Primeiros contatos. As primeiras notícias
de um povo com características culturais semelhantes às dos Xetá datam do
final do século passado e início do século XX. Entretanto, de todos estes
registros, apenas aquele efetuado por Bigg-Wither leva-nos a supor que os Xetá
podem ser descendentes daqueles por ele nomeados Botocudo.
Os Xetá foram a última etnia do Estado do Paraná a entrar em contato com a
sociedade nacional. Na ocasião, 6 de dezembro de 1954, um grupo de seis pessoas
do sexo masculino, cansadas das constantes fugas das frentes de colonização
que avançavam sobre o seu território desde o final da década de quarenta
reduzindo-o drasticamente, buscam estabelecer uma primeira relação com o
administrador da fazenda Santa Rosa e seus familiares, que havia se instalado
efetivamente no local de caça e coleta do grupo desde 1952.
Vencidas as incertezas da aproximação, os seis Xetá retornam ao interior da
floresta, voltando dias depois acompanhados por seu núcleo familiar, incluindo
as mulheres e as crianças. A permanência do grupo na propriedade é rápida e
suas visitas tornam-se periódicas.
Em 1955, informados do contato direto dos Xetá com os moradores da fazenda
Santa Rosa, a 7ª Inspetoria Regional do Serviço de Proteção aos Índios
organizou expedições de contato à região da Serra dos Dourados: uma em
outubro e outra em novembro do mesmo ano. Porém, apenas esta última expedição
alcançou aquele grupo que visitara a fazenda.
Posteriormente, em fevereiro de 1956, uma expedição de pesquisa coordenada
pelo professor e antropólogo José Loureiro Fernandes, da Universidade Federal
do Paraná, localizou duas outras aldeias no interior da floresta. Nenhum membro
do grupo encontrado acompanhou a equipe. Tampouco são avistados novamente pelas
expedições realizadas em períodos subseqüentes. A partir de então, não são
localizados outros grupos e apenas o núcleo familiar que se aproximou dos
moradores da fazenda continua a freqüentá-la.
Contato oficial. Embora o primeiro
contato direto dos Xetá com os brancos só tenha se dado oficialmente em 1954,
as evidências de sua presença na região já eram registradas pelas frentes de
colonização desde o final da década de quarenta. Na ocasião, 1949, e
posteriormente em 1951 e 1952, a 7ª Inspetoria Regional do SPI, com sede em
Curitiba, enviou funcionários ao local no intuito de que o grupo fosse
localizado. Porém, nenhum dos enviados alcançou êxito em sua missão, apesar
de haverem comprovado a presença indígena no local através de diferentes vestígios,
como por exemplo aldeias recém-abandonadas e objetos de cultura material. Neste
último ano, dois meninos foram capturados por agrimensores que atuavam na região
e levados para Curitiba, onde foram criados pelo inspetor do SPI.
A ocupação do território Xetá deu-se, principalmente, através das seguintes
frentes: (1) a expansão da cafeicultura, amplamente difundida no norte do Paraná;
(2) implantação e implementação das fazendas de criação de gado e
agricultura, e (3) as ações das companhias de colonização e imigração que
obtinham terras do governo a baixo custo, loteavam-nas e promoviam a sua ocupação.
No mesmo período, do qual datam as primeiras notícias da presença indígena
no noroeste paranaense, os problemas fundiários agravavam-se no Estado, pois o
governo, movido pelo ideário de ocupação dos espaços vazios e perspectivas
de desenvolvimento econômico, havia oferecido mais títulos e promessas de
terras do que aquelas que realmente possuía.
O contato dos Xetá com a fazenda Santa Rosa resultou em duas propostas de
reservas de terra para o grupo, defendidas junto às esferas estadual e federal.
A primeira delas foi apresentada em outubro de 1955 pelo Deputado Estadual Antônio
Lustosa de Oliveira, também proprietário da Fazenda Santa Rosa, que propôs a
criação de uma reserva florestal estadual com um local reservado aos Xetá. A
área então indicada para reserva abrangeria uma parte do território
tradicional Xetá. A proposta, mesmo aprovada pela Assembléia Legislativa, foi
vetada pelo Governador do Estado do Paraná, Moysés Lupion, sob a justificativa
de que o estado não dispunha de terras.
O veto à proposta do Deputado impulsiona a apresentação de uma nova
modalidade de reserva florestal em 1957, desta vez, sob a forma de Parque
Nacional, que incluiria parte da área florestal proposta anteriormente e também
uma parte do território Xetá. É defendida, então, a criação do Parque
Nacional de Sete Quedas por José Loureiro Fernandes, que reivindica a destinação
de uma área para os Xetá em seu interior.
