertura, em duas águas, é feita de
folhas de ubim e palha preta. Atualmente elas vêm sendo substituídas por
grandes construções baixas, sem paredes, ou ainda por simples tapiris de
construção rudimentar e provisória. Além das casas de habitação, há também
em todas as aldeias, na proporção de uma para duas ou três casas, construções
que servem de cozinha, com jiraus, os pontos para o fogo e todos os instrumentos
para o processamento da mandioca. Estas construções servem para várias famílias
nucleares e nela se reúnem mães e filhas para a preparação dos alimentos.
Dominique T. Gallois (USP)
Universidade de São Paulo
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