A aprovação do Parque Nacional em 30 de maio de 1961, reconhece nos limites do
parque o habitat Xetá que deveria ser definido pelo Serviço de Proteção ao
Índio do Ministério da Agricultura. No entanto, sua criação não implicou em
garantia de território para aquele grupo que buscou o contato com o
administrador da fazenda Santa Rosa e, tampouco, protegeu aqueles que ainda
fugiam da aproximação com os brancos no interior da mata.
Ao contrário, várias crianças foram pegas por brancos para serem por eles
criadas e alguns Xetá que viviam nas imediações da Fazenda Santa Rosa foram
levados por agentes da 7ª Inspetoria Regional do SPI para outras áreas indígenas
do Paraná. Aqueles índios que permaneceram no que restou do seu território de
origem vagavam pelos povoados que rapidamente se instalaram na região.
Em 1981, o decreto nº 86041 põe fim ao Parque Nacional de Sete Quedas sem que
os Xetá tivessem nele garantidas as suas terras.
Desde o período das primeiras notícias da presença Xetá na região noroeste
do Paraná, até a data da criação do Parque Nacional de Sete Quedas, houve
uma grande dizimação da sociedade que, conforme os dados de memória dos
sobreviventes do grupo, já sofriam os efeitos da chegada das frentes
colonizadoras muito antes do estabelecimento do contato efetivo com os brancos.
As mortes foram provocadas por intoxicação alimentar, envenenamentos, doenças
infecto-contagiosas como gripe, sarampo e pneumonia, extermínio com armas de
fogo e queimas de aldeias, rapto de crianças, entre outras ações dos
invasores de seu território de origem. Daqueles Xetá que evitaram a aproximação
com os brancos não se teve mais notícias a partir de 1961.
Os trágicos efeitos da política colonizadora do governo do estado do Paraná
na região da Serra dos Dourados somados à omissão e negligência do SPI, no
que tange à sua competência enquanto órgão de assistência e proteção aos
povos indígenas, resultou na perda do território tradicional Xetá e na extinção
da sociedade, da qual sobreviveram apenas alguns indivíduos.
A população Xetá que habitava a região da Serra dos Dourados ainda hoje é
desconhecida, apesar de estimada, pelos registros documentais e bibliográficos
de época, em 250 indivíduos.
Os registros de memória dos sobreviventes Xetá, no entanto, apontam que o seu
povo era muito numeroso, aproximadamente 400 pessoas distribuídas em pequenos núcleos
familiares, ou seja, famílias patrilocais extensas, que a princípio habitavam
nas oka-auatxu (lugar grande, aldeia grande), formadas pelos tapuy-apoeng (casa
grande). Nestas habitações viviam várias famílias. Nelas eram realizados vários
rituais, inclusive o de iniciação masculina.
Posteriormente, em decorrência dos conflitos internos e interétnicos com os
Kaingang, e, mais tarde, com os colonizadores brancos, as fugas foram
intensificadas e os oka-kã (lugar pequeno, acampamentos) com seus tapuy-kã
(casas pequenas), ou seja, as moradias temporárias e provisórias, tornam-se a
principal habitação do grupo.
Oito sobreviventes. Os Xetá somam
hoje um total de oito indivíduos que sobreviveram à sua sociedade: três
mulheres e cinco homens. Todos eles ligados entre si pelos laços de parentesco.
Dados atuais de pesquisa indicam a possibilidade de existirem mais quatro
sobreviventes.
Diferentemente de outros povos indígenas brasileiros, os remanescentes Xetá não
vivem em sociedade e tampouco convivem em um mesmo espaço territorial
organizado em aldeias, nem compartilham dos mesmos códigos e pauta cultural de
seu povo. De caçadores e coletores, vivem hoje na condição de assalariados,
servidores públicos, empregados domésticos e bóias-frias. De herdeiros de um
território de ocupação tradicional, vivem como agregados em terras Kaingang,
Guarani, ou como inquilinos no meio urbano-rural.
Afastados pelos colonizadores do convívio em grupo desde a infância e adolescência,
os sobreviventes Xetá vivem em diferentes pontos no Estado do Paraná, Santa
Catarina e São Paulo. Seus descendentes somam hoje quarenta e duas pessoas que,
como eles, casaram-se com Kaingang, Guarani e não-índios. Os oito
sobreviventes são os seguintes:
1) Kuein Manhaa’ei Nhaguakã Xetá, 65 anos mora na área Indígena Rio das Cobras, município de Nova Laranjeiras/PR;
2) Tucanambá José Paraná (Tuca como é conhecido pelos brancos, ou Anambu Guaka [arara vermelha e nhambu] nome dado por seus pais), 52 anos, mora na área Indígena Rio das Cobras, município de Nova Laranjeiras/PR;
3) José Luciano da Silva (Tikuein como ficou conhecido pelos brancos ou Nhangoray [mão pelada] nome dado por seus pais), 48 anos, residente no Posto Indígena São Jerônimo, município de São Jerônimo da Serra/PR;
4) Maria Rosa à Xetá (à como é conhecida, ou Moko [tamanduá] como foi nomeada pelos seus), 48 anos, moradora do Posto Indígena Guarapuava, município de Turvo/PR;
5) Maria Rosa Tiguá Brasil, (Tiguá como é conhecida, ou Irajo [peixe]), 48 anos, residente na cidade de Umuarama/PR;
6) Ana Maria (Tiguá como é conhecida, ou Tunkaajo [tucano grande], 44 anos, residente em São Paulo/SP;
7) Tiqüein Xetá (Karombe [tartaruga]), 37 anos, residente em Nova Tebas/PR;
8) Rondon Xetá (Moha’ ay [bicho furão]), 34 anos morador do Posto Indígena Xapecó, município de Xanxerê/SC.
Os oito sobreviventes reconhecem-se
e identificam-se como Xetá. Três deles (Kuein, Tuca e Tikuein) falam
fluentemente a língua de seu povo e uma das mulheres (Ã) é capaz de entender
tudo que é falado por eles, porém se expressa verbalmente apenas em português.
Quanto aos demais remanescentes, e todos os seus descendentes, nenhum deles fala
o Xetá.
Até o ano de 1996, alguns sobreviventes também desconheciam a existência de
outros e o parentesco que os unia.
Encontro Xetá. Em agosto de 1997,
atendendo a solicitação dos oito remanescentes Xetá, o Instituto
Socioambiental promoveu em Curitiba o "Encontro Xetá: Sobreviventes do
Extermínio", ocasião em que estes e alguns de seus familiares se
conheceram e conversaram sobre si, sobre o presente, sobre o passado e as
perspectivas de um futuro melhor para eles e seus descendentes.
Como resultado do Encontro, os Xetá elaboraram um documento no qual solicitam
aos diferentes segmentos da sociedade nacional e às autoridades competentes o
seu reconhecimento, e de seus descendentes, como sobreviventes da etnia Xetá.
Reivindicaram, também, a atenção do órgão indigenista (FUNAI), indenização
financeira e em terra pela tragédia ocorrida a seu povo e pelas perdas que
tiveram ao longo de suas vidas. Outra reivindicação dos presentes à reunião
foi a retificação do registro de nome em seus registros civis, considerando-se
seus nomes indígena e o de seus pais.
Aos remanescentes Xetá se apresenta hoje a possibilidade de tentar reaver o mínimo
do tudo que lhes foi tirado num passado recente, sob diferentes pretextos. A
preocupação de todos em estarem próximos e acompanhando os destinos uns dos
outros tem sido um de seus principais objetivos.
Nota sobre as fontes. Os primeiros
registros etnográficos a respeito dos Xetá foram os do antropólogo José
Loureiro Fernandes, que fez expedições de pesquisa junto aos mesmos durante o
período de 1955 à 1961. Seus artigos e comunicações centraram na cultura
material do grupo, tecnologia, hábitos e costumes. Vladimir Kozák, cinetécnico
da UFPR, também escreveu artigos e publicou um livro que trata da mesma temática.
Sobre a cultura material Xetá, temos ainda os trabalhos de Annete
Laming-Emperaire, Maria José de Menezes e Margarida Andreata, publicados em
1964 e 1978, e o estudo de Tom Miller, divulgado em 1979, que trataram
especificamente da tecnologia lítica.
Somam-se a estes trabalhos, a monografia de conclusão do Curso de Especialização
em Antropologia Social de Maria Fernanda Maranhão apresentada ao Departamento
de Antropologia da Universidade Federal do Paraná em 1989, a respeito da
etnoarqueologia Xetá, e um artigo de Cecília Maria Vieira Helm, publicado em
1994, sobre as fontes etnográficas que registram a trajetória do extermínio
Xetá.
Sobre a língua Xetá temos os trabalhos de Cestimir Loukotka, publicados em
1929 e 1960, Mansur Guérios, em1959, e Aryon Dall’Igna Rodrigues, em 1978.
Mais recentemente temos relatórios de pesquisa, alguns artigos e uma dissertação
de mestrado defendida junto ao PPGAS/UFSC por Carmen Lucia da Silva, que examina
o contato e extermínio da sociedade Xetá, a partir dos registros de memória
de seus sobreviventes.
Além do material bibliográfico, temos ainda material audio-visual diverso: um
filme 16 mim produzido durante a década de 60 por Vladimir Kozák sob a direção
de José Loureiro Fernandes; fotos feitas por Vladimir Kozák e José Loureiro
Fernandes durante a década de 50 e 60, Carmen Lucia da Silva em 1996-1999 e Márcia
Rosato em 1997.
Carmen
Lucia da Silva
Pesquisadora do MAE/UFPR
Doutoranda em Antropologia Social/UnB
clsilva@unb.br
agosto de 1999
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